revista bula
POR EM 23/03/2012 ÀS 08:40 PM

Vaca da Cow Parade vai parar no brejo

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Consta nos autos das fofocas familiares que o primo Chiquinho fora pego em flagrante fazendo amor (?!) de olhinhos fechados e tudo o mais que se tem direito em matéria de afetividade, com uma égua cupimzeira — eis o codinome emprestado às fêmeas equinas mansinhas que serviam (e ainda o fazem, possivelmente) aos intercursos sexuais de homens adolescentes e adultos pelo interiorzão do Brasil. 

Ante a cena inusitada, a molecada riu à beça da cara de sonso que fazia o primo, debochou dos uivos do lascivo, mas alguns fizeram fila na garupa da égua para se aproveitarem da indolência do pobre animal. Ao invés de moedas ou beijinhos, os moleques pagavam Margarida com suculentas espigas de milho. 

Parece um preâmbulo vulgar demais para se utilizar numa crônica. E é mesmo. Assim como tantas outras atitudes vulgares bem próprias dos seres humanos, como atropelar um ciclista bóia-fria no acostamento de uma autoestrada usando uma Mercedes, e ficar reclamando dos arranhões na lataria enquanto o sujeito agoniza no asfalto. Só rico mesmo para ser tão espirituoso numa hora desta... 

A mania de encostar quadrúpedes em cupins para de suas genitálias tirar proveito sexual tem o nome de Zoofilia ou Bestialismo. A prática era muito corriqueira nas fazendas e rincões, numa época em que a população que morava no campo prevalecia, antes, portanto, do êxodo rural que forçou a mudança de hábitos. Uma vez na “cidade grande”, se não havia éguas mansas cupimzeiras com quem namorar, que os homens se valessem então do ofício das profissionais do baixo meretrício, redutos nos quais que as espigas de milho não eram aceitas como moeda corrente. Nada mais justo, ora bolas. 

Imagino, neste instante, que inúmeras mulheres e feministas saltarão de suas poltronas confortáveis, amaldiçoando este escriba pelos comparativos desconfortáveis, supostamente diminutivos ao mulherio. Contudo, pertencendo obrigatoriamente por nascença à legião humana, eu não abro mão da prerrogativa de chocar o senso comum com as minhas colocações incomuns. Por acaso, assim não teria feito Sartre, por exemplo, ao afirmar que “o Homem é uma paixão inútil”? 

A Cow Parade (Parada da Vaca) — exposição artística internacional concebida ao final dos anos 90 nos Estados Unidos — consiste na utilização de réplicas de vacas confeccionadas em miniatura ou em tamanho real, geralmente utilizando a fibra de vidro como matéria prima. Sobre a superfície destes animais de mentirinha os artistas plásticos e demais pessoas criativas com mentes descoladas executam pinturas ou outras modalidades artísticas. Às vezes, o resultado não parece arte mas, bá!... Isto já é outra discussão. 

Consta que a vaca foi escolhida pelo seu criador Pascal Knapp devido à simpatia inerente ao bicho (estou certo que o sujeito jamais se aproximou de uma vaca nelore parida para entender como é o capeta na face da Terra). “Todos gostam de uma vaca”, ele teria justificado à época. Que o diga, então, o primo Chiquinho, galã da roça aficionado também por ovelhas, cadelas, galinhas poedeiras e até melancias. Mas sexo feito com as frutas e os vegetais já se trata de outra modalidade de perversão (diversão) sexual humana que trataremos numa próxima crônica, desde que até lá eu ainda não tenha sido demitido pelo editor desta emblemática revista. 

Pois então. Passados 10 anos, a Parada da Vaca finalmente aportou na nossa cidade, uma bela capital no centro-oeste brasileiro. Cinquenta exemplares de bovinos artificiais confeccionados em tamanho original foram pintados por artistas regionais e esparramados pelas ruas, esquinas, praças e mercados. 

Leiloar as vaquinhas ao término da exposição e reverter a grana para entidades carentes faz parte da programação do festival, desde que sobre alguma peça sem avaria. Nota-se que, além da proposta de se fazer uma democrática, filantrópica e irreverente exposição artística pública nas grandes cidades do planeta, o evento funciona, na prática, como um teste de civilidade, uma autêntica prova de educação e cultura. Neste especial quesito, assim como as pobres vaquinhas, parece que vamos tomar pau. 

Desacostumados ao vanguardismo e às “iniciativas cabeça”, sabe-se que vários exemplares da parada bovina já foram alvo de atentados por parte da população local. Atos de vandalismo que vão desde rabiscos do tipo “Marquinhos ama Jordana”, “Jesus está voltando”, “Quero hospitais, não quero vacas”, “Fim à greve dos professores”, “Abaixem o preço da picanha” e “Por que não pintaram a minha sogra”, até caubóis engraçadinhos praticando laço no final do expediente. 

O atentado mais grave desta Parada da Vaca foi o furto de uma delas perpetrado por um trio de jovens bêbados, mais interessados em se divertirem com o ócio do que manifestarem algum descontentamento político-social relevante, exceto a sua própria estultícia e falta de cultura. 

Manter intactas as simpáticas vaquinhas é um grande desafio pelo qual, eu receio, não passaremos incólumes. Uma vez que a imbecilidade humana não respeita placas e fronteiras, admito que os atos de vandalismo não sejam exclusividade brasileira. É bem possível que nos bastidores da organização haverá uma estatística dos organizadores, uma espécie de ranqueamento da estupidez, a fim de se medir a aceitação do público e o grau tolerância das metrópoles que compõe esta grande exposição artística ao ar livre. 

Preso mesmo ficou o primo Chiquinho. E não é que a polícia pegou o sujeito fornicando a “Vaca Amarela Pulando a Janela” no meio da madrugada. Quem é rei nunca perde a majestade. Eita, primo! Assim a vaca vai pro brejo. 

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