revista bula
POR EM 30/07/2012 ÀS 10:43 PM

Tudo outra vez

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E não me venham dizer que sou antidemocrático ou alienado, pois não é nada disso. Pelo menos numa opinião de que às vezes desconfio, mas mesmo assim respeito: a minha. Que a nossa democracia está muito longe da perfeição, me parece que não há necessidade de provar: isso é consensual. Ou deveria ser. Mas o que me caceteia, e muito, é a eleição, e eleição não é democracia. Pode ser um de seus instrumentos, mas não é o único. E o problema, em verdade, não é exatamente com a eleição, senão com sua propaganda — a forma como é feita. 

Sofro muito quando começam a passar aqueles caminhõezinhos com alto-falantes. Já não falo daqueles monstros que bombardeiam para todos os lados, atingindo céus e terra, e estremecendo  tanto a litosfera quanto nosso débil esqueleto. Não tenho notícia confiável de sua origem, mas é um negócio que vi pela primeira vez em noticiário sobre o carnaval da Bahia; uma invenção, enfim, para que em lugar nenhum do Brasil se tivesse sossego. Para mim basta o caminhãozinho. Não consigo pensar em mais nada com aquele negócio trovejando em meus ouvidos. Fecho portas e janelas, fecho a casa toda, e não consigo me ver livre do barulho. Então, eu, que amo o silêncio, a música suave, a voz ciciada, ligo a televisão ou o aparelho de som no máximo volume, apenas para selecionar o barulho. Continuo preferindo alguns em detrimento de outros.

Mas não é só isso. Os caminhõezinhos passam dizendo que o fulano de tal é o melhor candidato, por isso você tem de votar nele. Caramba! O melhor candidato! Então me lembro de minha juventude, quando li o "Elogio à Loucura", de Erasmo de Roterdam. Em certa passagem, o autor diz que se ninguém te elogia, elogia-te a ti mesmo.

E fico pensando: se ele se elogia, é provavelmente porque mais ninguém o fará. E se ninguém mais o elogia, e ele mesmo tem de dizer que é o melhor, então não sei, não, mas acho que além da mãe e da esposa, além das duas mulheres mais importantes de sua vida, eu acho que ninguém mais vai votar nele. Eu confesso que não vou. Jamais votaria numa pessoa que me perturbou em minhas horas de trabalho, que invadiu minha casa com afirmações de que suspeito.   

O que pode levar um ser humano tão parecido com todo mundo a perturbar o sossego dos outros com seu nome berrado pelas ruas?   

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