revista bula
POR EM 31/08/2012 ÀS 08:54 PM

Sempre quis matar meu pai. Desde criancinha

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Nunca antes na história daquela delegacia (até quando ainda farei alusões em meus textos à retórica populista daquele nosso ex-presidente-metalúrgico?), o doutor delegado (malandros insistem em dizer “eu não fiz nada, doutor”) ouvira uma confissão tão lógica e simplista quanto aquela do rapagão. Era como se ele tão somente comentasse “vou matar aulas hoje”.

Pobre diabo. Àquela altura da vida, nem mesmo aulas poderia matar, uma vez que abandonara os bancos escolares (na verdade, fora abandonado por eles, pela constante falta de vagas na escola pública) ainda durante o Ensino Fundamental, atormentado pelos mapas geográficos incompreensíveis, as regras de três, os cálculos matemáticos, a fome e o comportamento destrutivo do pai.

Atualmente, vivia entretido mesmo era com o ócio, o uso contumaz de crack (engrossava as fileiras de viciados urbanos que muitos cidadãos prefeririam enfileirar num paredão e fuzilar) e a torcida organizada “Os Fanáticos Demônios”. Bom mesmo era comparecer ao estádio, urrar feito um primata, empurrar o time para dentro do adversário, aprontar quebradeira nos terminais de ônibus e trucidar qualquer safado vestido com camisetas dos times rivais.

Especialista em miséria humana, o delegado supunha já tivesse visto de um tudo na sua carreira. Irmão que matava irmão. Crimes passionais. Latrocínios. Trairagens familiares seguidas de morte. Infanticídio. Raptos. Abortos clandestinos. Rupturas himenais forçadas. Torturas. Judiações. O supra-sumo do sadismo. A crueldade sem amarras. O Homem na pior acepção da palavra.

Mesmo experimentado na maldade alheia, o doutor (a violência é uma doença genética sem cura) sentiu um calafrio sorrateiro a lhe percorrer a espinha enquanto ouvia o relato detalhista daquele jovem patricida, cujo crime fora amplamente noticiado pelos meios de comunicação e repercutido nos mais diversos templos religiosos da cidade (“Jesus está voltando. O final está próximo.” E coisa e tal...).

“Sempre quis matar meu pai. Desde criancinha...” começou assim o sucinto depoimento, parcamente amparado por um defensor público conseguido a laço, que ninguém se interessa muito em dar proteção legal a bandido pobre, ainda mais uma criatura que mata o próprio pai da forma que aquele sujeito matou.

Enquanto sentia uma azia incrível, o delegado ouviu que trucidar o pai era “um sonho antigo” que carregava consigo desde os 12 anos (não perdia mais tempo a pensar “o que você vai ser quando você crescer”; não acreditava nem no presente, o que dizer, em “futuros promissores”... quá!). Não tinha outras recordações do pai, senão as bebedeiras diárias, as surras na mãe, nos irmãos, nele próprio. Das três irmãs, só a mais novinha fora poupada dos ataques lascivos noturnos porque ainda não tinha idade para “entrar na pica e virar mulher” (que era como a vítima gostava de dizer).

Aquela reconstrução grotesca e desagradável, a desgraceira juntada detalhadamente pelo depoente era tão comovente (ao mesmo tempo, nauseabunda) que o delegado teve uma vontade contida de abraçá-lo (estaria se tornando um profissional velho demais para o ofício, um policial de coração amolecido ao ponto de abraçar facínoras?), dizer algo positivo a fim de minimizar a tragédia.

Enquanto levavam o sujeito para a jaula, que parecia mesmo o local socialmente preferível para o isolamento das piores feras bípedes, o delegado pensou em Augustinha. Augustinha era a sua irmã mais velha, mulher inteligentíssima, graduada, pós-graduada, mestre, doutora e pós-doutora, uma sumidade acadêmica, enfim, mundialmente reconhecida por conta da sua capacidade profissional como médica docente e pesquisadora; localmente conhecida pelo mau humor crônico e a profunda dificuldade nas relações inter-pessoais.

Abandonada pelo marido, brigada com os três filhos, Augustinha — aí não restava dúvida — dava-se bem melhor com os seus camundongos de laboratório do que com as pessoas. Há cinco anos recusava-se em falar com o único irmão (o nosso comovido delegado). Há uns dez, riscou o pai da convivência, enterrando-o (ainda vivo) numa remotíssima gaveta da memória. Com a mãe, ainda claudicava aos trancos e barrancos, oscilando momentos de relax e discussões rancorosas absolutamente ineficazes.

Enfim, todo o crédito da infelicidade e da imaturidade afetiva, Augustinha debitava à humanidade, em especial, aos familiares, aos ex-amigos (que ninguém suporta ficar perto de gente com tamanha negatividade) e aos colegas de trabalho.

Eram duas situações diferentes de extermínio da figura paterna que o intrigavam sobremaneira, como tanta coisa nessa vida. “Por que Augustinha não consegue ser feliz?”, detinha-se incomodado. Então, apagou a luz, catou o paletó e tratou de pensar em coisas mais agradáveis.

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