revista bula
POR EM 13/06/2011 ÀS 10:34 AM

Traga seu lixo para Goiás

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O título acima é uma paráfrase do slogan de uma campanha institucional de certo Governo de Goiás, da época da Ditadura Militar. O slogan era exatamente: “Traga sua poluição para Goiás”. Com tantas obrigações e afazeres, é bem possível que a pessoa do governador nem tivesse tomado conhecimento da frase infeliz antes de ser espalhada. Mas no mínimo ela traduz o grau de ignorância ecológica e o baixo nível cultural da sociedade goiana àquela época.

Talvez essa malfadada campanha tenha encorajado os constituintes alguns anos depois a incluir de fora da Constituição Brasileira de 1988 o cerrado como bioma com interesses para preservação, vez que Goiás é o Estado mais predominantemente constituído por essa vegetação delicada.

Trata-se de um descuido fatal e sem reparação. 23 anos depois de promulgada a “Constituição Cidadã”, no dizer eufórico de Ulisses Guimarães, o cerrado segue o seu triste destino de órfão da lei maior. Aliás, isso já foi tempo bastante para que nossos chapadões, planícies, morros e várzeas fossem maltratados até não poder mais. Até que o cerrado perdesse a coesão interna e ficasse impedido de sustentar minimamente o equilíbrio de sua flora e de sua fauna. Inclusive com grandes áreas já tendendo a virar deserto.

23 anos já era tempo suficiente para que nossas lideranças tivessem entabulado uma proposta de emenda à Constituição para incluir o cerrado no rol dos biomas a serem protegidos. No entanto, ao invés disso, os parlamentares da zona do cerrado se uniram mais no sentido de aprovar o novo código florestal, cujo maior mérito é anistiar os crimes perpetrados contra o meio ambiente. O velho código, mal e mal, queria proteger nascentes, beiras de córregos, encostas e morros etc. Quem desobedeceu teria que restaurar, ou pagar multas. Mas com o código já aprovado pela Câmara, agora tudo será crime sem castigo. Evoé!

“Traga sua poluição para Goiás”. Talvez seja ainda sob os ecos dessa campanha maldita que autoridades federais pretendem trazer as escórias radiativas da Usina Atômica de Angra dos Reis para o depósito dos rejeitos do Césio-137 em Abadia de Goiás. Numa visão pragmática, alguém até poderia alegar que é uma oportunidade de negócios, de reverter a situação econômica de nosso depósito. Sair de uma condição que só dá despesas para auferir lucros. Mas isso não passa de esperteza de otário. Nestes tempos de produtos rastreáveis, daqui a uns dias ninguém mais vai querer as coisas produzidas aqui, sob a alegação de que são tóxicas e radiativas. Bom será se outros estados não nos enxotarem de restaurantes e hotéis, quando souberem de nossa goianidade, como aconteceu na época do acidente com o Césio.

Chegou o momento de o povo goiano mostrar que agora é outra a cor da chita. Que já avançamos social e culturalmente e que não aceitamos que os demais Estados tragam sua poluição para cá. Se ela é boa, então que fique com eles. Se nossos representantes, por conveniências vis, aceitarem, o povo mesmo é que tem que tomar o pião na unha, ir pra rua e impedir que nos imponham mais essa pecha de Estado bobinho e desacordado.

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