revista bula
POR EM 21/10/2012 ÀS 08:49 PM

Sobre o direito de dizer merda

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Richard Millet e Anders Breivik (abaixo)

Você já ouviu falar em Richard Millet? Provavelmente não. Ele é (era, até há pouco) membro do comitê de leitura de uma das mais prestigiosas casas editoriais francesas, a Gallimard. Enfim, não é (era) pouca porcaria não. Mas Millet é também um escritor. E, ainda e sobretudo, um boçal. Um eminente, gigantesco, grotesco, escroto boçal.  Autor do panfleto de 18 páginas intitulado  "Eloge littéraire d'Anders Breivik" (não publicado pela Gallimard, diga-se), por meio do qual faz um "elogio" a Anders Breivik, "fruto tanto da ruína familiar, quanto da fratura ideológico-racial que a imigração extra-europeia introduziu na Europa". Mas quem é Anders Breivik, mesmo? Outro boçal, um norueguês que achou por bem matar um monte de gente em nome de sei lá o quê, já que não importa o que ele diga que o motivou, só tem charme para seus semelhantes na submentalidade — como Millet.

A partir da publicação dessa obra (no sentido escatológico da palavra), instalou-se uma barulhenta polêmica na França que, estranhamente, teve pouca repercussão por aqui. Resumirei um pouco disso. Quem se interessar por detalhes deve acessar o mecanismo de busca do "Le Nouvel Observateur", que tem bastante material.

Comecemos por algo que precede a publicação do panfleto, mas que já o prenunciava. Num programa de TV (trecho disponível aqui) Millet se diz preocupado com a "identidade francesa", "ameaçada" pelos imigrantes, particularmente os negros. Cita como exemplo o fato de se sentir incomodado por ser um dos poucos brancos na estação de metrô e RER (um metrô maior e que vai a lugares mais distantes) Chatelet Les Halles (a estação próxima ao Pompidou). Confrontado com os demais convidados do programa sobre o que seria "identidade francesa", é obrigado a ouvir o óbvio: quem seriam os bárbaros? Os europeus, que invadiram e colonizaram África e Américas, ou os africanos e americanos que, "misturados", voltaram ao continente velho? Isso sem falar no fato de que não é verdade que em Chatelet les Halles há menos brancos do que "o resto". Arno Bertina e Oliver Rohe, do Nouvel Observateur, tiveram a pachorra de ir lá conferir.

E eu mesmo posso dar um testemunho. Na estação RER de Auber, presenciamos, eu e minha esposa, uma cena estúpida de violência. Uma senhora e sua filha adulta jovem, brancas, entraram no trem discutindo com um rapaz negro. Motivo: aparentemente ele não tinha dito "com licença" ou algo do tipo. A senhora não parava de gritar com o rapaz, e piorou mais ainda quando, no tumulto para entrar no trem, a filha quase ficou de fora, e o coitado do rapaz estava próximo. Só que ele e mais um monte de gente. Essa senhora parecia uma histérica e não descansou enquanto não deu um soco no peito do rapaz. Aí ele se enfezou e a empurrou. Nesse momento, alguns homens que estavam mais próximos (todos brancos) ficaram do lado da senhora (acho que mais por ser mulher, do que propriamente branca). O que aconteceu ali? Um bárbaro negro ofendeu uma civilizada branca francesa genuína? Não. Aconteceu o que acontece em qualquer lugar lotado. A civilidade vai pras cucuias. Não há fleuma que resista. E, sim, a maioria era de brancos. Homogeneamente incivilizados.

Voltemos a Millet, para quem o ato de Breivik foi de uma "perfeição formal" e "dimensão literária", e suas vítimas seriam futuros colaboradores do niilismo multicultural", sendo Breivik "o que merece a Noruega". Uma das melhores reações a essa imbecilidade foi justamente de um dos autores editados pela Gallimard, J.M.G. Le Clézio, vencedor do Nobel de Literatura de 2008. (aqui):

"Em nome de que liberdade de expressão, a que fins ou em vista de que vantagem, um espírito em plena possessão de suas faculdade mentais (supõe-se) pode decidir escrever um texto tão repugnante? E essa questão leva a outra: em nome de que filosofia (...) um editor escolhe editar tal panfleto, que faz a apologia de um dos grandes criminosos do século(...)?"

(...)

"A questão do multiculturalismo, que parece obsecar alguns de nossos políticos e alguns de nossos pretensos filósofos, já é uma questão caduca. Vivemos num mundo de encontros, misturas, questionamentos. As misturas e os fluxos migratórios existem desde sempre, fazem parte mesmo da origem da raça humana (uma única raça)."

(...)

"Voltando ao livrinho do sr. Millet. Ele só existe pelo e para o escândalo, e é por isso que se apresenta insignificante a nossos olhos. Sem dúvida que existe uma síndrome celiniana na França. Céline era um gênio e um provocador. Mas basta ser provocador para ser um gênio?"

Liberdade de expressão faz parte de um grupo de termos sacralizados, tidos como intocáveis, sob pena de danação eterna em Cuba ou na Coreia do Norte. O que é compreensível para jornalistas e donos de empresas de comunicação, pois nesse caso se trata mais de defesa de sobrevivência do que defesa de um princípio abstrato. Mas é idiota na boca dos outros, pois sabe-se muito bem que há expressões que ficariam melhor se presas no intestino grosso de seus autores. Ou restritas a círculos focais.

Os defensores absolutos sempre tratam do assunto como algo "tudo ou nada". A ideia é, se permitimos que cortem as unhas, quererão cortar os braços. É um sofisma útil aos interessados, engolido sem mastigar pelos inocentes úteis. Mas continua sendo um sofisma. E dos mais pobres. Exemplifico. Há grande diferença entre passar, no meio da manhã de quarta feira, num canal aberto de TV, um desenho japonês descaradamente sensual-pedófilo (ninguém me contou, eu mesmo vi, do lado minha filha, quando tinha lá seus 4 anos de idade), e o filme TED, em salas de cinema com censura para 16 anos. O deputado sem-medo-de-ser-ridículo que quis proibir o filme gastaria melhor seu tempo (se fosse essa intenção), vigiando o que se passa em horários diurnos da TV aberta. Mas me parece que a intenção foi mesmo ser notícia (e "comprar" os votos de bocós que pensam igual). Os defensores relativos, entre os quais me incluo, ponderam os riscos e benefícios de cada situação. Para usar o jargão da filosofia moral, os primeiros (defensores absolutos) seriam kantianos, e os segundos, utilitaristas. (Desenvolvi essa analogia aqui).

Antes que me acusem de moralista, permitam-me refrescar-lhes a memória com minha reação a outra boçalidade. A do escritor Domingos Pellegrini, em seu artigo no jornal "Rascunho" ("A literatura nos tribunais"). O arquivo do Rascunho na internet está incompleto, mas, resumindo,  Pellegrini acusa Dom Casmurro de ser nocivo à formação ética de jovens estudantes por causa da canalhice de Bentinho. Faz isso, veja bem, confessando: "Mas não posso deixar de me parabenizar por não ter lido Dom Casmurro nem no colegial nem na faculdade, para trabalhos escolares que consegui enrolar ou assinar grupalmente." [Grifo meu] Dá pra acreditar? O cara critica Machado de Assis, acusando-o de "celebrar a pusilanimidade" e contra-indicando-o a jovens alunos por conta da "falta de ética" e no mesmo artigo confessa que passava seus professores pra trás! Pois esta é a característica dos moralistas — a hipocrisia. Criticam o que fazem. Abertamente ou não. Estiquei o assunto em "Arte não serve pra nada", aqui na Bula e no Rascunho, pra quem se interessar. 

Não sou moralista. Livros, filmes, artes plásticas "incorretos" são potencialmente tão bons quanto os "corretos" (não raramente melhores, até). Não se trata disso. Trata-se de relativizar, ponderar. Não apenas com bom senso, pois, como diz Descartes logo na abertura do "Discurso do Método" (uma das frases mais geniais já esculpidas): "Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída do que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem". Claramente, bom senso só não basta. É preciso um mecanismo efetivo de regulação.

Dito isso, é óbvio que eu ainda preferiria morar na França de Millet/Clezio (ou no Brasil do desenho pedófilo em canal aberto) do que na Cuba dos Castro e similares. Prefiro ler/ver/ouvir merda do que não ler /ver/ouvir coisa alguma (ou só ler/ver/ouvir o que Fidel e similares deixarem). 

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