revista bula
POR EM 13/04/2012 ÀS 04:38 PM

Rio + 20 % (por fora)

publicado em

“Brasil, vou cantar-te nos meus versos...”
Ary Barroso, Aquarela do Brasil 

Se o mundo não acabar até lá, acontece em agosto, mês de cachorro doido, o Rio + 20 % (por fora), o maior conclave mundial secreto de celerados que se tem notícia desde que roubaram os pregos com os quais o nazareno foi crucificado. Hilários relatórios da história — boletins de ocorrência centenários registrados em papiros — dão conta que um fariseu inescrupuloso subtraiu e vendeu a 20 moedas cada prego utilizado na crucificação do messias. O manto sagrado, como é de conhecimento público, ficou mesmo com Richard Burton (confira tudo no velho filme “O Manto Sagrado”, de Henry Coster, 1953 D.C.)

Esta atrevida e marginal conferência da OMU — Organização dos Mafiosos Unidos — reunirá os mais simpáticos, comunicativos e bem relacionados larápios do colarinho branco de todo o planeta, desde que eles não estejam presos até aquela data ou ocupando cargos eletivos que garantam aos mesmos imunidade parlamentar e fórum privilegiado. Aos amigos, as benesses; aos inimigos, o rigor da lei. Lembram-se?

Não por acaso, o Brasil — terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente — foi escolhido como esconderijo, ou melhor, como cativeiro-sede para receber a legião de vigaristas insaciáveis. Ladrõezinhos metidos a besta, os preconceituosos mentores da conferência e dos crimes organizados vetaram a participação dos seus pares irrisórios: os malandros pé-de-chinelo. Ou seja, os infiltrados ali presentes não vão se deparar com batedores de carteiras, ladrões de galinha, e outros profissionais medíocres no ofício de tomar o que não lhes pertence. Se Deus (Deusdete, advogado criminalista porreta) e os habeas corpus assim o permitirem, são esperados no Brasil — terra de samba e pandeiro do mulato inzoneiro — milhares de picaretas oriundos de várias facções.

Judas Iscariotes da Silva, representante dos celerados no Brasil, declarou através de seus 666 advogados (o número da besta) que o Rio + 20 % (por fora) será o maior acórdão já realizado nas alcovas e nos bastidores, no qual os optantes pelo crime organizado tentarão negociar os percentuais de propina e comissões em obras públicas e prestações de serviço, não em 20%, como tem sido a nojenta praxe nos últimos tempos, mas 10%. “Não suportamos mais estes índices escorchantes. E vocês sabem: ladrão que rouba ladrão...”, brincou Judas, durante entrevista captada por escuta telefônica autorizada pela justiça.

Interrogado a respeito do nome do encontrão, que faz uma bizarra e infeliz paródia ao Rio + 20 — monumental evento em prol da ecologia — o representante da corja de almofadinhas declarou que sim, plagiaram sim o nome da conferência internacional do meio ambiente, e que estão cagandoeandando para as questões tocantes à natureza, ao ser humano, e ao desenvolvimento sustentável. “Quero sustentar é a minha família, isto sim!”. Em tom de provocação, ele garante ter convidado madeireiros inescrupulosos e fiscais corruptos que atuam na Amazônia brasileira para assistirem ao case de sucesso “O Selvagem da Moto-serra” (aqui, notoriamente, há outra flagrante demonstração da falta de criatividade, ao fazerem uma alusão desautorizada ao filme de Francis Ford Coppola, “O Selvagem de Motocicleta”).

Quanto ao endereço do evento, Judas fez mistério, mas insinuou que entregaria o nome caso fosse recompensado com duas pilhas de notas de cem reais, uma em cada meia. Revelou também, em tom jocoso, que Rio, na verdade, não se refere à cidade maravilhosa, mas sim, ao verbo “rir”. Ou seja, além de pilharem o povo, ainda riem da sua cara. Por conta da inépcia, o povo brasileiro pode até ser meio fajuto, mas não merece tamanho escárnio de um pilantra de sangue azul.

Abrindo a cortina do passado, tirando a mãe preta do cerrado, botando o rei congo no congado, Judas Iscariotes da Silva garante que o evento vai resgatar a memória dos ícones da malandragem bem arquitetada em todos os tempos. Por exemplo, ele explica que na noite de abertura da conferência, ao invés do hino nacional ou da tradicionalíssima “Aquarela do Brasil”, ouvir-se-ão rajadas de metralhadoras e gemidos de delatores torturados, enquanto será hasteada a bandeira da OMU, uma flâmula degradé com o seguinte lema escrito em código: “Garantindo o leite das crianças“.

Estão previstas várias oficinas de desmanche de carros durante o congresso, com assuntos da hora, super relevantes, como: “Princípios básicos para a montagem de Caixa 2 para campanhas eleitorais”, “Como dar entrevistas sem tremer as sobrancelhas”, “Deputado, a sua casa caiu: renúncia ou cassação?”, ”Queima de arquivos: um mal necessário”.

Mesmo admitindo que a desonestidade integra o genoma humano, Judas explica que no Brasil — país lindo e trigueiro — as fontes murmurantes jamais secam, mesmo com tanta gente matando a sua sede nas noites claras de luar. “Não conheço um só político corrupto que esteja preso nestas plagas”, provocou o gangster conhecedor da letargia dos cidadãos brasileiros e do judiciário.

Nos calabouços do poder, dentre tantas bandeiras indecentes levantadas pelos bandoleiros locais, espera-se sensibilizar o Governo, em todas suas instâncias, além de se convencer os representantes desonestos eleitos pelo povo, quanto ao descalabro das altas taxas praticadas em agradinhos, cafezinhos, mesadas e comissões. “Não suportamos mais os famigerados 20%. Queremos uma quebra. 10% já!”, desabafou um empresário desonesto que fornece merenda escolar superfaturada para as creches da Prefeitura de Biboquinha do Leste. Busca-se, portanto, o desenvolvimento sustentável das famílias envolvidas, a fim de que todos continuem levando o seu por baixo dos panos: gestores, empresários, parlamentares e outras figurinhas degeneradas que facilitam o rombo ao erário.

Ary Barroso, ufanista com coração de poeta, haverá de perdoar este cronista pelo uso dos versos da “Aquarela do Brasil”, a fim de esculhambar os safardanas. Se não fosse assim, zombando desta praga arraigada no Poder e na sociedade, os leitores não suportariam a minha verborragia chula e intempestiva. Tanta torpeza já me encheu o saco.

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