revista bula
POR EM 22/12/2011 ÀS 10:56 AM

Precisamos aprender a lição

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Há poucos dias fomos alvo de brincadeiras nos jornais do mundo todo, principalmente nos espanhóis. E mexeram justamente em nossa ferida, ou aquilo que a grande mídia elegeu como tal: o futebol. Numa das manchetes publicadas em Barcelona, lia-se o belo trocadilho “Deuses e Santos”. 

Bem, o fato de o Santos Futebol Clube, ou seja lá qual for seu nome completo, ter perdido para uma equipe espanhola, teria sido digerido com a maior facilidade, não fôssemos o “país do futebol”.  A mídia, sobretudo a grande mídia, que em um de seus segmentos vive à custa do esporte, cria uma expectativa, forjada à base da repetição (técnica de Goebbels?), que muitas vezes não encontra base na realidade. 

Primeiro, nos convencem de que o Santos é o Brasil. E não é. Depois vão formulando por vias indiretas o silogismo “Se o Brasil é o melhor do mundo (a premissa maior já é uma falácia) e o Santos é o Brasil (premissa menor é outra), (conclusão) o Santos é o melhor do mundo. Ora, com duas premissas falsas eles criam a tal da expectativa que só pode redundar na frustração dos torcedores, pois não acontece o que se espera. 

Mas deixando a lógica menor de lado, o fato é que perder para o Barcelona, como muita gente assinalou, não é desdouro nenhum. Concordo. Mas perder de 4 a zero, bem, amigos, aí já é mais difícil de engolir a pílula. Já me parece um caso de humilhação. 

E não vamos cair na besteira de pensar no Brasil de joelhos perante a Espanha. Calma lá. Isso é só o futebol. Se a competição tivesse como objeto o analfabetismo, o desemprego, o desenvolvimento das ciências, o nível da saúde pública e do desenvolvimento intelectual de seu povo, sei lá, se fosse algo mais sério, então seria o caso de nos preocuparmos. 

Pois bem, mas se o esporte não tem a mesma dimensão de outros setores de nossa vida social, por que então falar sobre ele? Porque o bombardeio diário daqueles que vivem à custa do esporte acaba penetrando insidiosamente na mentalidade popular que o futebol é o que temos de mais importante. 

Vocês devem ter observado que muito antes de se encontrarem os dois clubes, a guerra midiática já começou a cotejar o argentino Messi com o brasileiro Neymar. A guerrinha que só tem o sentido de aumentar a audiência daqueles que vivem do futebol é, pelo processo da pressuposição, transformada em guerra de todos nós. Basta um pé atrás, no que se ouve e vê, para entender o mecanismo da transferência. 

Ficando apenas com o futebol que se viu. A Espanha, hoje, pratica um futebol em que não existe lugar para estrelas. Em que pese o fato de um Messi, um Xavi serem craques de técnica muito acima da média, observa-se que mesmo seus melhores jogadores jamais esquecem que futebol é um esporte coletivo. E é a oposição entre essas duas escolas o que se viu no Japão. 

O futebol brasileiro não pratica mais a tabelinha, o passe curto, o conjunto. Não. O que a mídia pede é um craque que desequilibre, ou seja, um herói. E este é um capítulo muito importante da matéria. Os heróis é que garantem os altos índices de audiência. E a que assistimos? Não há dúvida de que o Neymar é um craque, mas acabou não fazendo nada, a ponto de alguém ter perguntado por que o Muricy não o escalou. 

O futebol individualista, de craques que desequilibram, saiu humilhado pelo futebol alegre, de fundamentos muito bem treinados, mas que conta com o fator coletivo. Claro que o Messi é um craque, que marcou dois gols, mas ele não joga sozinho. E foi o próprio Muricy que, em uma entrevista, declarou que, adotadas as táticas do Barcelona no Brasil, o treinador seria preso. Por quem? Por quê? Pela crônica esportiva brasileira, que precisa de ídolos que mantenham a audiência, logo, seus salários.   

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