revista bula
POR EM 29/05/2012 ÀS 10:09 PM

Uma cena banal

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Não sou do tipo que sente prazer em bater pernas nos corredores de supermercado. Nem física tampouco intelectualmente isso me dá algum tipo de satisfação. É uma das obrigações mais aborrecidas de que fujo sempre que posso. E posso quase sempre. Apesar disso, e por puro espírito de solidariedade, eventualmente acompanho minha mulher às compras. Não faz mal que ela se queixe do meu mau humor, se conseguimos, juntos, reduzir pela metade o tempo perdido entre aqueles corredores gigantescos que ameaçam o salário anão. Parêntese: sou bom na escolha de frutas mercê de minha infância entre sombras de pomares.

Pois foi na saída, no caixa de um supermercado, que minha mulher, empurrando nosso carrinho abarrotado, entrava no brete dos suplícios quando notou a chegada de uma jovem com um repolho na mão direita e um pé de alface na esquerda. Educada no respeito aos semelhantes, a Roseli ofereceu, com um sorriso nos lábios, a dianteira à senhorita das verduras. Eu vinha chegando com o barbeador que havia esquecido e parei observando a cena. Era uma cena banal de urbanismo e civilidade, mas fiquei encantado com o gesto que já esperava de minha esposa.

Quem não esperava tal gesto era a jovem, que, a princípio, e quase irritada, não entendeu o convite, depois passou agradecendo, atrapalhou-se na hora de pagar porque não parava de olhar para trás. Agradecendo sempre. Seu sorriso era de quem acabava de ver uma ave rara, de plumagens longas e vivamente coloridas. Foram segundos, apenas, que ela usou de nosso tempo. Posso ter piscado três, quatro vezes antes de começar o trabalho que me toca sempre: colocar as mercadorias sobre aquela esteira.

Ela, a moça do repolho e do pé de alface, continuou agradecendo. Olhava para trás, sorrindo, e agradecia.

Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que nessa mulher foi salva a humanidade.

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