revista bula
POR EM 19/05/2012 ÀS 07:48 PM

Uma coisa inútil

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Alguém pode me dizer qual é a utilidade do amor? Até hoje ninguém me convenceu. Ele, o amor, é inteiramente inútil. Como a vida. Não tem utilidade. Ter filhos, amigos, tudo tão inútil como a arte. Uma ideia, esta da inutilidade, que me parece ter comparecido em algum escrito de Kant. Na Crítica da Razão Prática? Não sei. E essa ignorância em assuntos filosóficos me dá coceira no corpo todo. Bem, se não foi o Kant alguém deve ter dito isso, e juro que não fui o inventor.

Penso nessas coisas quando tenho de ouvir umas pessoas dizendo que literatura é uma coisa inútil. Sou obrigado a concordar. Se amigo e filho têm utilidade não são mais amigo e filho, passando à categoria de instrumento. Enfim, servem para alguma coisa.

Apesar disso, continuo lendo, e cada vez com maior paixão. E continuo vivo nem sei pra quê, pois se a vida também é inútil. Essa é uma afirmação perigosa, em alguns sentidos letal, pois há pessoas que não se interessam por coisa alguma que não tenha utilidade.

Pois bem, nem todos tiveram o prazer de ler “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto. Aquele final fabuloso, em que o mestre carpina não consegue justificar por que continuar vivo. “.../mas se responder não pude/à pergunta que fazia,/ela, a vida, a respondeu/ com sua presença viva.” Tinha acabado de nascer um menino.

Ocorreu-me o poema ao ouvir a história de um amigo que tem uma cadela. Uma cadela a quem jamais foi permitido o amor: ela vive confinada e sozinha. E isso desde sua mais tenra infância (chavão exemplar: desde sua mais tenra exige a companhia de infância). Há pouco tempo meu amigo ganhou um filhotinho de cachorro e ficou com medo de que sua cadela o estraçalhasse com uma bocada só. Era de uma raça bem diferente da raça da cadela.

Ele, meu amigo, tem uma nora veterinária, que o instruiu sobre os procedimentos necessários, e lá foi meu amigo praticar zootecnia. A cadela mostrou-se muito impaciente com os exercícios de aproximação que a nora recomendou a meu amigo. Enfim, vencida a primeira semana de parcimonioso convívio (de cheirar o pano sobre o qual dormia o filhote até deixá-lo ao alcance da cadela foi um bom tempo) o filhote foi deixado no canil, mas ainda sob a vigilância do novel proprietário de um filhote de cachorro. Sua companheira, a companheira de canil, cheirou-o, deu umas lambidas e se afastou com um ar difícil de ser interpretado. Não se sabia se aquela ruga na testa era de curiosidade, ciúme ou indiferença. Ninguém arriscou uma opinião.

Pronto, mesmo assim, meio na ignorância dos sentimentos caninos, a aproximação fora concluída com êxito. Pelo menos na aparência. No dia seguinte, o dono dos animais foi conferir o resultado da manobra. Deitada, a cadela era sugada por uma das tetas. Sem acreditar no que via, meu amigo pressionou uma teta desocupada: saía leite. A cadela estava protegendo um ser vivo.

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