revista bula
POR EM 13/12/2011 ÀS 11:29 PM

Tio Vânia, de Tchékhov, pelo Grupo Galpão

publicado em

No último final de semana arranquei-me de casa, finalmente. Já fui muito saideiro, mas tenho ficado cada vez mais neurótico pra isso. Não é só o trânsito infernal de Goiânia, nem o risco de assalto (que, diga-se, nunca me aconteceu aqui ou alhures). Não é só a falta de educação das pessoas na rua, nos shoppings, nas salas de cinema, salas de concertos, teatros. Não é apenas por causa de minha neurastenia progressiva. É preguiça mesmo. Caprichei em meu Home Theater e em minhas coleções de filmes, peças de teatro filmadas, concertos, etc. Daí fico em casa mesmo.

Mas, como disse, nesse último final de semana, saí. E não me arrependi. Fui conferir a montagem do grupo mineiro Galpão para “Tio Vânia”, de Anton Tchékhov. Tinha dois bons motivos. O Galpão. E Tchékhov, que considero filosoficamente superior a Dostoiévski, Tolstói e Turgueniev juntos. (Não estou com vontade de fundamentar essa afirmação aparentemente leviana, de forma que você, que começa a espumar pelos cantos da boca, contenha-se, porque de nada adiantará). Há ainda um terceiro motivo. Woody Allen. Isso mesmo, sou tão fanático (portanto não isento), que consigo ver chifre em cabeça de cavalo. Explico-me. Um dos melhores filmes de Woody é “Hannah e Suas Irmãs”. Foi sucesso de público e crítica (“sucesso” para um filme de Woody é fracasso para um de Spielberg, de forma que devemos guardar as devidas proporções), mas ele mesmo o deplora. Por quê? “Hannah” é de inspiração declaradamente tchekohviana. Pra começo de conversa, não por acaso as irmãs são três. Mas é outra peça do médico russo que vale discutir aqui.

“Hannah e Suas Irmãs”, ou o que aconteceu com o filme “Hannah e Suas Irmãs” foi o que Tchékhov não deixou acontecer com “Tio Vânia”. Sua primeira versão, intitulada “O Demônio da Floresta”, foi por ele desprezada e, reescrita, se transformou em “Tio Vânia”. São quase idênticos, com diálogos inteiros idênticos. Mas há uma diferença crucial. “O Demônio da Floresta”, além de centrar o foco no personagem do médico, em vez de no Tio Vânia (chamado George aqui), é muito mais “pra cima”, “otimista”, ou, como diria Woody a respeito de “Hannah e Suas Irmãs”, “bem amarradinha demais”.

Em “O Demônio da Floresta”, George (Tio Vânia) realmente se mata, o que não acontece em Tio Vânia, em que ele tenta matar o professor e erra o tiro. Mas como é possível que justamente a peça em que há suicídio, e não a que há uma cena cômica de errar um tiro numa tentativa de assassinato, é que é a “pra cima”. Por incrível que possa parecer, é isso mesmo o que ocorre. Depois do suicídio de George (tio Vânia) em “O Demônio da Floresta”, tudo se ajeita, os casais se ajeitam, a vida se ajeita. Enquanto em “Tio Vânia” o contrário ocorre. Seu final é deliciosamente amargo. Saímos do teatro com uma sensação ruim maravilhosa. Comme Il faut.

Woody não teve coragem (ele mesmo relata isso sempre que perguntado) de transformar seu “Demônio da Floresta” em “Tio Vânia”. “Hannah e Suas Irmãs” é ótimo, mas pelo visto poderia ter sido muito melhor, se não tivesse ficado tão bem amarradinho. Mas a semente estava plantada e pouco tempo depois ele faria seu verdadeiramente tchekhoviano “Setembro”, um “filme de câmara”.

Quanto ao grupo Galpão, excelente. Faço um reparo apenas à entrevista concedida ao jornal “O Popular” por Eduardo Moreira, ator da trupe. Diz ele: “[O teatro] é um biscoito fino que as elites tacanhas do Brasil alardeiam que não foi feito para o povo, o que é um enorme equívoco." Bobagem. As elites tacanhas nem se dão ao trabalho de ir ao teatro, quanto mais de ter qualquer opinião sobre ele. Elas simplesmente não vão. Ponto. E Tchékhov não é propriamente o que se poderia chamar de “popular”. Poucas pessoas foram ver. O ótimo Teatro do Sesi (com ótimo estacionamento de graça!) estava a meia-boca. Isso com uma matéria de página inteira no jornal de maior circulação do estado, além de um preço menor do que de ingresso de cinema. Quem estava ali ou era do metiê, ou por causa do autor da peça. Ou seja, pouca gente mesmo. Mas essa pouca gente saiu de lá muito agradecida.

Nota: “O Demônio da Floresta” faz parte da coleção “Play of the month”, da BBC, com Ian Holm no papel do médico. Nessa mesma caixa, “Tio Vânia”tem Anthony Hopkins (jovem!) no mesmo papel.

Nota 2: Paul Schmidt, tradutor de Tchékhov para o inglês na edição da Harper Collins, desconsidera “O Demônio da Floresta”.                  

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2018 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio