revista bula
POR EM 01/06/2012 ÀS 06:40 PM

Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro

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“Já não faz muito tempo que eu andava a pé, não pegava nem gripe, muito menos mulher. Só pegava poeira, nem olhavam pra mim. Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro. Agora eu tô mudado, o meu bolso tá cheio, mulherada atrás. Vem ni mim, Dodge Ram!”

Israel Novaes / Raphael Barra 

Ali estava ele sentado à frente de seus pares na Câmara Comum dos Iguais. Magro como o salário de cortador de cana, cabisbaixo como um cachorro que acaba de ser admoestado pelo dono, desamparado como quem perde um pênalti, ele ouvia o relatório prolixo do Excelentíssimo Relator de Relatos Mirabolantes da CPI (Comissão Palhaçamentar de Incrédulos). Na mira dos colegas, ele era o alvo perfeito. Apesar de combalido pela insônia e a visceral inapetência das últimas semanas, em que denúncias profundas escorraçavam a sua pessoa, o sujeito parecia um boi-de-piranha perfeito.

Acuado como um porco prestes a ser sangrado, o acusado Membro da Câmara Comum dos Iguais sentia que o embate era desigual, algo do tipo “uma coisa orquestrada para fritá-lo em nome da verdade”. Nas entrevistas, muitos Confrades mentiam que seria preciso cortar a própria carne da instituição, salvar a imagem da casa frente aos olhos de Deus, dos jornalistas e da opinião pública.

Enquanto ouvia a longa fala do Excelentíssimo Relator de Relatos Mirabolantes, ele encarava com muita mágoa a plateia feroz de engravatados, seus ex-parceiros de conhavos e cafezinhos no subsolo. Do banco dos réus podia enxergar a todos, inclusive um Confrade Federal que comprara grande parte dos votos no seu curral eleitoral, através de doações ilegais de combustíveis e vale-motéis.

Notou a presença do colega do Estado de Distâncias do Norte, eleito com milhares de votos daquele povo miserável e semi-analfabeto, à custa de ameaças de paus-mandados armados com mutchacos e motosserras. Outro companheiro da Câmara Comum dos Iguais mirava-o com desprezo. Logo ele, ex-pastor-pederasta da Igreja Universal da Pimenta do Reino, supostamente envolvido em bacanais pedófilos num apartamento oficial cedido pelo governo, bancado pelo contribuinte.

Sentado naquela poltrona que mais parecia uma masmorra, percebeu que outro nobre colega fazia desenhos irrelevantes num papel timbrado da Câmara Comum dos Iguais, como se estivesse anotando informações primordiais daquele inquérito na Comissão de Ética e Estética, cujo lema era: “Não basta ser honesto. É preciso parecer honesto”. Nada mais que um joguete para impressionar as lentes dos repórteres que ali se amontoavam, num espetáculo midiático dos mais deprimentes.

Os pecados de cada um já não cabiam mais nos dedos. Tinha o Confrade da bancada devastadora das toras amazônicas. E o Confrade conluiado com quadrilhas de festas juninas e de traficantes de dogmas religiosos. E aquele outro que jamais se continha frente a um microfone, e esbravejava, empunhava a bandeira da intolerância aos ateus, aos poetas de rimas raras, aos veados, às lésbicas, aos depressivos, aos apreciadores da solidão e aos simpatizantes da eutanásia.

E mais um pomposo Igual que defendia, sem a mínima compaixão, a pena de morte aos pobretões que ganhassem menos que um salário mínimo ao mês. E tinha também aquele que só pisava o carpete azul do plenário chapado, com as narinas entupidas de polvilho. E aquele ilustre remanescente da luta armada que há tempos arquitetava matar o Presidente do País de raiva para iniciar um promissor e familiar governo totalitário.

O que dizer — quanta falsidade!  de um impoluto Confrade, ex-presidente da nação, impitchado pelo povo por causa do escândalo da Brasília amarela cujo motor fundido fora retificado com recursos desviados do erário? Tinha também aquele Confrade Igual que era contra a liberação do aborto para os travestis. E um exótico companheiro da Câmara Comum, um ex-padre garanhão que combatia o uso da camisinha, das pílulas contraceptivas, do DIU, do cuspe como lubrificante íntimo, e até do sexo oral entre surdos-mudos.

Enfim, enquanto era massacrado pela saraivada de acusações cabeludas advindas de mensagens psicografadas pelos investigadores federais, o acusado Confrade da Câmara Comum dos Iguais sentia-se abandonado por Deus, no qual nem ao menos acreditava, até poucos dias atrás, quando então toda a nação ficou sabendo da “Operação Mal Sucedida”, que desvendou o escandaloso tráfico internacional de araras azuis, botos cor-de-rosa, micos-leões dourados e raríssimos espécimes de deputados federais honestos do saco roxo para o Ondiekistão?

E tinha mais. Quanto à sua suposta amizade com um lobista contraventor de trânsito livre nos emaranhados do Poder, o qual, dentre inúmeros negócios escusos, distribuía merenda escolar vencida para creches públicas em todo território nacional e até em Casaducaralho, o réu Confrade alegou que não sabia das atividades ilícitas anormais, muito menos as paranormais, daquele pseudo-empresário cujo codinome era Amiguinho do Peito.

Quanto à acusação de fornecimento regular de picanha maturada e mulheres saradas em churrascos pomposos na Mansão do Lago, o Excelentíssimo Confrade Igual garantiu que era vegetariano e até mesmo “um pouco gay, Excelência”.

No que se refere àquela grana grossa que não aparecia nem fodendo nos extratos bancários oficiais, ele redarguiu que qualquer um poderia rasgar o seu colchão quingue-saize ao meio com uma peixeira que não encontraria uma cédula de dinheiro sequer. Da mesma forma, ele colocava à disposição da justiça divina e dos homens todos os seus cofrinhos de porcelana. “Podem quebrar o sigilo e os meus porquinhos de louça”, ele disse.

De fato, ele admitiu que ganhara sim um radinho de pilhas AAA do contraventor Amiguinho do Peito. A ideia, contudo, era que equipamento antiquado fosse utilizado como munição para arremessar na cabeça dalgum bandeirinha safado de futebol, caso ele marcasse impedimentos inexistentes contra o seu time do coração: o Clube de Regatas Tessalonicenses.

“Absolutamente!”, ele bradou. Não viajara, nem de avião, nem no lombo de um jumento, nem na maionese cedida pelo contraventor das marmitas azedas superfaturadas. Também não fez tráfico de influências para pedir um emprego para a irmã de Amiguinho do Peito na Secretaria dos Correligionários Desempregados, conforme noticiado pela imprensa marrom. A insinuação de que ele próprio houvesse injetado defensivos agrícolas extremamente tóxicos na maçã abocanhada por Branca de Neve, a pedido da Rainha Má, não passava de fantasia das crianças e dos ilustres Confrades.

De repente, quase agonizando com a verborragia dos seus ex-camaradas, o empolado Confrade da Câmara Comum dos Iguais teve uma síncope, um mal estar subitâneo que retirou o seu pensamento daquele solene covil de traíras, conduzindo-o ao passado distante quando ainda calçava alpercatas baratas confeccionadas com couro de calango, e pedalava pelas ruas de terra de Pasárgada, pobre, maltrapilho, feio, desnutrido, lombriguento, honesto, incógnito.

Inspirou profundamente a atmosfera fedorenta daquele antro oficial e teve a impressão de sentir novamente o cheiro nauseabundo da poeira que os carros levantavam ao passar por ele. Lembrou-se também do quanto as mocinhas da cidade riam-se da sua insignificante e vulgar aparência. Recordou que trabalhava em horário comercial. Que tinha férias remuneradas. E que ouvia música clássica. E lia livros consagrados, os clássicos da literatura, exceto, é claro, os livros bobo-esotéricos do imortal Paulo Coelho, que ainda nem tinham sido escritos àquela época.

E que estudou a vida inteira em escolas públicas. E que se formou em Vã Filosofia pela Pontifícia Universidade das Faculdades Mentais. E que era um líder classista respeitado na sua pequena comunidade. E que a família se orgulhava dele. E que ganhava muito dinheiro, só trabalhando honestamente. E que nem carecia ter se candidatado a uma vaga na Câmara Comum dos Iguais. E que acabou se envolvendo com as pessoas erradas. E que se elegeu como o Igual mais bem votado da Nação dos Otários, massivamente patrocinado por doações não declaradas das ene empresas fantasmas de Amiguinho do Peito, um egrégio e influente empresário que lhe fora apresentado durante um estripetise na gaiola de número 2 da Boate Azul.

Enfim, ter sonhado em deixar a cidade natal, enricar e dirigir uma Dodge Ram carregada de beldades foi um erro fatal. Bom mesmo era pedalar pelas ruas de Pasárgada, carregando no guidão da bicicleta uma moça bonita e descalça, que nem fez o personagem de Paul Newman no filme “But Cassidy and The Sundance Kid”. Isto sim é ser feliz.

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