revista bula
POR EM 24/07/2012 ÀS 10:37 PM

Por um triz

publicado em

A edição 990 da revista “Veja” de 26 de agosto de 1987 tem como capa o túmulo de Carlos Drummond de Andrade. “O adeus do poeta” era o título. Agosto é o mês do desgosto como dizem muitos. Foi neste mês que morreram Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Mas, o desgosto de Drummond naquele agosto de 1987 não se deveu à morte de algum estadista que construiu o Brasil moderno. Sua dor era mais íntima. Maria Julieta, sua filha única, perdia a batalha contra o câncer. A morte dela foi um baque para o poeta. A “Veja” mostrou a afinidade que o pai tinha com a filha e vice-versa. Um não queria ver a morte do outro. Mas, como este mundo é injusto, quis o destino que a filha fosse embora primeiro que o pai. “Isto não está certo, ela deveria ficar para fechar meus olhos!”, dizia o poeta para os amigos que foram ao Cemitério São João Batista. Doze dias depois da morte da filha, o coração do poeta não aguentou. Com quase 85 anos era a vez de Drummond ir embora para sempre e ficar ao lado da sua filha.

Treze anos depois da morte do poeta de Itabira eu estava no Rio de Janeiro. Desde que eu vira pela primeira vez a matéria da revista “Veja” sobre a morte de Drummond que eu tinha vontade de visitar seu túmulo. Em 2010 eu tive a oportunidade.

O Cemitério São João Batista fica na divisa entre os bairros de Botafogo e Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. É cercado pelos morros Dona Marta e São João. Dali vê-se o Cristo Redentor. É como se o Filho de Deus guardasse os restos mortais dos que ali descansam inclusive o próprio Drummond que não queria orações e nem cruzes no seu túmulo. Se fora ateu a vida inteira por que, no caixão, imploraria a misericórdia de Deus?

Queria muito ver o túmulo do Drummond, prestar-lhe uma homenagem. Quando ele morreu eu tinha quatro anos. Só fui tomar ciência da grandeza de sua literatura tempos depois.

Chegando ao portão do cemitério procurei a recepção. Gostaria de saber a localização do seu túmulo. O senhor que me atendeu abriu um caderno cujas abas continham as letras do alfabeto. Ele anotou num papel: “Carlos Drummond de Andrade. Ala tal. Túmulo tal”. Fui caminhando pelas ruas do cemitério, observando os túmulos. Reconheci alguns, surpreendi-me com a curta duração da vida de outros. Talvez observando que estava perdido, um rapaz que fazia a manutenção de túmulos resolveu me ajudar. Mostrei o papel que o senhor da recepção havia me dado. Ele olhou e falou: “É longe. É lá pra cima”. Realmente o túmulo da família Drummond de Andrade é mais afastado. Tem que subir umas ladeiras até chegar ao destino. Cansado de viver, não tendo forças para enfrentar a ausência da filha, Drummond, nos seus 84 anos, não conseguiria subir aquelas ladeiras e ver o caixão da filha baixando na sepultura.

No meio dos túmulos, o rapaz que me conduzia ia mostrando seus trabalhos. Paramos no túmulo de um jovem torcedor do Botafogo que morreu num acidente. O rapaz me falou que a família paga para que ele mantenha o local limpo e as faixas do Botafogo conservadas. Queria fazer propaganda? Talvez o rapaz tenha imaginado que aquele tal de Carlos Drummond de Andrade fosse parente meu e eu poderia precisar dos seus préstimos.

Chegamos ao túmulo da Família Drummond de Andrade. Simples como o poeta mineiro. Lá estavam inscritos os nomes Maria Julieta (4-III-1928 — 5-VIII-1987) e Carlos (31-X-1902 — 17-VII-1987). Simplesmente Carlos. Tal qual no verso de um dos seus poemas mais famosos: “Vai, Carlos, ser gauche na vida!”. Tirei uma foto do túmulo. Foi o momento que eu estava mais próximo fisicamente do poeta. Seus restos mortais estavam ali, mas a partir daquele corpo que, por ora, só sobraram os ossos, é que seu espírito imenso produziu poemas e crônicas que marcaram e ainda marcam gerações de admiradores e despertam a chama poética em novos escritores. Pensei na capa da “Veja”. Estava diferente. Mas também, fazia treze anos que o poeta tinha partido. A simplicidade daquele túmulo me comoveu. Por que não inscreveram uma poesia? Por que não colocaram alguma mensagem? Quando os fãs do The Doors vão visitar o túmulo do Jim Morrison cantam “Light my Fire” a exaustão e bebem vinho ou uísque em homenagem aos eternos porres do cantor. No túmulo de Drummond não tinha nada disso. Discreto como ele sempre foi. Avesso às celebridades.

O rapaz me ofereceu seus serviços. “Olha, se o senhor quiser eu faço um acabamento aqui, na parte lateral. Eu também posso dar uma nova pintura aqui nos nomes. O senhor é da família?”. Ao mesmo tempo que eu estava meio que deslumbrado com a aproximação física do poeta que tanto admiro, não acreditava no que o rapaz me propôs. Eu, que não tem nenhuma carreira literária, que escrevi o último poema quando tinha 17 anos em virtude de uma desilusão amorosa. Eu, que nunca publiquei um livro, que escrevo pessimamente, faria a manutenção do túmulo do poeta Carlos Drummond de Andrade? Confesso que fiquei tentado em ser responsável por esta manutenção. Por um triz não fiz o acordo. Por um triz! Falei para ele que não era da família, que era um simples fã do poeta e que não morava no Rio de Janeiro. Mas e se eu aceitasse a proposta? E se eu pedisse a conta bancária daquele rapaz e contribuísse todo mês para a manutenção do túmulo do poeta itabirano? A manutenção do seu túmulo seria uma forma de homenageá-lo?

Preferi fazer minha homenagem silenciosamente. Uma homenagem simples, sincera, de coração. Pensei em olhar para o Cristo Redentor e pedir pela alma do Carlos. Não fiz. Se o poeta não quis orações no velório e no enterro e nem cruzes no seu túmulo por que treze anos depois um admirador desconhecido quebraria a vontade do poeta? Ainda bem que não fiz negócio com ele. Mas, posso falar aos meus amigos, aos meus filhos e aos meus netos que eu, por um triz, não cuidei da manutenção do túmulo de Carlos Drummond de Andrade.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2019 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio