revista bula
POR EM 13/10/2012 ÀS 02:25 PM

Trate logo de lavar este seu poema sujo

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“Ando tão a flor da pele, qualquer beijo de novela me faz chorar...”  

Zeca Baleiro

Quando eu era criança, dentre tantos ofícios infantis curiosos, ficava observando as mãos do meu padrinho, um homem velho a quem amava desmesuradamente, enquanto ele e a esposa enchiam, com esmero, uma garrafa de Crush com suco de laranja, para que eu e os meus irmãos pensássemos fosse o famoso refrigerante da moda. Vocês sabem: quem não tem cão caça como gato.

“Quando eu crescer quero ter mãos assim...” — eu pensava ao acompanhar aquela fabulosa fraude doméstica, observando as suas mãos enrugadas e macias, com moitinhas de pelos sobre as falanges. “São mãos de médico, menino...” — explicava a madrinha, sem desgrudar os olhos da garrafa para que o pseudo-refrigerante não derramasse. Para agradar criança, tem gente que faz de tudo.

Finalmente eu cresci e constato agora o quanto estão também peludas as minhas falanges. Contudo, perdi em maciez para a dureza da adultidade. A vida é dura pra quem é mole. É o que dizem. E eu sou mole. No duro.

Acho que ando mais a flor da pele que o próprio Zeca Baleiro. São tantas as coisas que eu tinha a escrever que nem sei bem ao certo por onde começar. Então vou começar dizendo o quanto eu lamento despossuir a mesma alegria incontida de um menino a me oferecer esculturas de balões, no hall de um Posto de Saúde infestado com germes e pensamentos indóceis. “O desgraçado do médico está atrasado...” — reclama uma mulher gorda, cega de um olho.

Vem à memória o adágio popular “Em terra de cego quem tem um olho só é rei”, e eu quase rio da bravata daquela paciente, que certamente padecia de um incômodo muito maior que o próprio mau humor ao se sustentar dentro daquele estabelecimento tão caótico desde as primeiras horas da manhã.

Uma palhaça vestida à paisana (sei que era uma palhaça, pois magnetizava a meninada doente com as suas estórias de fazer adulto dormir e um visgo no olhar que lembrava mais um anjo do que um ser humano, embora eu não creia mais nos anjos, nem nos Homens) fez para ele uma espada e um cachorro, utilizando balões de borracha, técnica apurada, criatividade e muita paciência. É preciso, sem dúvida, muita paciência para suportar tanta fantasia na cabeça de uma criança.

O guri resplandecia mais que mil sóis. “Mas que negócio é este, menino?” — eu quis saber (aliás, eu vivo sempre a querer saber de um tudo; tornei-me um pragmático e maçante caçador de por quês). “Vou pedir pra ela fazer um igual pra você...” — ele comentou, deixando transparecer uma nesga de misericórdia que me acabrunhou.

“Mas, menino, já não sou mais menino para ganhar balões...” — tentei explicar, desconcertado como quem não esperava qualquer resquício de ternura no meio daquela tarde calorenta em que gente doente se espremia nos bancos encardidos e aguardava o adjutório de médicos, enfermeiras, psicólogas e demais curadores dos males físicos e mentais. “Então leva pra enfeitar a sua casa, ora...” — finalizou assim a conversa, com toda simplicidade que o dia desmerecia, a enterrar de uma vez por todas a sua espada de látex no meu peito infame.

O imaginário infantil, o seu comportamento puro e desconectado da roda viva dos adultos têm-me afetado profundamente nos últimos tempos. Ainda hoje, enquanto lavava o rosto na cuba de um toalete, tentando limpar o suor e todo o mau humor que insistia em me desumanizar cada vez mais, um menino comentou com o pai, a revelar um contentamento que fez brotar em mim toda a inveja, o quanto a água do vaso sanitário parecia engraçada, porquanto tivesse um tom róseo. “Tem cor de sangue, pai...” — riu alto.

“É sabão...” — explica o pai, gutural, impaciente, como eu. Eles urinam lado a lado, cada qual no seu mundinho, separados apenas por uma divisória em mármore e quilômetros de fantasia. “Vamo fazê xixi em cima pra ver de que cor fica, pai?” — desafia o moleque, como se já não fosse a vida suficientemente repleta de estímulos e desafios.

“Mija logo, menino! Tô atrasado...” — ralha o pai, perseguidor contumaz de tempos perdidos, um escravo resignado das horas, um pobre sufocado das heras urbanas, um soldado das causas boçais, um homem crescido como outro qualquer, quer dizer, um desvalido, um ignorante, uma criatura amputada de criatividade, um degredado da imaginação.

Ao contrário do que possa parecer, não me sinto tão bem assim ao escrever um texto ao estilo “Lya-Luftiano”. “Trate logo de lavar este seu poema sujo” — veio-me a frase à mente, logo cedo, ditado nem imagino por quem, possivelmente por ninguém; um simples sopro, ou melhor, um arroto de inspiração.

Com os vestígios e escombros da fantasia que um dia tive, eu rio sozinho, absorto, inventando diálogos pouco plausíveis, fomentando delírios que julgo inofensivos, visto que desprovidos de qualquer maldade. Eu brinco de ser um vate, como Ferreira Gullar, por que não?

Somente as crianças, os poetas e, quem sabe, as mulheres — algumas poucas mulheres, eu diria — mantêm no cativeiro da mente todo o desprendimento e o afeto desinteressado à imaginação criativa. Subterfúgios utilíssimos de se usar de vez em quando, sempre que a vida parecer um poema meio sujo e sem sentido. Será que eu me fiz entender?

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