revista bula
POR EM 07/09/2012 ÀS 04:06 PM

Profissão: poeta

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Não sou alegre, nem sou triste: sou poeta.

Cecília Meireles

Mesmo após tantos anos sem escrever um verso sequer, os amigos escritores chamam-me poeta. Seria só fase ou o meu fuso mudou definitivamente? Uma vez poeta, sempre poeta? Estaria o mundo carecendo tanto assim da lira, ao ponto deste pelejante clã de escribas selarem os portões da rima com seus cadeados de crepom, a fim de demoverem da fuga este vate dissidente? 

Nos dias atuais, declarar-se poeta é pior que se declarar culpado. E pior: quase ninguém acredita. Olham pro sujeito como se ele tivesse lepra. Não é lepra não, gente; é a letra, o verbo.

Conheci Antônio Carlos Piolho num jardim de inverno do Hospital das Clínicas, ocasião em que eu me graduava no curso de medicina e ele convalescia de uma fratura de pênis (Enverga, mas não quebra? Conversa fiada!), decorrente de uma desastrada tentativa de conjunção carnal com um travesti (desatento, ingênuo, louco, ele jurava fosse o sujeito “a mulher mais gata com a qual tivera feito amor nesta vida”), atrás de uma caçamba de entulhos na esquina da Rua Pegasus com a Caralho-de-Asas.

Comovido com o acidente e o sofrimento do cliente (suponho que Piolho tampouco soubesse que o “impressionante encontro casual” tivesse um caráter claramente financeiro), Turíbio (era este o nome de batismo da travestida Melanie Madona) colocou-o dentro do velho Fiat 147 e tocou para o Pronto Socorro do HC. Nunca é tarde demais da noite para se operar caridades.

À primeira vista pensei que Piolho fosse algum paciente evadido da ala da Psiquiatria, pois, vestido com a tradicional bata dos internados, ele conversava animadamente com um tronco de monguba.  Aproximei-me daquela franzina irrequieta criatura e notei que, na verdade, Piolho declamava um poema para a árvore. “Este, se não for artista, é louco de atirar pedras”, diagnostiquei, novato que era nos meandros da psique humana.

Não posso dizer que começasse ali a nossa amizade, porque Piolho, por conta da hiperatividade nata, não dispunha de tempo para se prender aos amigos e outros tipos de relações afetuosas, ainda que “casuais”, como aquela dolorosa experiência com a sua Musa de Tromba.

Ele guardava um natural apego a sua “extensa obra literária” da qual eu jamais ouvira falar. Até hoje nunca li um só livro seu (eles não existem). Mas, nos blogs virtuais que tudo aceitam, há poemas, pensamentos e muitos plágios grosseiros inéditos.

Certa vez, durante um disputado evento de Poesia Falada (será que, pelo bem da literatura e arte, alguém ainda se atreve a organizar eventos desta natureza?) num bar da cidade, ele fora socado por um poeta de mão cheia que, além de lutar contra as rimas pobres e a mediocridade da concorrência, lutava também o Jiu-Jitsu.  

A mandíbula de Piolho (adendo insignificante: teriam os artrópodes maxilares?) foi fraturada graças a uma sua grosseira e infundada acusação de plágio. Ora, quem plagiaria algo já escarradamente plagiado? O álcool libera a verdade, a criatividade, a agressividade, a libido e os orifícios. Portanto, se beber, não escreva.  

Outra estória peculiar deste anti-herói tupiniquim: há alguns anos, movido a caronas, Piolho compareceu a FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro). Na recepção de uma pousada, ao conferir o formulário de hospedagem preenchido pelo mancebo, uma atendente olhou para a outra e comentou: “Este cara deve estar de brincadeira comigo...”. Senão, vejamos:

Nome: Piolho.

Motivo da viagem: conhaque misturado com maconha.

Transporte utilizado: um tapete mágico.

Estado de origem: nu.

Próximo destino: Sem Destino, como Peter Fonda e Dennis Hoper.

Renda familiar: tricô

Profissão: poeta.

Não teve jeito. É claro que Piolho não foi aceito na estalagem, e ainda teve que pernoitar no lombo de algum cão de aluguel, como diria Quentin Tarantino.

Mais recentemente, conduzido até São Paulo pela benevolência (ou seria inconseqüência) de um caminhoneiro rebitado, Piolho visitou a inédita exposição “Elvis Experience”, a qual reúne centenas de roupas, objetos, instrumentos musicais e outros pertences do “Rei do Rock” trazidos diretamente de Graceland.

Frente a frente com o famoso macacão branco cravejado de abotoaduras e lantejoulas coloridas, farda esta utilizada num homérico show no Madison Square Garden de Nova Iorque, em 1975, quando então que Elvis interpretou, de maneira triunfal, a canção “My Way” num piano de cauda, Piolho sentiu um profundo baque, um raro estremecimento interior.

Apesar dos parcos conhecimentos na Língua Inglesa — afinal, fora deseducado em escolas públicas de péssima qualidade, ensinado por professores desmotivados, desnutridos e mal remunerados, sentado em bancos de madeira deteriorados pelo tempo, pela falta de tempo de gestores incompetentes e pela falta de investimento estatal em Educação e Cultura — Piolho sabia que “my way” significava “meu jeito, minha maneira, meu caminho”. Então sentiu um especial orgulho por assumir-se poeta de verdade, por viver como um deles, um Dom Quixote das letras. Assim sendo, tinha feito a vida a sua maneira, o que não deixava mesmo de ser algo, se não memorável, relevante, atrevido e até cômico.   

Num raro momento de introspecção e fé na causa, postado de joelhos defronte à indumentária sagrada do deus do rock, comentou, laconicamente, ao desconhecido senhor de fartas costeletas (mal sabia ele que o homem desconhecido era na verdade o famoso do cantor Nasi, igualmente extasiado com o legado mundano de Elvis que tanto agradava aos fãs: os talheres da última ceia; os lenços de seda do último choro; os blisteres incompletos de pílulas para dormir; o papel de embrulhar pão com o rascunho de “Like a bridge over trouble water”; e outras curiosidades...) se, num futuro breve, o mundo cultuaria, com a mesma reverência e paixão, um ícone advindo da Literatura.

“Já pensou nisto, cara? Um poeta-pop? Um Rei da Rima?”, completou, sem obter qualquer resposta, uma vez que o incógnito roqueiro já se detinha mais adiante com a televisão velha cujo tubo fora estilhaçado por um tiro supostamente disparado pelo cantor de “Love me tender” (Ninguém é de ferro. Há momentos em que se endurece e se perde toda a ternura, companheiro...).   

Nesta semana encontrei Antônio Carlos Piolho no Mercado Central da cidade faturando uma empadinha sem azeitona (Pode uma coisa desta?! Empadinha sem azeitona?!). Assim que me viu, começou a batucar no balcão da lanchonete e a cantarolar, desafinado, os versos de “Amor por dinheiro”, da banda Titãs. “Já ouviu essa, Eberth? Já ouviu? Que letra! Que coisa mais linda! Que porrada na cara desta burguesia safada!”, comentou, atropeladamente, disputando com o tempo, a saliva e os perdigotos a hegemonia das palavras.

Piolho é assim mesmo: seus pensamentos fluem a mil. “O que seria do mundo sem a poesia, meu caro Eberth?”, ele pergunta descontrolado, absolutamente comovido, completamente perdido de amor pela sua causa maior, o seu ganha-pão (tá de brincadeira?), o seu perde e ganha, a poesia.

Mas, e daí? Mais vale um poeta vivo na mão que dois imortais empolados tomando o chá das cinco numa academia qualquer de letras.

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