revista bula
POR EM 18/06/2012 ÀS 12:41 PM

Um olhar severo

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Em uma crônica deste mesmo espaço, coisa de alguns anos atrás, comentei quanto tenho aprendido sobre o ser humano pela observação dos animais. Meu amigo Adamastor, o gigante, maliciosamente outro dia disse que tem aprendido muito sobre os animais pela observação dos seres humanos. Mas o Adamastor, quando se pensa irônico, na verdade, torna-se sarcástico. Não importa a direção, qualquer que ela seja, temos de admitir o quanto nos parecemos, todos nós, os habitantes deste planeta. O carbono que o diga.  

Aqui em casa, temos um vaso pendurado na parede da garagem, e nele plantamos duas mudas de tostão, cujos cordões com suas pequenas e gorduchas folhas hoje caem em volta do vaso como uma cachoeira. Pois foi aí que o casal de coleirinhas resolveu construir seu lar. 

Depois de criada a primeira dupla do novel casal (criação em que tive certa participação, modesta, mas efetiva), eles voltaram a ocupar sua casa para repetir a ação que lhes dá continuidade. Primeira constatação: eles sempre criam dois filhotes a cada ninhada, sem jamais enfrentar problemas de espaço em sua habitação. Lá estão, já, dois belos filhotes, com os bicos levantados e abertos toda vez que me aproximo. Não consigo imaginar qual a semelhança entre mim e sua mãe para que me confundam desta maneira. Mas isso não vem ao caso, pois não quero meter-me nas idiossincrasias de meros filhotes. Nesta história quem me interessa é a própria genitora, ou melhor, seu comportamento de passarinha. 

Ela, a mãe dos dois ocupantes do ninho, que de alguma forma posso considerar inquilinos meus, ela não pode me ver perto de sua residência que não fique maluca. No melhor dos sentidos, claro. Uma manhã dessas já estava enfiando a cara nos ramos de tostão quando a mãe chegou. Chegou negaceando, com um voo anguloso, muito agitado e acredito que nervoso, se isto não é um caso de prosopopeia. Pousou sobre um carro, bem perto de mim, mas muito perto mesmo de mim, e ficou me encarando. Você já viu passarinho olhar com raiva? Pois eu vi.

Seu olhar, além de raivoso, era ameaçador. Me afastei para não perturbar a paz da família. Pois tenho certeza de que a coleirinha fêmea ficou certa de que me espantou com um simples olhar mais severo. 

Quantas e quantas vezes na vida não devo ter cometido o mesmo engano. 

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