revista bula
POR EM 03/08/2012 ÀS 09:03 PM

Quem mata mais: o cinema, o cigarro ou estudantes de medicina ensandecidos?

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“A saudade mata a gente, morena. A saudade é dor pungente”,
(composição de João de Barros e Antônio de Almeida)
 

Quem mata mais: o cinema, o cigarro, estudantes de Medicina ensandecidos, a saudade, o répi-auer, a gripe A, o lado B dos vinis, o BHC, canções do tipo “Assim você me mata”, os alimentos transgênicos, os atentados homofóbicos aos transexuais, a gordura trans, o excesso de sal, o excesso de açúcar, o excesso de corrupção, a falta de vergonha na cara, a impunidade, as estradas brasileiras, a anorexia nervosa, a fome africana, a fome de grana dos mensaleiros do Petê, a sífilis, a endemia de maleita no Norte, a falta de limite dos adolescentes filhinhos-de-papai, a falta de educação, os tumores, os temores descabidos, os tremores de terra, os Estados Unidos da América, as ditaduras do século 21, a guerra civil na Síria, o derrame cerebral, o derrame de dinheiro surrupiado em paraísos fiscais nas Ilhas Cayman, a falta de saneamento básico, a hidrofobia, a sede de vingança, a seca no sertão nordestino, o desvio de verbas para o desvio das águas do Rio São Francisco, a raiva por pagar tantos impostos ao Governo sem a devida contrapartida, o voto nulo, o voto de confiança em políticos safardanas, o falso voto de castidade de estupradores psicóticos devolvidos ao convívio social pela Justiça, a injustiça, as torcidas organizadas, o crime organizado, a sociedade desorganizada, a Organização das Nações Unidas, o suicídio, o aborto clandestino, a hipocrisia social, as religiões, o SUS, Deus, os Homens?

O título desta crônica é propositadamente provocativo. Mas não será a vivência humana neste planeta, da mesma forma, provocativa, impelindo-nos aos questionamentos mais pertinentes, às vezes dicotômicos, quais sejam a fé inarredável em Deus e a descrença na humanidade? A despeito de tanta revolução industrial, evolução científico-tecnológica, o ser humano tem ambições caninas e fareja o mal, ele tem vocação para as atrocidades. Notem: na escuridão ignóbil e antiquada das cavernas não havia cinema, telona, pipoca, bolinações no breu, muito menos armas de fogo. Mas havia uma chama interior que impelia nossos ancestrais a se danificarem. Feria-se, matava-se de forma automática com a eficiência das pedras e dos porretes, quando não com as unhas e mandíbulas.

A violência afeta os mansos de forma significativa. Afetado, eu sigo escrevendo, trabalhando, pagando impostos incríveis em todas as esferas públicas, e desistindo gradativamente da raça humana, apesar da gostosura dos pudins de leite condensado, dos gols de bicicleta, do mar quando quebra na praia (é bonito... é bonito...), das tatuagens de fadinhas voadoras nos tornozelos das beldades, e do efeito inebriante de canções velhas como “Let it be” de Lennon e McCartney (o som funciona mais que prozac misturado a uísque).

A mais recente polêmica que permeia a mídia e as mesas de Café diz respeito ao potencial efeito nocivo dos filmes e dos videogueimes com conteúdo violento no psiquismo das pessoas, especialmente crianças e adolescentes. Repetindo discursos antiquados, muitos estão convictos que tais filmes e joguinhos estimulam violência. E que filmes de sexo explícito estimulam o sexo explícito. E que filmes de amor estimulam o amor. E que filmes de guerra estimulam as guerras. E que filmes de ficção científica estimulam não só a ficção como a ciência (vão ser bons assim pra lá!). E que as comédias idiotas estimulam a idiotice. E os documentários estimulariam o quê? Num passado recente, os vilões da juventude e do status quo eram outros: os versos sem rima, a poesia concreta, o rock’n’roll, os blusões de couro, as mini-saias e até os revólveres de espoleta.

Ah, os revólveres de espoleta... Lembro-me bem de ter matado meus irmãos mais de cem vezes nas brincadeiras de mocinho e bandido, utilizando maravilhosos revólveres de espoleta. Aliás, eu fui criado a muito Monteiro Lobato, lombrigueiros, mortes fictícias, filmes de caubói (eu adorava quando John Wayne matava aqueles malditos índios moicanos... que me perdoem todos os índios do universo pelas minhas fantasias da infância...) e cu de boi (modalidade esportiva de rua na qual um dos moleques “pegava no gol” — geralmente, o pior deles, em termos de habilidade com os pés — enquanto os demais driblavam descalços numa cancha improvisada).

Mas, voltemos ao Cinema (perdoem-me: às vezes me perco em melancólicas recordações da infância e principio a falar de mim mesmo... que chato!). Há poucos dias, um jovem estudante de Medicina do Colorado, nos Estados Unidos da América (êita, povo que gosta de dar tiro...), descumprindo os mais elementares preceitos hipocráticos de zelar pela pela vida, descarregou artilharia pesada dentro de uma sala de cinema, matando um monte de índios, ou melhor, de pessoas. Era a estreia do filme “Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (de Christopher Nolan).

A chacina real ao estilo tarantiniano fez lembrar o atentado cometido por outro estudante de Medicina, ao final dos anos 90, desta feita num cinema dentro de um shopping em São Paulo. Na ocasião, a plateia assistia ao “Clube da Luta” (de David Fincher), um dos filmes que mais gosto, e que trata, dentre outras coisas, justamente do fascínio de grande parcela da sociedade pela violência.  Por falta de balas, de tempo, de doideira ou de habilidade, o acadêmico aloprado dizimou menos pessoas que o seu aspirante a colega de bisturi.

Se eu tivesse má fé (que é exatamente aquilo que vários leitores esperam de mim), eu poderia afirmar que estudar Medicina faz mal à saúde mental das pessoas. Ansiosos por respostas a tanta violência gratuita, muitos embarcariam na minha balela. Efeito manada é assim mesmo. Houve um tempo em que me fizeram acreditar que beber leite e chupar manga logo em seguida provocava congestão gástrica gravíssima, podendo levar inclusive à morte. Quantas vitaminas de fruta eu perdi até descobrir que tudo não passava de crendice popular, ignorância...

Similarmente a uma fruta, hoje sou um homem vivido, embora não esteja ainda caindo de maduro. Então, por causa da madureza, chutei bola nas ruas, mas brinquei também com videogueimes radicais (à época, o mais violento deles consistia em explodir naves espaciais invasoras utilizando um obsoleto canhão de raio laser). Li Carlos Drummond, mas também li Cassandra Rios. Escrevi poemas, mas também pichei nos muros da escola “Fora, Diretora!”. Curti Hermeto Pascoal, mas já ouvi, vi e comi com os olhos a cantora Gretchen nos bons e velhos tempos de masturbação vespertina. Assisti ao filme alemão-cabeça “Tambor”, mas assisti também às sessões de filmes eróticos do Cine Casablanca, embora eu contasse uns 15 anos.

Já fiz parto, mas também matei passarinho. Dei bons conselhos, mas também magoei com palavras. Plantei árvores, mas desmatei um pedaço de cerrado para construir uma casa (pelo menos moro nela). Já jurei amor eterno, mas costurei rabos de saia. Mas, o que estou fazendo? Eu não sou a personagem central desta crônica. Eu visava avaliar se os puritanos estão com a razão, se o Cinema e os jogos eletrônicos são mesmo coisas do demônio.

Ora, há séculos há demônios tasmanianos rosnando dentro do nosso peito. Primordialmente, o ser humano é malvadinho, nasceu para vislumbrar o esplendor do ócio, copular e destruir quem quer que ameace o seu território. À medida que as normas sociais de convivência foram criadas e aplicadas, tornamo-nos menos selvagens e anarquistas.

Dentro de um contexto deteriorado plenamente favorável à violência, num ambiente de negligência institucional e abandono social que facilmente nos remetesse ao bárbaro contexto dos nossos antepassados trogloditas, a truculência até pareceria razoável, algo do tipo “a única saída”. Com ou sem o Homem Morcego (jamais se esqueçam: super-heróis não existem de verdade!), num cenário de caos existencial, miséria, falta de afeto, falta de esperança e, sobretudo, falta de perspectiva para a felicidade, certamente eu mataria. Não torça o nariz: você e o seu filhinho, que ora brinca no jardim, também matariam.

A crueldade se constrói aos poucos, a conta-gotas, e os livros, músicas, filmes, jogos são apenas arranhões na lataria da máquina mortífera chamada Eu. Ficou com medinho? Saia correndo já daí, reze, faça jejum, converse com um pastor, escreva uma carta para o Papa, tome um passe, tome água benta, tome tento, tome juízo, tome santo daime, chicoteie o lombo até sangrar (o seu próprio lombo, imbecil!) ou faça como eu: vá ouvir Paul McCartney para aplacar todo este melodrama. Que o homem é produto do meio, todo mundo já sabia, e nem precisa ser filósofo pra perceber. Agora, botar a culpa no Coringa, além de desonesto, é covardia.

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