revista bula
POR EM 02/11/2012 ÀS 05:22 PM

Segredos jamais revelados da minha intimidade com as gêmeas siamesas Lucy e Sky

publicado em

“Lucy in the sky with diamonds”
(Lennon e McCartney)

Fotografia: Rui Aguiar / Umbigo Magazine“Jamais pensei que isto pudesse acontecer comigo, até que um dia...”. Conto erótico que se preze tem que ter esta frase como preâmbulo, o qual prepara os leitores punheteiros para uma estória picante, incrível que, sinceramente, pode acontecer a qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer recôndito lugar deste planeta onde haja, ao menos, dois seres humanos presentes no recinto.

Vocês sabem: as oportunidades para o sexo casual se nos apresentam desta forma, conforme descrito com propriedade nos episódios reais ou inventados, a respeito de experiências sexuais impressionantes, inusitadas e inesquecíveis, ainda que nenhum protagonista jamais se submeta a um “mea culpa”, uma reflexão sincera do pós-love.

Muito menos são revelados os vacilos das incontáveis enfermidades sexualmente adquiridas, que vão desde um simples piolho sugando a genitália infecta até o vírus da AIDS e, pior que tudo, quase ninguém se gaba pelas gravidezes indesejadas. No fundo, no fundo, todos se julgam um bocado desejáveis (e espertos também). Mas o texto a seguir não se trata de um conto e, muito menos, é erótico. Lamento, profundamente (como a uma garganta), se decepcionei alguns tantos leitores ao criar falsas expectativas com o título espalhafatoso. Na verdade, eu prefiro as crônicas empata-fodas.

Foi assim: conheci as irmãs gêmeas siamesas Lucy e Sky na República das Filipinas. Uma baita coincidência, considerando que, na minha terra, no interiorzão do Brasil, chamamos de filipinas as bananas que crescem pregadas entre si, como se fossem também siamesas, frutas xipófagas eu ousaria dizer.

Recapitulando: são denominados siameses (ou xipófagos) aqueles gêmeos que nascem colados entre si, unidos por alguma parte do organismo, ou desfrutando órgãos em comum, resultado desastroso da divisão incompleta e anômala de uma gravidez homozigótica (ora, vá você buscar um dicionário de termos médicos!). 

Tal incompletude perpetrada nas entranhas maternas haverá de provocar resultados danosos, antiestéticos, os mais variados. A fusão bizarra (ou a cisão frustrada) dos gêmeos idênticos pode ocorrer por qualquer segmento do organismo, condenando estas criaturas a um aprisionamento corporal nem sempre factível de conserto pelas mãos hábeis dos cirurgiões pediátricos.

Feito o longo (e, talvez, grosso) adendo, eu continuo a estória que, apesar de não pornográfica, corresponde a mais completa verdade, porquanto protagonizada por este que vos escreve com a avidez hiperativa de um mentiroso.

Repetindo, então: eu conheci as irmãs Lucy e Sky em 1966 nas Filipinas. Mochileiro aloprado, doido para salvar mundo e fugir de casa, eu viajara clandestinamente até aquele exótico país asiático, a fim de acompanhar um show dos Beatles, que excursionavam pelo mundo no auge da fama, enchendo a tulha de dólares.

Beatlemaníacos de carteirinha conhecem bem o malfadado episódio envolvendo os quatro Garotos de Liverpool e o governo do Presidente Ferdinand Marcos, ditador naqueles tempos bicudos. Convidados por Imelda Marcos para um jantar pomposo para trezentos talheres, após os dois shows em Manila, os Fab Four não só declinaram do mesmo, como não compareceram ao evento, fazendo supor que desdenhassem da Primeira Dama. O clima esquentou. Todo cachê arrecadado nos dois shows ficou retido e a banda quase termina linchada pelos populares, pelos bate-paus do casal Marcos e os militares. Levantaram voo sob vaias, pragas jazzísticas e muito cuspe.

Pois, então: deparei com Lucy e Sky no hall de um hotel em Manila, no qual ocorria uma espécie de Simpósio Internacional dos Gêmeos Siameses, promovido pela Unbelieveble Cat Generation. Penso que foi amor à primeira vista (e à segunda vista também, pois se tratava de um atraente corpo feminino espetado por duas cabeças). Além de levar para o Brasil a capa do LP “A Hard day’s night” autografada por Paul McCartney, fiz-me acompanhar pelo belo par de irmãs filipinas.

Na época, eu contava 18 anos; as meninas, 19. Lucy e Sky eram soldadas a partir do tórax, lateralmente acopladas, de tal sorte que, juntas, somadas, constituíam um só corpo feminino o qual contava dois pés (pequenos e delicados), dez artelhos, duas pernas, duas rótulas, duas coxas, duas virilhas, um quadril único (e na dose certa), uma vagina, um útero, dois ovários, duas trompas de falópio, uma bexiga, um ânus, alguns metros de intestino em comum, uma vesícula biliar sem pedras, dois rins em perfeito funcionamento e também sem pedra, um estômago, um fígado, um pâncreas, quatro tetas, quatro pulmões, dois corações, duas mãos, dez dedos, dois braços, três ombros, quatro clavículas, dois pescoços, duas laringes, quatro amígdalas, dois cérebros, quatro olhos que a mim valiam mil faróis, e sonhos incontáveis.

Pra variar, fomos morar em Pasárgada (lá, sim, eu era amigo do rei). Os poucos anos de convivência com Lucy e Sky foram exuberantes. Muito se diz que, não obstante a aparência fenomenal e inequívoca dos gêmeos idênticos, seus temperamentos são, quase sempre, discrepantes, conflituosos. As jovens irmãs filipinas não fugiam à regra, e guardavam lá as suas gritantes divergências.

De tal sorte que Lucy e Sky tinham personalidades distanciadas, quase opostas. Lucy acreditava em Deus. Sky, apesar de tentar muito, e de possuir um nome cuja tradução para o português significa “Céu”, era agnóstica convicta.

Lucy concordava ipsi literis com o Golpe Militar ocorrido no Brasil, e aprovava a prisão dos comunistas que, além de subversivos, criadores de encrencas, também não criam em no Criador. Sky, se não fosse aprisionada ao corpo de Lucy, teria aderido à Resistência, e se aliado a outros libertários em porões secretos, silenciosos, a tramarem sequestros de diplomatas norte-americanos, a incendiarem bancas de revista, a sonharem alto ao idealizar um mundo mais igualitário, aos moldes do que apregoava o Che.

Lucy adorava assistir às novelas da Record e suspirava fundo quando Tarcísio Meira aparecia na tela, ainda que em preto e branco. Sky permanecia entediada no sofá (não tinha outro jeito), e aproveitava para ler um pouco mais de Marx e o Neruda que Lucy tomou e nunca leu.

Lucy curtia Jovem Guarda, sabia de cor todas as canções do Roberto, invejava as madeixas de Wanderléa. Sky, sempre ao contrário, como tinha de ser, tocava violão, contando com o apoio da mão direita, que era a mão da irmã (e nem podia ser de outra forma), as músicas de protesto do Chico e do Geraldo Vandré.

Vou detalhar um pouco mais os perfis das irmãs por quem me apaixonei em meados dos anos 60: ainda que tivessem o corpo esbelto, Lucy queria fazer regime. Sky, eu já disse, era rigorosamente contra o regime (principalmente, o regime militar).

Com medo dos ovos de solitárias na cabeça, Lucy só comia bifes bem passados. Sky adorava ver o sangue escorrendo da carne, em especial, “o sangue dos milicos covardes e torturadores” (adjetivação pesada eleita por Sky para se referir aos militares na época da ditadura).

Recatada, Lucy preferia os vestidos longos. Sky queria batons, o jeans e a minissaia. Lucy era careta. Sky acendia baseados e, de quebra, conduzia a irmã às viagens desautorizadas com ácido. Se não fosse pecado aos olhos do Pai, se não fizesse mal a si mesmo, Lucy mataria a própria irmã, buscaria o adjutório de alguma espécie de Rei Salomão do século 20 a separá-las pelo fio da espada.

Lucy rejeitava os esteróides sexuais extra-corpóreos, a basear-se nos princípios bíblicos mais antiquados para, então, rechaçar aquela estória de vestir sais curtas, usar camisas de vênus e beber as famigeradas “pílulas anticoncepcionais”, certamente, coisas do demônio. Sky, que não cria nem em deuses, nem em demônios, irritava-se sobremaneira com a subserviência da irmã aos rígidos dogmas do Vaticano.

Lucy sonhava fotografar a Estátua da Liberdade. Sky queria pescar em Cuba e se aperfeiçoar na prática da guerrilha.

Lucy estudava para um concurso do Banco do Brasil, que era uma baita carreira naqueles tempos. Num dia de fervorosa discussão, Sky filiou-se ao PCB.

Lucy chorou nas sete vezes em que assistiram ao filme “O Pagador de Promessas”. Sky chorou compulsivamente com “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha.

Notem: pouquíssimas vezes, Lucy e Sky combinavam. Ambas idolatravam os Beatles, embora Lucy dissesse que Paul McCartney era o mais bonito, e Sky reverenciasse John Lennon, por conta da sua liderança, do sarcasmo, da tristeza disfarçada, da irreverência juvenil, e da letra de “Help”. Quando queria provocar a irmã, Sky cantava “Satisfaction” e imitava os trejeitos de Mick Jagger usando só a sua metade esquerda do corpo. Era hilário.

Elas não gostavam de futebol, cada qual por um motivo diferente: Lucy não entendia os dribles de Pelé, nem a correria torta de Garrincha. Sky, com todo aquele espírito de líder estudantil, garantia que futebol era o ópio do povo, ferramenta de alienação.

Palavras ditas pelas irmãs, e por mim ouvidas, gravadas para sempre na memória, compartilhadas com vocês: o Brasil era um país maravilhoso (com sérias ressalvas de Sky), possuía um futuro brilhante (somente se a revolta armada advinda do povo tomasse o poder, condicionava Sky), tinha um povo solidário e acolhedor (embora alienado, deseducado, inculto e facilmente manipulável, de acordo com a avaliação de Sky) e era um lugar muito melhor de se viver do que as Filipinas (neste quesito, e no simples fato de me amarem profundamente, Lucy e Sky, as irmãs gêmeas siamesas, concordavam 100%).

Vivemos juntos até a prisão e desaparecimento de Lucy e Sky durante uma manifestação de estudantes na Candelária em 1968. Lucy só queria rezar aos pés do Cristo Redentor; Sky ansiava salvar o mundo. Nunca mais tive notícias delas. Receio que tenham evaporado definitivamente para um céu de diamantes.

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