revista bula
POR EM 06/04/2012 ÀS 06:02 PM

Tomando sopa com a Oprah Winfrey

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Abadiânia é um lugarejo situado entre Goiânia e Brasília. Certa vez, deixei secar o radiador e acabei fundindo o motor de um Del Rey velho ali nas imediações abadianienses. Com muito custo e vapor, consegui conduzir o automóvel até uma pequena oficina cujo mecânico não me lembro mais o nome. 

Recordo apenas do susto que levei ao retornar dias mais tarde e me deparar com o motor absolutamente desmontado na garagem da casa do mecânico, porca a porca, arruela a arruela. Gelei a espinha e pensei: “Danou-se! Este sujeito jamais conseguirá montar este motor novamente...”. 

Mas o homem não somente montou de volta o retificado motor Ford, como o deixou supimpa, tinindo, uma beleza mesmo. Na minha visão, ao seu modo, o mecânico operou um verdadeiro milagre. Para mim, ele foi uma espécie de João de Deus dos pistões, bielas e virabrequins. 

Sim. Pois é exatamente isto que as pessoas buscam ao visitarem o médium João de Deus em Abadiânia: uma saída, um jeito, um milagre. “Dá um jeitinho pra mim”, foi o que eu pedi também ao mecânico milagreiro. E ele deu. Rodei mais dois anos, até o motor quebrar de vez. Vocês sabem: chega uma hora que os motores, assim como as pessoas, quebram, falem, terminam.  

Lembro-me bem que Brasilmar também operou um baita milagre. Consequência de efeitos danosos do uso inadvertido de talidomida durante a gravidez de sua mãe, o garoto Brasilmar nasceu com o membro superior direito encurtado, ou seja, onde deveria haver um braço, um antebraço e uma mão, havia um esdrúxulo apêndice pendurado no ombro, uma espécie de aleijão que não impedia o menino Brasilmar de catar, e bem, no gol do time da escola. 

Naquela época, ninguém falava em bullying. Aliás, este termo alienígena sequer havia invadido o território brasileiro. Todos chamavam Brasilmar de “Mãozinha”, apelido que não o incomodava de forma nenhuma. Era o jogo final de um campeonato de futebol de salão entre escolas católicas. Ginásio lotado. A torcida em alvoroço. Pênalti contra a gente. Brasilmar tomou posição no meio do gol, balançou o corpo pra lá, pra cá e... pimba! Defendeu com a cabeça o tirambaço desferido pelo atacante do time adversário. Fomos campeões graças ao milagre de Brasilmar “Mãozinha”. 

Ter sobrevivido ao abandono nas ruas da cidade também foi um feito dos mais inusitados para o Vilmar. Criado à base de surras, fome, cola de sapateiro e esmolas, Vilmar foi morador de rua dos cinco aos doze anos, sendo resgatado por um grupo de voluntários de determinada instituição filantrópica cujo nome não me recordo. 

No abrigo, como se faz a um animal abandonado, deram-lhe banho, atenção, comida, vermífugos e uma nova chance para recomeçar. Foi falando e ouvindo aquela gente estranha com cheiro gostoso de sabonete e lavanda, que Vilmar compreendeu haver perspectivas mais interessantes na vida do que simplesmente vagar a esmo pela cidade, sobreviver à truculência dos rivais, cometer pequenos delitos e cheirar latas de solvente. Sorte ou milagre? 

No meu caso, em especial, tive uma sorte danada. Fui enviado a Abadiânia pela Revista Bula a fim de conhecer de perto o trabalho de João de Deus, um fazendeiro cheio de filhos que se tornara guru naquela comunidade, e que supostamente curava doentes desenganados pela medicina tradicional. 

Fiquei motivado com a missão. Embora incrédulo — não me custava nada —, eu poderia reivindicar algum tipo de passe, magia ou unguento, algo que efetivamente fizesse brotar cabelos na minha cabeça, embora a calvície incomodasse muito menos do que a minha insegurança e ceticismo. Afinal, eu também era um desenganado. Um desenganado menor, mas, um desenganado. Aderir às perucas ou à legião de seguidores e serviçais de João de Deus não estava nos meus planos. 

O movimento no local era intenso. Naquele dia, em particular, alguém comentou que o ambiente estava ainda mais agitado que o habitual, por conta da presença de uma mulher negra, uma celebridade norte-americana que fazia uma visita. Olhando assim de longe vi que uma crioula simpática assistia ao transe de João, que enfiava o dedo fura-bolo num buraco cavado no lombo de uma mulher idosa. “A velha sofre de artrose, depressão e dores terríveis”, um curioso me relatou. A não ser pela velhice, pela artrose e pelas dores terríveis, eu até que me identifiquei com aquela moribunda. 

À primeira vista, pensei que a mulher negra fosse a cantora Whitney Houston, mas ela tinha morrido de overdose há poucos dias, em Los Angeles. Muita pretensão a minha, achar que a cantora faria uma aparição mediúnica pública em tão pouco tempo. 

Michelle Obama? Não. A Primeira Dama dos Estados Unidos não viria a Goiás sem que eu ficasse sabendo. Desde o meu encontro secreto com seu marido Barack, no Central Park (lembram-se que contei a estória aqui mesmo na Revista Bula?), em  Nova York, nós ficamos bastante próximos, assim de trocar emails pelo menos três vezes por semana. Até parecia Michelle, ma belle, mas não era. 

Passou por mim um sujeito desacordado, amparado nos braços de dois homenzarrões em cujos bonés ia escrito “The Oprah Winfrey Show”. Era um técnico da equipe televisiva que acabara de sofrer mal súbito. Desmaiou, capotando com a câmera e tudo. Ele não estava acostumado a lidar com sangue, muito menos com cortes e outros procedimentos mediúnicos terrificantes. “Nossa, é a Oprah Winfrey!”, vibrei. 

Cavalo arreado não passa duas vezes à porta. Então aproveitei que a apresentadora estadunidense estava dando sopa na Casa da Sopa, onde sua equipe fazia uma boquinha, para cavar mais um furo e arrebatar uma entrevista fantástica para a Revista Bula. 

“Bula Magazine?! Eberth Vencio?! You are kidding... Of course, I know you, man...”, Oprah mandou logo de cara, assim que me apresentei como enviado especial para assuntos mediúnicos da Bula. “Um enviado não desencarnado, é claro”, brinquei e ela gostou do chiste. 

Entre uma e outra colherada de sopa comunitária, Oprah Winfrey, que deveria ter sido por mim entrevistada, acabou invertendo os papéis. Segue abaixo a reprodução do encontro, sem cortes do editor, nem das entidades mediúnicas. João não participou da conversa porque estava ocupado demais curando toda aquela gente. Mas assentiu ao dizer que o bom humor também é uma espécie de cura. Então, vamos. 

Oprah — Do you believe that John of God really heals that people? 
Eu — Não sei, Oprah. Mas a sopa daqui é ótima, o turismo esotérico pujante, e a renda per capita crescente. Só fico imaginando o que será desta cidade quando João morrer... Um dia ele vai morrer, não vai, Oprah?!  

Oprah — Don’t you believe in after-life? 
Eu — Tanto quanto creio nas explicações e justificativas de Little Charles Waterfall. Você soube da Operação Biriba da Polícia Federal?! 

Oprah — And what about the ghost employees? 
Eu — É o que mais tem aqui no Brasil, minha nega... (neste momento do colóquio eu já me sentia mais solto que arroz na panela e deputado indiciado) 

Oprah — Why there is too much corruption in this warm and beatiful country? 
Eu — Pelo menos não temos tornados, nevascas e George Bush... (pausa para gargalhadas) 

Oprah — Why doesn’t the Justice prosecute and arrest these guys?!
Eu — Processar é fácil, amiga. Difícil é condenar essa gente e recuperar o dinheiro público surrupiado. 

Oprah — Couldn’t John of God save the people from those sons of a bitch?
Eu — Nem João, nem Deus, nem as putas. 

Oprah — Answer quickly, Vencio! Color...
Eu — Collor. Foi cassado por muito menos do que estes sujeitos fazem hoje em dia no Poder. 

Oprah — A pretty woman...
Eu — Preta Gil. 

Oprah — A food...
Eu — Valentina, 1985, no banco dianteiro de um Chevete. 

Oprah — An unforgettable film...
Eu — “Esqueceram de Mim”, com Macaulay Culkin e grande elenco do mensalão. 

Oprah — A fear...
Eu — Tenho medo de incontinência fecal ou de ficar louco. Ou as duas coisas juntas. 

Oprah — A dream...
Eu — Parar de sonhar acordado. 

Oprah — Religion?
Eu — Música. Música boa. 

Oprah — Love is...
Eu — Centroavante do Clube de Regatas Flamengo.  

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