revista bula
POR EM 21/09/2012 ÀS 09:38 PM

Tomai e fumai todos vós

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“Vou apertar, mas não vou acender agora. Se segura, malandro. Pra fazer a cabeça tem hora.” 
Bezerra da Silva

Botina. Dentadura. Óculos. Tratamento ortodôntico. Vale-transporte. Cesta básica. Emprego para um enteado. Gasolina no tanque. Um tanquinho de lavar roupas. Silicone para as mamas. Duas mãos de tinta. Ligadura das trompas. Uma cirurgia de hernia. Câmara de ar para o pneu da bicicleta. Créditos para o celular. Uma banda de leitoa. Aparelho para surdez. Um rolo de fumo. Perineoplastia. Dez sacos de cimento. Um puxadinho. Vestido de casamento. Custas de “adevogado”. Pedras de crack. Pedras de crack?! Sim, pedras de crack...

A estratégia de trocar votos por drogas é inédita, sensacional, uma verdadeira pérola do estratagema político criminal. Senão, vejamos (acompanhem só as engrenagens rangendo na mente de um meliante): imbuído de má fé, maquinando com capetas, comparsas e correligionários da ilicitude, o traficante seleciona um qualquer simpatizante da causa que possua ainda a “ficha limpa”, e ambos coadunam para que este último seja o candidato da região, a fim de — se eleito for — defender no parlamento os interesses do bando.

Enquanto um bando de andorinhas voa de uma árvore (Por que será que essas aves atrevidas elegem a caótica atmosfera desta metrópole para desfilar os seus voos? Efeitos inevitáveis da expansão urbana ou pura provocação a este pobre diabo?), eu rumino a notícia da varanda de casa, mais uma vez surpreendido com a capacidade humana de fazer conchavos para o mal.

“Ah, se o Homem utilizasse toda sua inteligência para o bem da ciência e do planeta...”, faço o pieguíssimo comentário para Pi, a minha senil tia freira. Calada, ela faz uma careta e balança a cabeça negativamente, como a dizer “Não bastasse acreditar em Deus, agora mais essa...”. Mas, é apenas uma suposição da minha mente inquieta. Pi mantém-se firme na oração silenciosa do terço. A esta altura da reza, estaria em qual dos mistérios? Ando sempre a questionar as coisas pequenas e grandes dessa vida.

A denúncia partiu de um Senador piauiense. Nalgum bairro paupérrimo de Teresina, os “candidatos do tráfico” (imaginem só a situação: uma bancada do pó na Câmara Municipal, lado a lado com as bancadas ruralista e evangélica... Uau! Que exercício de democracia!) estariam trocando votos por pedras de crack. A notícia fere como a pedradas em nossas miseráveis fuças. A Pe-éfe apura se a denúncia procede ou não (não duvidem; jamais duvidem da capacidade humana para arquitetar maldade).

Enviado especial da Revista Bula em Goiânia — uma das mais lindas e arborizadas metrópoles do planeta, portadora da indelével cicatriz decorrente do acidente radioativo com Césio 137 nos anos 1980, Campeã Sulamericana de Desigualdade Social, uma pujante capital onde os ricos são mais ricos, e os pobres são mais pobres (parece até nome de filme de western) — eu acompanhava, sob o calorão seco do Centro-Oeste, mais um espetacular (?!) jogo da Seleção Brasileira de futebol contra os “malditos argentinos” (que me perdoem los hermanos pela adjetivação chula, xenofóbica, contudo, eu a utilizo neste texto como parte de um exercício estritamente literário e criativo — assim espero —, valendo-me dos apupos da galera nas arquibancadas do Estádio Serra Dourada).

Um sujeito permanece ao meu lado, devidamente fardado de verde e amarelo, a face sofrida, um ar pobretão. Ele empunha sobre a cabeça um cartaz em português errado no qual se lê “Filma nóis, Galvão”. Ele reclama de um suposto desinteresse dos peladeiros milionários pela bola. Xinga o Mano e los hermanos (não falei pra vocês?!). Reclama da preguiça de Luis Fabiano, da ciscação ineficaz do Neymar, e da calvície precoce do lateral esquerdo cujo nome eu não sei.

Experimenta um coro com a galera, mas não há ressonância: ele exige que se convoque o Ronaldinho, o Adriano, e até o Romário (será que o sujeito não sabe que o Baixinho pendurou as chuteiras?). Ele quer o Felipão de volta ao comando da Seleção Brasileira (ele certamente admira técnicos durões que distribuem esporros aos atletas). Muricy também seria uma ótima opção. Qualquer um, exceto o Mano. “Ei, Mano, vai tomar no c...”, ele esgoela transbordando todo o patriotismo que me falta.

Uma falta dentro da grande área. Último lance de jogo. Era só o que faltava. Era tudo o que se queria. Bola na marca de cal. O suor da batalha estragou o penteado de Neymar, derreteu toda a brilhantina do seu corte de cabelo (um dos mais imitados no Brasil, exceto pelos carecas). Mas isto não é problema. É apenas um detalhe. Ele corre para a bola. Acerta o ângulo do gol. A torcida vibra, delira, desmancha-se em paixão. Copos de urina voam pelos ares.

“Eu não disse? O Brasil é demais! Chupa, Argentina! Chupa!”, grita o desnutrido torcedor, enquanto eu chupo o meu quinto sorvete de groselha. Contra a ignóbil paixão não existe remédio. E no placar das minhas atribulações cotidianas: Crack das Ruas 10 x Craques da Bola 00. Vai ser besta assim lá no Piauí...

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