revista bula
POR EM 22/08/2011 ÀS 11:43 AM

Porte de armas para os gays

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Pode parecer maluquice, mas acho que pelo princípio da igualdade social, gay deveria ter licença para andar armado. Transportador de numerário não tem porte de armas para se defender da sanha dos meliantes? Pois então. Por que os gays não poderiam andar armados para se defender dos homofóbicos pitibuls neonazistas?  De que adianta dizer que o gay pode casar, andar agarradinho, beijar em público, adotar criança, herdar um do outro, essas coisas que constitui o princípio da dignidade humana, se ele na prática não pode sair à rua que logo vem um bando de celerados que lhe dá nos costados até matar? Para permitir, de fato, é preciso proporcionar os meios.

Divaguemos um pouco. Um dos princípios mais estimados da democracia é que todos sejam contemplados pela igualdade. A constituição em seu artigo 5º garante que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Esta é uma das cláusulas pétreas mais paparicada e ao mesmo tempo mais desobedecida, porque para proporcioná-la, o estado de direito (aquele em que estado promulga a lei e a ela se submete, segundo a vontade da população livre e esclarecida) precisa fazer cumprir um princípio auxiliar igualmente importante: o da isonomia. Que consiste em “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”. Isso é aristotélico, mas não perdeu a atualidade, nem alcançou sua plenitude. Estado nenhum conseguiu até hoje proporcionar essa igualdade tão plena.

Os regimes socialistas costumam reduzir o mérito dos mais capacitados para permitir que os menos capazes àqueles se igualem. Igualdade por baixo. Uma coisa tosca. Essa é uma das razões que os regimes socialistas viraram munha.  A democracia clássica, pelo viés da livre iniciativa, favorece os mais bem dotados e mais bem-postos socialmente, de tal forma que os mais desprovidos vão se afastando inexoravelmente dos bens produzidos pelo conjunto da sociedade, fomentando o surgimento e a manutenção de um vasto contingente na  faixa da escória humana.   Sem lhes dar, no entanto, a tão sonhada oportunidade equânime.

Uma via intermediária ganhou corpo nos anos 90 do século passado, a partir do pensamento de  Anthony Giddens (1938 -),  com a propalada social-democracia, conciliando política econômica conservadora com política social progressista. A ideia vem encantando o mundo ocidental e desmoronando velhas teocracias orientais.  O presidente Obama, em meio a uma crise de lascar, vem travando uma queda de braço homérica com a turma do Tea Party, cujo conteúdo ideológico  passa necessariamente pelo maior ou menor esforço do estado para proporcionar a igualdade perante a lei.

No Brasil, FHC, aquele pró-liberação da maconha, é o político mais teoricamente engajado com a ideia,  e Lula, aquele do “não vi nada, não sei de nada” é o seu praticante mais emérito.  Ambos conseguiram feitos extraordinários  em termos de igualdade (ou pelo menos de redução de diferenças) e, principalmente,  na inclusão social.  Dilma Rousseff paga tributo para os dois.

A social-democracia imagina que a igualdade prescrita na constituição federal pode ser alcançada por meios de políticas afirmativas, tais como a criação de cotas para minorias, vagas em concursos para deficientes (louras seriam  protegidas por constituir minoria étnica ou por hipossuficiência neural?), esmolas a grupos carentes etc.

No bojo da social-democraia, para que não seja mera social-masturbaria, é preciso reconhecer o direito e proporcionar os meios para alcançá-lo. Por isso, os gays, após passar por exame de equilíbrio psicológico e sanidade mental, deveriam receber porte de armas para se defender  dos porretes, coices e murraças dos pitnazis. Não precisa ser um revolver convencional, que nem fica bem para um gay andar trabucando com um treisoitão.  Mas um spray de pimenta, um lança-chamas ou um dispositivo de choque não letal. Só pra deter os agressores e ganhar tempo de dar no pé.  Gay que usar sua arma com desvio de finalidade, — que não for para legítima defesa  —, será enquadrado em algum crime hediondo. Coisa severa.

Você que discorda de mim deve estar pensando que minha sugestão é tola e meu argumento frágil e disparatado. E que, se assim for, qualquer cidadão de boa vontade teria também o direito a porte de armas para se defender dos malas, — uma praga que não para de crescer.

Ocorre que cidadão de boa vontade é maioria. É o geralzão. E gay é minoria — alvo preferencial das políticas afirmativas. E, assim que a agressão aos gays em razão de sua orientação sexual for reduzida níveis aceitáveis, eles serão integrados pacificamente ao conjunto dos homens de boa vontade. Aí não terão mais  necessidade do porte de armas. Simples assim. E passarão se defender das agressões triviais, de mão abanando. Como qualquer cidadão comum.

Se até lá a sociedade não tiver achado uma forma de deter a escalada dos malas.  

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