revista bula
POR EM 24/06/2012 ÀS 05:16 PM

Um mar de lama

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Apesar da infâmia cometida no título (os clichês continuam infames?) somos, em geral, um povo alegre e feliz. Adamastor, meu amigo psico-sociólogo, afirma que somos assim por vocação. Uma coisa que ninguém nos ensinou, nem percebemos que somos. Alguns povos estão sempre reclamando, não se contentam com nada, qualquer coisinha, como apropriação indébita da poupança nacional, lá estão eles nas ruas, protestando, enfrentando a polícia, pedindo a cabeça de seus governantes. Eles detestam a paz. Mas voltando aos profundos conhecimentos do Adamastor, podemos dizer que são vocacionados, esses povos, para a infelicidade. São muito provavelmente leitores do Schopenhauer.

Vocês já repararam como somos risonhos? No carnaval, então, aparecemos todos com os lábios abertos e levemente repuxados para as laterais do rosto, o que pode ser traduzido como sorriso. Cantamos, e como cantamos, balançando os antebraços pra cima e pra baixo, os indicadores apontados para o céu.

Estamos tão acostumados com lama que ninguém mais reage.

GetúlioVargas, ex-ditador e ex-presidente dos brasileiros, não chegou a ter notícia de nosso fairplay, qualquer coisa assim como laissez faire, laissez passer. Pior para ele, que descobriu um mar de lama nos subterrâneos do Catete e de vergonha optou pelo suicídio. E olha que o Getúlio nem era chinês. Por que lá, me conta o Adamastor, obrigação de corrupto descoberto é cometer o suicídio. Uma coisa de civilização milenar. Nós, coitados de nós, mal passamos dos quinhentos anos de história.

Temos visto lama que o Gegê jamais ousaria imaginar, só que ninguém mais se mata por isso. Graças a nosso fairplay combinado com o laissez faire, laissez passer. Somos um povo com forte vocação para a felicidade.

A lama corre por baixo dos bancos executivos e legislativos, da Capital Federal até a última Chapetuba de nossa querida pátria. Sem parar. E ela cresce para incrementar nossa felicidade. Outro dia a televisão mostrou uns vereadores que, muito pragmáticos, ajustaram um mensalinho para votar com o prefeito. O tal do milão. A lama cobriu até a cadeira do presidente daquela Casa de Leis. Que deve andar por aí, livre e leve, feliz da vida.

Oh, tempora, oh, mores. Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? E a lama vai entrando pelas casas, invadindo as lavouras, essa lama não acaba mais? Ah, já sei, não se estuda mais latim nas escolas. Mais uma das invenções da Redentora de 64.  

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