revista bula
POR EM 15/02/2013 ÀS 01:06 PM

Sosseguem. Meus dois canos fumegantes só atiram palavras

publicado em

"Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (Guy Ritchie, 1998).

É importante deixar claro que o medo do escuro faz parte do rol de fraquezas de qualquer ser humano dito “normal”. Por isso mesmo, a minha repulsa pelas sombras. Não sou emo, não sou dark, nem sou punk: eu simplesmente despertenço a qualquer modalidade de tribo.

É importante frisar que, apesar de ser uma mulher — criatura elencada com defeitos insolúveis, como menstruar, parir e chorar aos menores esforços — eu posso também odiar, trucidar como o mesmo élan do homem que matou o facínora, ou de um homem-bomba, ou do melhor homem de todos os homens do presidente. Sabia que alguns exércitos já permitem (toleram) que mulheres engrossem as suas fileiras? Hoje em dia, engrossar o caldo em casa é coisa só para as amélias.

É importante que você saiba: eu não sei quem mexeu no seu queijo. Não me leia com esta cara de espanto: os ratos também festejam os entulhos em mim.

É importante que surja no próximo conclave do Vaticano o nome de um Papa minimamente assemelhado ao cidadão comum — o brasileiro comum, por exemplo — cuja fé incomum jamais se abala, mesmo nos momentos mais caóticos do viver, quando então a crença num Ser Superior parece, na verdade, um surto dos mais inferiores. Eu também não sei por que Bento XVI renunciou ao papado. Não se deve esperar toda a verdade, muito menos da parte do alto clero. O último a sair, por favor, apague a luz da sacristia.

É importante que a abertura de novos templos fomente a receita, o balanço patrimonial e o fluxo de caixa das igrejas. Muito mais do que acreditar em dogmas, é preciso compreender que a fé (mais que a matemática) involui em regressão geométrica.

É importante que a métrica nunca mais se intrometa e volte a fazer parte da estrutura de um poema (retroceder, jamais!). Eu sinceramente espero (eu praticamente imploro) que a poesia continue a ser publicada pelo maior número possível de editoras, a despeito do inegável prejuízo financeiro que ela representa. Nunca se sabe quando vamos precisar da lira. Conheço um sujeito que desistiu de tomar raticida com coca-cola depois de ler “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello. Ao se depararem com poemas como este, até as ratazanas beberiam os seus goles de humanidade.

É importante que ninguém se sinta diminuído por preferir ficar sozinho. Nadar contra a correnteza pode parecer uma coisa bastante idiota, porém, num mundo com tamanhas incertezas, uma a mais, uma a menos, não faz a menor diferença. Portanto, aceitem o meu isolamento. Melhor que isto: unicamente, para o seu conforto, imaginem que eu esteja apenas passeando com amigos numa gôndola em Veneza.

É importante que a indústria farmacêutica evolua nalguma espécie de silicone neuronal cujo implante através de uma das têmporas permita a injeção de juízo na massa encefálica de homens e mulheres. Urge preencher o tempo vazio e o espaço morto, ao invés dos peitos murchos.

É importante que os velhos jamais se furtem em caducar. Ao que parece, numa situação tão crítica e caótica quanto a velhice, faz-se mister esquecer para não mergulhar na insanidade. Aqueles poucos que insistem acabam reféns de Alzheimer.

É importante conhecer a Alemanha, a França, o Reino Unido, o Caribe e, até mesmo, a Disney (O Mundo da Fantasia). Eu admito: não dá mais pra ficar levando o mundo real tão a sério.

É importante buscar algum grau de importância moral na morte (a importância social parece evidente), além do expurgo e da mera assepsia. Para o equilíbrio ideal das coisas, não seria mais aceitável à humanidade parar de nascer, ao invés de morrer o que se ama? Eis aqui uma pergunta que não se calará nem mesmo após o último suspiro.

É importante dar algum crédito aos fatos desimportantes, como um mentecapto que fala com o vazio. Quem poderá assegurar que ele, na verdade, não esteja falando para olhos e ouvidos de outra dimensão? Você já ouviu falar em vidas paralelas? E em palavras cruzadas? Vou sair pela tangente.

É importante que os trocadilhos sejam usados com parcimônia, em doses homeopáticas, pois, o exagero poderá matar um belo texto em potencial. Agora, a chatura exponencial continua a matar de raiva qualquer leitor mais exigente.

É importante que a minha masculinidade não seja questionada pelo simples fato de eu me fazer passar por uma mulher. Há séculos os homens utilizam este artifício, ao se travestirem em busca da autoafirmação. Posso lhes afirmar, sem nenhum receio: eu não me sinto nem um pouco inadequado ao me deparar com um bebê sugando um seio.

É importante ressaltar os benefícios da fantasia no cotidiano do abilolado homem moderno. O faz-de-conta — assim como a oração e as juras de amor eterno na alcova — é uma ilusão passageira, um quase nada perto do que representa estar lúcido e alerta 16 horas ao dia. Normas, leis, regulamentos, estatutos... Ora, ninguém merece tanta ordem!

É importante falar de tudo ao mesmo tempo, num exercício preguiçoso de se dizer praticamente coisa alguma. Ou seja, confundir os pensamentos faz parte da estratégia de qualquer escritor melindroso, mesmo aqueles mais mal intencionados, como eu, por exemplo.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio