revista bula
POR EM 15/02/2013 ÀS 12:38 PM

Se você confunde Burocracia com Buraco e Cia, conforme-se, não é confusão, mas entendimento

publicado em

Sim. O grande buraco deste País é a burocracia. A grande parceira da corrupção, que permeia todos os setores da sociedade, é sem dúvida a burocracia. Nossa burocracia é principialista. Está na base e anterior a tudo. Se todos os trâmites burocráticos forem cumpridos, não importam as consequências. 

Pouco importa se determinada ação trará resultados positivos ou negativos para as partes (fornecedores, clientes, sociedade). O que importa é que os trâmites burocráticos foram cumpridos. Mesmo que para isso tenha ficado pelo caminho uma esteira de derrotados, prejudicados, defuntos, lesados, enriquecidos imoralmente e tantos outros entulhos do atraso que nos acomete.

Nossa burocracia é sofisticada: é o controle, do controle, do controle. É como se fosse uma pilha de buracos, um dentro do outro, como uma coleção de potinhos de plástico da Tapware. Na verdade, uma coleção de arapucas, com seus gatilhos prontos para serem disparados a qualquer momento. O gatilho mais recorrente dessa maldição  é oferecimento de dificuldades para vender facilidades.

Falo de algo nada filosófico. Mas de uma experiência pessoal. Há alguns anos iniciei um empreendimento que requeria licenciamento ambiental. O laudo final requeria aprovações intermediárias do IBGE, das Forças Armadas, da Prefeitura Municipal, do Ibama, da Agência Ambiental do Estado, de uma secretaria  de estado que já nem me lembro o nome. Só não me pediram exame de fezes, tipo sanguíneo e uma declaração de religiosidade convicta fornecida pelo bispo, em papel timbrado da Santa Sé.

Firmei o taco no princípio de não comprar facilidades. Estava disposto a atender a todas as exigências, custasse o que custasse.  Mas foi tanto imbróglio, que em muitos momentos pensei em desistir: não do empreendimento, mas do princípio de não comprar facilidades. Tanto chá de gaveta, tanta exigência maluca, proposta indecente, tanto pedido de propina... Teve até um sequestro, com pedido de resgate e tudo. Supostos policiais florestais chegaram ao empreendimento num instante em que meu encarregado procedia uma adubação. Os policiais alegaram que ele foi pego em flagrante delito de poluição ambiental. Me ligaram pedindo um resgate para libertá-lo e não proceder a lavratura da denúncia do suposto crime. Para me livrar deles, inventei que era amigo de uma autoridade da corregedoria e que iria consultá-la sobre o padrão do procedimento e a lisura da conduta. Desistiram com a recomendação verbal de “tomar cuidado!”. 

Quando superei essa fase de licenciamento, confesso que já estava um tanto desanimado em tocar o empreendimento. Por um tempo pensei que a experiência me serviria como inspiração literária, em alguma trama rocambolesca. Depois concluí que era imprestável por ser inverossímil. Somente pessoas que teriam passado pelo terror de uma experiência semelhante me dariam crédito.

Vi recentemente um vídeo no YouTube em que demonstra que de tudo que um trabalhador produz, só 27% fica com ele. O resto, 73%, fica com o Estado. O mesmo Estado que não consegue atender à sociedade com segurança, educação, saúde, investimento em infraestrutura. Um país que tem tudo para ser de vanguarda e vive comendo a poeira da retaguarda da história.  

Certamente porque a corrupção desvia tudo, usando a logística da burocracia. Ou melhor: do Buraco & Cia. 

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio