revista bula
POR EM 09/06/2012 ÀS 09:16 PM

Um pobre diabo

publicado em

Já nem me lembro de meu primeiro celular. Faz muito tempo. Lembro-me de ter resistido à primeira onda, invicto. Não me deixo levar por modismos. Uma das cunhadas, algum tempo depois, chegou contando que, na estrada, quebrou uma roda do carro. Meia hora mais tarde seu marido chegou com um borracheiro, um macaco e uma roda nova com pneu novo. O que podia ter demorado o dia todo, com todos os inconvenientes conhecidos de quem costuma trafegar pelas rodovias, demorou cerca de quarenta e cinco minutos, pouco mais, graças ao celular. 

Mercê dessa história, eu, que passava grande parte de meu tempo nas estradas, não tive mais dúvida: comprei meu primeiro tijolão. Pois nem assim consegui quebrar uma roda do carro. Pra falar a verdade, nem um simples furinho num pneu eu consegui nos tempos em que me arriscava pelas estradas todos os dias. 

Hoje ando bem menos, mas o celular tornou-se um hábito da cintura. Não gosto de me sentir nu. 

O indigitado, entretanto, de uns tempos para cá tem sido o agente de minha humilhação. Quando estou no aeroporto, no shopping ou em qualquer outro lugar público, fico observando como as pessoas normais usam sem parar o aparelhinho. Eles sempre têm alguém para quem ligar ou de quem receber ligação. O tempo todo. Os discretos, escondem a boca com a mão e falam baixinho, mas não param. Outros, menos discretos, levantam o braço livre, desnudam suas intimidades em público, dão espetáculo. Uns não conseguem parar de andar. Tropeçam nas crianças, pisam nos pés da gente, sem parar de gritar. Vão e voltam o tempo todo, muito agitados.   

E eu, que porto modestamente meu aparelhinho mudo preso à cinta, me sinto um pobre diabo. Então fico torcendo para que alguém se lembre de ligar pra mim. Às vezes faço uma ligação tola e inútil, só para parecer moderno.  

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2018 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio