revista bula
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Valle a pena ler

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Eu gosto quase nada dos aforismos. Desgosto deles porque quase sempre expressam a verdade. E verdades incomodam como aquela que diz “santo de casa não faz milagre”. O escritor Fausto Valle enquadra-se neste seleto grupo de relegados.

Mineiro da sulfurosa Araxá, Fausto veio para Goiás ainda atado às fraldas. Percorreu o interior do Estado e há anos reside em Goiânia, capital bonita cada vez mais entupida de carros e motos (a idéia do Governo de baixar o IPI foi mesmo “ótima”...), e com um povo ruim de entender milagreiros. Fausto Valle criou a filharada zelando dos filhos dos outros. Foi médico pediatra renomado e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, onde ajudou a formar mais doutores.

Hoje em dia, septuagenário, com a saúde física naturalmente rateando, mas o cérebro fumegando acima dos cem graus Celsius, o escritor gasta tempo com atividades na maçonaria e, especialmente, enfurnado em seu apartamento confortável onde faz literatura de alta qualidade. Tem oito livros publicados, a maioria deles pelas editoras Kelps e RF, ambas situadas em Goiânia. Não adianta procurar pelos títulos nas prateleiras das livrarias do eixo sul-suldeste do Brasil que vocês não vão encontrar de jeito nenhum. Entrem em contato com as editoras e providenciem os seus exemplares (usem a internet, companheiros!).

Escrever é um exercício de perseverança e gana, para não dizer o vício da tolice. Além de pouco valorizado pelos seus pares goianos, Fausto ainda não conseguiu distribuir a sua obra fora das fronteiras, senão através da remessa pessoal de exemplares aos críticos literários e amigos escritores Brasil afora.

É aquela velha estória: escrever, publicar um livro, até que é fácil. Basta ser alfabetizado, ter noções básicas do “word”, e possuir algum dinheiro sobrando no banco. Difícil mesmo é colocar o livro dentro de uma livraria e fazer com ele chegue às mãos do leitor. Se o gênero for poesia, então, esquece. Os infames livros de autoajuda (sim, eu os considero infames), desde que tenham um título didático, chamativo, e uma capa bem produzida, correm o risco de venderem um pouquinho. Afinal, o povo está a cada dia mais aturdido e necessitado de placas que sinalizem aonde ir. Estamos perdidos...

Ao contrário do Senado e do Congresso Nacional, nem tudo são horrores. Fausto Valle tem visibilidade e reconhecimento junto ao público interessado em literatura que vagueia pela internet, inclusive fora do Brasil, em países nos quais se fala e se fere a língua portuguesa. Feri-la por descuido, até que é perdoável. Cruel mesmo é maltratá-la por preguiça e desinteresse.

Fausto Valle começou a se embrenhar na literatura pelas portas da poesia. É poeta dos bons, conforme se atesta nos livros “A fonte de sal”, “Cravos sobre a mesa” e “Aldeia absurda”. Absurda de verdade é aldeia goiana que vive buscando noutras plagas, por ignorância, desdém e preconceito, escritores que valham a pena serem lidos.

O poeta Gabriel Nascente, por exemplo, é outro que também produz literatura em território goiano, tem uma obra formidável subestimada pela comunidade local e por grande parte dos nossos educadores, estudantes, em especial, nas escolas particulares, mais preocupadas em sanar a inadimplência dos alunos caloteiros e os adestrar para o escroto suplício dos vestibulares, do que primariamente os educar. O poetinha Gabriel (este tem nome de anjo, mas também passa ao longe da santidade, graças a Deus...) possui mais de trinta livros publicados, é um poeta extremamente talentoso, mas fica teimando poesia aqui no Goiás. Contudo, o tema desta crônica não é o vate Gabriel. Voltemos ao Fausto.

Nos últimos anos, ele dedica o seu labor literário à prosa. Dos oito livros já publicados, três são constituídos por contos. “Além do vão da janela”, publicação mais recente, reúne vinte contos inéditos do autor. A antologia é um autêntico balaio de gatos (no melhor dos sentidos: balaio bom, gatos de raça) que deve agradar a todos os gostos. Uma colcha de retalhos bem cosida e que não deixa o leitor com os pés nem com as cabeças descobertas, à mercê das muriçocas ou da friagem. Predominam estórias ambientadas no meio rural e nas cidades interioranas, contudo, sem aquela chatice reticente do palavreado chulo e errôneo que se fala na roça, infestando os livros rotulados de “regionalistas”. Êita, rótulo maldito...

O livro “Além do Vão da Janela” parece bolsa de mulher. Há de um tudo ali dentro. Estórias fantásticas, o sobrenatural, violência nua e crua, maldade, traições, suicídio, crises existenciais e outros dilemas humanos com os quais nos identificamos. Além da diversidade que atrai e captura, na estrutura do livro se percebe a categoria do escritor, a sensibilidade e lirismo, além do evidente conhecimento de causa e da língua portuguesa. Pode-se dizer, sem a mínima intenção de depreciar, que o escritor sai disparando para todos os lados. É atirador de elite, pistoleiro experiente que mata dando vida (?!). O tiroteio dura o tempo inteiro, pois as estórias são construídas com esmero e técnica, invejados atributos dos autores competentes. Lê-se o livro numa só sentada. Enfim, uma obra que “valle” a pena, a tinta e o papel.

Quem se interessa pela literatura feita no cerrado goiano, sabe que Fausto Valle é um poeta que joga de titular na seleção dos escritores tarimbados. Parece ter pendurado suas chuteiras de bardo. Mergulhou fundo na prosa como se fora nas águas amareladas e barrentas do Rio Araguaia (é urgente que se preservem as matas ciliares, mas os bons escritores também!). Apesar de não ter formação acadêmica em literatura, estou convicto que o Fausto figura entre os melhores contistas da atualidade. Seu azar foi fincar raízes fora do grande “eixo do mal” que controla e monopoliza a literatura no Brasil. O pior pecado, entretanto, quem comete são os seus conterrâneos, leitores que negligenciam os bons autores da terra, bem ao estilo roceiro, como se fossem bezerros enjeitados. Os escritores inábeis que se autoelegem imortais em saraus baratos regados a “risoles” frios e refrigerantes “diet”, estes sim, devem mesmo ser apartados.

Fausto Valle, repito, não é santo. Apesar de viver próximo à cidade de Trindade (terra milagreira onde o povo temente peleja e reza), não opera milagres. Mas já deixou cravada a sua decente marca na literatura brasileira. Confiram.
 

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