revista bula
POR EM 02/05/2008 ÀS 11:00 AM

Sexo explícito

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A burrice do mundo chega a ser asfixiante para quem pensa, para os que necessitam de outro tipo de oxigênio além do que está contido na atmosfera, para os humanistas que ainda acreditam que o homem é um ser superior capaz de honrar a inteligência.
 
Tudo confirma a assertiva de Antonin Artaud, o louco, morto num hospício qualquer da França nas primeiras décadas do século XX: “A literatura está esvaziada. Não existe mais nada nem ninguém, a alma é insana, não existe mais amor, nem ódio. Não existe mais nem mesmo aquela inquietação que penetra no vazio dos ossos, só existe uma enorme satisfação de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime e com a qual copulam sem parar, noite e dia...”. Impossível não concordar com ele no desespero contra uma vida conduzida por “um bando de criaturas insípidas que querem nos impor seu ódio à grandeza humana, seu amor pela estupidez burguesa” 
 
Vivemos num mundo que apenas sobrevive a cada dia que passa. Perdemos os critérios e parâmetros críticos para avaliar qualquer coisa, já que tudo parece abaixo da crítica e qualquer um e qualquer coisa pode ser alvo do ódio e da inveja dependendo do estado de espírito e do inconsciente do invejoso acusador.
 
Na literatura e no jornalismo o que escrever que tenha importância, possa ser compreendido e eleve o espírito dos leitores? Escritores e jornalistas também estão subjugados à mediocridade geral do mundo, fica difícil produzir literatura superior quando as regras da pasmaceira atingem a todos. Na música a quantidade de bobagens produzidas com sete notas supera o pouco que vale ouvir e ocupa os espaços nos veículos de comunicação de massa, basta ligar o rádio, a TV ou percorrer as gôndolas de uma discoteca. O melhor nesta área no Brasil ainda é o que se fez nos anos 70/80, nossos ídolos ainda são os mesmos, parafraseando um compositor popular.
 
Mas pode-se sempre recorrer aos clássicos conforme o gosto pessoal.
 
No teatro espalhou-se a peste das comédias ligeiras como única possibilidade de atrair o público; o teatro não é mais um lugar aonde se vai para se ver refletido no palco, com todos os conteúdos da alma humana expostos através dos temas que os grandes gênios da dramaturgia ousaram tocar. Agora só vale rir de si mesmo e da sua própria incapacidade para encarar a vida, os relacionamentos, as idiossincrasias. Nem há mais idiossincrasias, tudo foi igualado, há um só critério para observar o mundo, quem escapa dele é taxado de inadequado, excêntrico ou inconveniente. E ainda existem os tipinhos pigmeus culturais que adoram uma discussão sobre picuinhas particulares, fofocas de repartição pública e que sabem como ninguém baixar o nível de qualquer coisa que não esteja de acordo com suas ideiazinhas medíocres. Por conta deles é que o mundo não caminha mesmo. O melhor é ignorá-los, deixá-los fuçar sozinhos nos porões que conhecem bem.
 
Há anos, décadas, não há mais clima para a criação de grandes movimentos culturais ou alguma revolução que nos conduza a novas idéias sobre os velhos temas – qualquer coisa nova, frágil e incipiente é imediatamente absorvida pela cultura de massa e vendida nas butiques como modismo, não dura mais que uma estação.
 
Até nas doutrinas esta ordem é seguida à risca. Católicos mascam os mesmos versículos há séculos e as novas igrejas se resumem em repetir e esmerilhar as mesmas palavras, com a diferença que sugerem que o paraíso pode ser comprado com dinheiro e ações concretas, caso agradem a Deus. Não há mais grandes pregadores como Dom Helder Câmara que trazia novas luzes ao velho evangelho e renovava as esperanças do povo através da compreensão do papel social do homem no universo. Frasistas como Nélson Rodrigues, Rubem Braga ou Darcy Ribeiro, espécies de alter-ego do povo brasileiro, capazes de apreender e conduzir comportamentos sociais desapareceram subjugados pelos discursos vazios e dissimulados de políticos demagogos, burros e oportunistas.
Ô mundinho mais ou menos, hein, leitor?
 
No entanto, mais que nunca é preciso alimentar e manter o bom humor acima disso tudo e garimpar o que de bom as coisas da cultura ainda oferecem; criar como se sua criação fosse evoluir o mundo um pouco mais; trabalhar para agregar homens e ideais num único diapasão; repensar e refazer caminhos conhecidos e acomodados.
 
Se você é daqueles que ainda sentem prazer em ler um bom livro, ouvir música de qualidade, conversar sobre temas que enriquecem e respeitam sua inteligência, assistir um espetáculo que arrepia os pelos do braço, ver um filme que se aprofunda na alma humana e correlatos e afins, então vai ter de recorrer a coisas que, aceleradamente, vão sendo consideradas dinossáuricas. E, o que é pior, vai ter de se comportar como aquele personagem grego que saía com uma lanterna na mão procurando um único homem honesto. A diferença é que não vai ter o trabalho de procurar homens honestos, cada vez mais raros. Vai precisar encontrar verdadeiros fósseis-vivos, aquelas pessoas que ainda têm prazer nesse borogodó fora de moda que é pensar e correr o risco de serem chamadas de passadistas, caretas, antigas, utópicas, sonhadoras, etc...
 
É o seu caso?
 
Agüente firme e vá em frente, vale a pena. 
     
PS: Esse título acima é pura provocação.     
Uma armadilha pra chamar atenção, atrair certo tipo de leitor e levá-lo a ler e,     
se for o caso, refletir sobre as idéias do artigo.     
Tomara que a armadilha funcione.     
Sexo é uma palavra mágica, né? Atrai sempre.     
Mais ainda quando é explícito.     
Sinal dos tempos. 

 
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