revista bula
POR EM 10/08/2012 ÀS 08:31 PM

Vá ver se eu tô na esquina. Mas tome cuidado

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Por um instante, o jovem teve um desejo sincero de dar cabo do vil ali mesmo, no meio da rua, alvejá-lo na cabeça (teve tempo de se lembrar da famosa foto do vietcong sendo fuzilado a meio palmo em Saigon, 1968), descarregar um 38, crivar aquele corpo deseducado com balas e, por último, chutar a sua cabeça assim que tombasse no asfalto.

Notem: em brigas corporais, quando alguém deseja ferir definitivamente outro alguém, quando alguém que está possuído de ódio (seria o capeta, irmã?!) por outro alguém (aquilo a que denominamos, singelamente, da boca para fora, como “ódio mortal”), sempre visa a atingir a cabeça. Coisa de principiante, convenhamos. Cabeças são estruturas nobres, porém protegidas por arcabouço ósseo da maior dureza. Corações, não. Corações são órgãos moles, literalmente. Para matar mesmo há que se acertar em cheio o coração (lembro-me perfeitamente de meu pai detalhar este fato enquanto sangrávamos um porco com um canivete às vésperas do natal).

Mas o rapaz não possuía armas de fogo. Nem faca. Nem punhal. Nem um cabo de machado feito com guatambu (sabiam que muitos carregam dentro dos carros porretes de madeira para trucidar inimigos no trânsito?). Aliás, àquela altura da vida, além do pobre e escandaloso leitão de sua meninice, o máximo que conseguira matar foi uma aula de trigonometria, ao pular o muro da escola. Urinou nas pernas de tanto apanhar do pai com lasca de pneu de caminhão.

Continuando: lembrou-se daquela vez em que saiu com os primos pelo pomar da fazenda da avó a fim de matarem rolinhas, pássaros pretos, periquitos ou calangos reluzentes de rabo verde. Durante a caçada, desferiu uma estilingada despretensiosa, mas acertou o cocuruto de um periquito no alto da goiabeira. O bicho ruiu às prestações, despencando de galho em galho, de forquilha em forquilha, agarrando-se em qualquer estrutura que encontrasse pelo caminho a fim de escapulir da morte iminente.

Apavorado com a agonia do animal que estrebuchava aos seus pés descalços de menino, catou o pássaro e iniciou uma espécie de reanimação improvisada ao lavar a sua cabeça verde com a água gelada do rego que cortava o quintal. Graças a Deus (naqueles dias ainda cria em Deus e no Homem do Saco), o periquito se refez do ataque e voou grogue, desbalanceado.

Mas voltemos à cidade, pois isto não é um causo, e sim, uma crônica bem urbana. Começou assim: um mal educado avançou o sinal vermelho, por muito pouco abalroando o seu carro, provocando um grande estrago e, quem sabe, ferindo gente. Depois de um brevíssimo ímpeto de truculência do qual eu lhes falei, ele pensou em fazer um gesto impudico com a mão direita (era destro, mas destreinado com as obscenidades), mas o outro motorista foi mais rápido ao sacar as falanges (desta feita, utilizou a artilharia pesada das duas mãos) e gritar agravos de baixíssimo calão, comumente utilizados nas canchas futebolísticas e no plenário do Congresso Nacional.

O episódio durou poucos segundos, mas parecia uma CPI. Raciocinou: ao invés de retribuir a verborragia injuriosa do colega de volante, daria ao boçal uma lição. Com os dedos indicador e médio em riste, fez um sinal em “V” com a mão direita (que era a mão boa de se comunicar com o mundo). E mais, pronunciou palavras pausadamente para se certificar que o sujeito entenderia cada sílaba: “Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!”, concluiu a provocação mandando um beijo com a mão espalmada tocando os lábios (a mão direita, obviamente).

Furioso, o aloprado puxou o freio de mão da sua picape coreana, mantendo o motor ligado (nada contra a Coreia, mas há centenas de novos ricos a dirigir carrões importados pelas avenidas da minha cidade, que é a campeã nacional de vendas de automóveis novos. Um “Viva” a indústria automobilística!). Enfiou a mão sob o banco e arrancou uma pistola.

Abriu a porta impetuosamente, danificando o carro de um terceiro motorista que a tudo assistia embasbacado, como se estivesse dentro de um filme. O homem caminhou a passos largos com a arma em punho, pois “era preciso dar uma lição naquele maldito”. Dentro do carro antiquado que fedia gasolina, o moço entendeu que levaria um tiro.

“O que foi mesmo que você disse, seu veado?” (Há que se colocar a sexualidade de um algoz em dúvida, a fim de buscar diminuí-lo, ridicularizá-lo. A homofobia é munição de primeira aos destemperados).

Desconcertado com a atitude do homenzarrão, o rapaz tentou explicar que só fizera aquele sinal com a mão (agora ele já espalmava a mão direita contra a esquerda, ajoelhado no asfalto quente das 2 horas da tarde, em Wonderfull City, suplicando um-minutinho-da-sua-atenção-por-favor) simbolicamente, em alusão à filosofia de Paz e Amor, um cumprimento demodé deveras utilizado nos anos 60, no nascedouro do Movimento Hippie nos Estados Unidos da América.

E que, na verdade, amava mesmo pessoas desconhecidas, como era o caso dele, mas um amor diferente, superficial, sem cunho sexual, sem degeneração moral, um amor fraterno de estranho para estranho, um amor sincero, comovente, uma preciosa demonstração de afeto heterossexual (“se assim lhe aprouver, amigo”), um carinho que nem precisava ser recíproco (“se assim lhe convier, meu irmão”).

O bruto, que não era afeito a sentimentalismos, apertou o gatilho e acertou o suplicante bem no peito, que é a parte mole de se matar da qual lhes contei no início destas linhas, carne boa de bala entrar. Fugiu a pé, ziguezagueando os automóveis, abandonando a picape novinha a queimar petróleo sob o sol escaldante, desperdiçando, além de combustível fóssil, o tempo dos outros e a vida daquele calhorda filho-da-puta (era assim que ele pensava enquanto corria).

A estrebuchar, recostado na roda traseira do carro, como se fosse o periquito abatido da sua infância, lembrou-se da avó, dos primos, da fazenda, do curso d’água, de um tudo enfim (“Quando se morre, passa um filme na cabeça da gente...”, é o que dizem aqueles que estiveram prestes a morrer, mas escapuliram).

Não era o seu caso. A morrer pra valer, enquanto apagava, sentiu uma melancolia incrível, uma saudade abissal, dolorida e derradeira dos familiares, dos amigos, do emprego, da namorada (“Ai, Susi... Não vai dar mais pra gente se casar...”, lamentava), da coleção de discos de rock e MPB (só coisa de primeira, acreditem), do estimado carro que o conduzia pra tudo quanto era lado, enfim, da vida boa que levava nos últimos tempos.

“Que pena”, foi o último pensamento que pensou enquanto o sangue escorria até a sarjeta, mesclando-se ao óleo diesel, às bitucas de cigarros e à indignação silenciosa dos transeuntes. Morreu porque não tinha jeito. Não era passarinho pra sair voando por aí.

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