revista bula
POR EM 01/03/2013 ÀS 12:24 PM

Tese, antítese e metástases

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A dialética de Hegel, tão cara a Marx e Engels, definitivamente não prospera em Terra Brasilis. O silogismo garantidor de que uma tese em face de uma antítese gera uma síntese, cá pra nós é risco n’água. Nossa aritmética não é nem de dois mais dois são cinco. Nossa estrutura lógica é alternativa, errática, imprevisível. Ou seria previsivelmente imponderável?

Foi acreditando no princípio dialético que fileiras de insurrectos, sob o comando de líderes revolucionários (pelo menos supostamente) deflagraram revoluções mundo afora. Mas como já disse, a lógica por aqui é bem outra. Uma tese em face de uma antítese gera, não síntese, mas metástases. Uma burocracia doentia, dominada por uma política cancerosa que permeia e enlaça a política nacional, em todos os níveis, não permite que o resultado dos embates de uma situação nova contra uma situação caduca acarrete num novo estágio de civilização, de modo de vida mais producente para o povo, de hábitos mais salutares, de governo com lisura e probidade.

Exemplos recentes de quando a dialética de Hegel tomou bomba em nossa política: Nos anos 80, do século passado, era altíssimo o nível de insatisfação popular com o regime. Vivíamos o auge da ditadura militar, implantada pelo golpe de 31 de março, que segundo os historiadores, aconteceu na verdade em primeiro de abril, mas como era Dia da Mentira, recuou-se nas atas de registro, para evitar as gozações de costume. 

Houve levantes em todos os rincões. Fileiras de descontentes exigiam Diretas já! Comícios monumentais pipocavam nas grandes cidades e o burburinho de insatisfação ressoava por todo o país, alimentando a agitação nas comunidades menores.

O choque das ideias libertárias contra o entulho autoritário vigorante gerou uma situação tristemente curiosa.  Quem assumiu o comando do País, que queria se livrar da ditadura, não foi nenhum dos líderes que comandou a marcha pelo restabelecimento das liberdades sociais e individuais. O que era pra ser uma revolução resultou-se num acordo espúrio de lideranças, e o comando da “nova situação” ficou mesmo foi nas mãos da ala mais conservadora, do “câncer burocrático” que vinha servindo a ditadura militar. A figura mais emblemática daquele momento foi Zé Sarney, colaborador emérito do velho regime, que emerge como o novo presidente. E assim, panos quentes foram colocados aos montes nas áreas de possível confronto, de tal forma que nem os torturadores mais ferozes do regime agonizante foram punidos.

Em tempos mais recentes, já no século 21, esboçou-se nova virada nos hábitos da república. Um partido de esquerda, o PT, suplantou no voto, um partido de centro, o PSDB, com propostas radicalmente opostas. Mas em nome da governabilidade, quem emerge como o garantidor de que a nau não iria adernar? As mesmas metástases que permeavam o corpo da nação desde outros regimes. E, por coincidência, uma espécie de nova praga do Egito, o nome que enfeixa o grupo sob seu comando é novamente Zé Sarney. Que, aliás, continua dando as cartas ainda agora no governo da ex-revolucionária Dilma.

Um sistema que consegue açambarcar 73% da renda dos trabalhadores, com retorno de esmolas, que consegue dar diploma de curso superior a pessoas  que continuam analfabetas, que não consegue acompanhar decentemente os países semelhantes, só pode ser mesmo um subversor da lógica.

Em conversa com um marqueteiro político, ele me apresentou um estatística estarrecedora, sobre a política nacional. 10% de nossos parlamentares não sabem o que fazem no congresso. 90% sabem. 10% realmente trabalham pelo povo que os elegeu. E 80% só pensam em si arrumar.

Enquanto esse perverso Diagrama de Pareto não for desmantelado, a dialética de Hegel não será restabelecida. Por aqui, a tese aplicada sobre uma antítese sempre vai gerar metástases.            

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