revista bula
POR EM 17/08/2012 ÀS 05:21 PM

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Já notaram que uma das coisas com que as pessoas mais se excitam é dar notícia ruim? Contar desgraças é palpitante e, numa roda de conversas fiadas, faz enorme sucesso. Os olhinhos brilham. Todos esperam ouvi-lo.

As gestantes (coitadas!), por exemplo, passam todo o pré-natal tomando vitaminas, levando dedadas na vagina e ouvindo das comadres, parentes e estranhos causos de decessos obstétricos os mais dantescos do planeta.  Sempre aparece alguém com aquela estória do bebê que passou da hora e nasceu roxinho.

Na seara dos dramalhões, eu me atrevo em contar mais uma. Reuniu a família na sala e disse: “Gente, eu vou morrer em breve”. A filha adolescente, que manuseava um ismarte-fone, entretida em fofocas e intrigas virtuais, pausou os polegares, deixou cair o queixo, a parecer ainda mais abestalhada que o costumeiro.

O irmão mais velho, a princípio injuriado pela abrupta interrupção quando então dedicava uma punheta a Popozuda Mascarada da Laje no banheiro (“Vem logo, menino”, ralhou a mãe), expressou uma face estarrecida, a melhor de todas as faces estarrecidas da sua curta existência. A mãe, que tomava chá verde emagrecedor, ficou pálida, bambeou as mãos e derramou o líquido fumegante no colo obeso cultivado às custas de muita comilança desenfreada, sedentarismo e duas barrigadas. Demandava perder peso, melhorar o visual, já que o marido parecia deveras interessado nas mulheres da vizinhança, muitas delas bem mais jovens, bonitas e jamais enxertadas. Seu sexto sentido vivia a lhe trair, ao fantasiar aventuras do marido com amantes. Então sofria de toda insegurança de que era capaz.

O marido, cujo corpanzil encontrava-se igualmente detonado pelo efeito do tempo, do estresse, da falta de atividade física e do excesso de trabalho, ultimamente andava mais preocupado em dormir cedo do que dar trepadinhas domésticas quinzenais e fantasiar intimidade com as outras mulheres. Até para atingir orgasmos o seu peculiar pragmatismo estorvava.

Alheio ao drama dos donos, o gato da casa, criaturinha bonitinha, porém, das mais ordinárias que se tem notícia, voltou a roçar nas pernas do quarteto a pedir comida. “Sai pra lá, bichano”, disse o pai chutando o come-ronrona-e-dorme da casa.

“Como assim: morrer... Que estória é esta?”, todos quiseram saber, aturdidos com a revelação ocorrida justamente na hora em que Gabriela escalava o telhado a mostrar os fundilhos. Ah, se os problemas da gente fossem apenas capítulos de telenovelas... Capitulariam ao simples toque dos dedos no controle remoto.

“Tem um tumor roendo o meu reto. O doutor me deu três meses...”, explicou, didaticamente, desenhando com quéti-chupe  sobre o guardanapo, algo que parecia um tubo oco contendo uma enorme bolota no meio. A bolota, no caso, seria o tumor. Completou a mórbida garatuja ao acrescentar um traço em meia lua, com a concavidade para baixo, que nada mais significava senão insatisfação com a própria sorte.

Não acreditava em destino. Não acreditava na Bíblia. Não acreditava no Bhagavad Gita. Não acreditava no alcorão. Não acredita em Deus. Não acreditava em objetos voadores não-identificados. Não acreditava mais nem mesmo na própria mãe (gravíssimo!). Não acreditava em reencarnação. Não acreditava na interpretação dos sonhos. Não acreditava em magia negra. Não acreditava em chás e raízes medicinais. Não acredita em trevos de quatro folhas. Não acreditava em fenômenos inacreditáveis (?!). Não acreditava nos efeitos miraculosos do ômega três. Não acreditava em bulas medicamentosas. Não acreditava em prognósticos médicos (“aqueles filhos de uma égua estão sempre dispostos a mentir pra gente”). E ultimamente deixou de acreditar no seu antiquado ídolo John Lennon, fato este da maior relevância, considerando que desde a adolescência declarou-se, não apenas ateu, mas beatlemaníaco. Naqueles dias ele se sentia o tolo da colina cantado pelos garotos de Liverpool (The fool on the Hill, 1967).

Demorou quase nada e os ouvintes debulharam as lágrimas (exceto o famigerado gato, criatura insolente sempre a pedir rações de comida, a despeito de todo sofrimento humano) como se já estivessem velando aquele arrimo de família antes mesmo que ele sucumbisse ao tumor. Às notícias ruins cada qual reage como pode. A esposa teve um colapso nervoso e deitou no sofá surrado sem dizer coisa com coisa. Viciada em internet e redes sociais, a filha divulgou a notícia no feicebuque, que foi curtida (curtir é só maneira de dizer; na verdade, foi muito lamentada) por centenas de amigos.

O garotão perdeu totalmente a tesão de instantes atrás. Como um jato ejaculatório, passou-lhe pela cabeça que em breve seria promovido, a contragosto, ao homem da casa. A ideia provocou no mancebo uma espécie de pânico. Tremeu nas bases. Sentiu uma náusea profunda.

O gato finalmente se restringiu a sua insignificância naquele cenário pra lá de desconfortável, e foi para o quintal fazer aquilo que mais detestava: caçar o sustento com as próprias mãos, ou melhor, garras.

Semanas depois, enquanto excursionava até Santos, como parte da típica proposta dos terminais em “a partir de agora, curtir a vida adoidado nos derradeiros lampejos de existência terrena”, a família capotou o carro numa escapada de pista. Todos morreram, exceto o motorista canceroso.

Desta feita, o médico realmente dissera a verdade, embora, de longe, houvesse errado em suas previsões. Judiado por quimioterápicos potentes e demais adjutórios, impelido pelo paradoxal desejo de continuar vivendo apesar da mais completa falta de fé em qualquer tipo de filosofia ou religião, ele teve a bolota de tumor reduzida ao tamanho de uma azeitona.

Desta feita, embalado pelo retrocesso tumoral, deixou-se levar pela ilusão da cura plena. Então principiou em fazer coisas que até então jamais ousara, como namorar quase todas as vizinhas disponíveis no bairro e acessar as viciosas redes sociais da internet. Colocou a boa nova no feice. Centenas de seguidores manifestaram-se. Seja você o próximo a curtir isto.

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