revista bula
POR EM 05/09/2012 ÀS 09:43 PM

Por que eu e Ademir Luiz estamos certos e os comentadores da Bula e do facebook que discordam de nós não só estão errados, mas são também intelectual e moralmente inferiores

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“Seus respectivos públicos, que se colocam como adversários, já chegam convencidos.” (Ademir Luiz, em seu artigo “Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil”, aqui na Bula)


A edição de 18 de maio da revista “Science” traz um dossiê especial sobre conflitos humanos, apresentando os resultados de experimentos em diversas áreas das neurociências (as neurociências de verdade, não as de autoajuda) bastante interessantes e úteis para nos ajudar a entender a nós próprios.

Ajuda a entender, por exemplo, por que uma resenha que critique Woody Allen, ou um artigo que defenda que ele é melhor do que Dostoiévski, provocam reações iradas de leitores ofendidos, como se se tratasse de times de futebol ou insultos a membros da família. É bizarro que alguém que se diga “doutor em educação”, além de cometer erros crassos de português, revele-se preconceituoso, discriminador. Isso porque outrem critica um filme. É patético ler comentários que não se envergonhem de escancarar, senão a ignorância do assunto em questão, mas o próprio artigo que estão criticando. Digo ignorância do próprio artigo pois a maioria dos comentadores não se dá ao trabalho de ler. Lê o título, passa os olhos muitíssimo por cima e pronto. E isso não é típico de uma certa geração twitter, mas, sim, do ser humano, que é preguiçoso por natureza, portanto, desde sempre.

Humanos dividem o mundo em “nós” e “eles”. Por que somos tão “tribais”, pergunta-se Elizabeth Pennisi, em seu artigo de revisão “Roots of racismo” (“Science”, p.825-827). Citando o pesquisador de Harvard James Sidanius, Pennisi pondera que, se é verdade que somos naturalmente seletivos, também o é que tal seleção nem sempre se dá em bases à primeira vista sólidas (tais como religião ou grupo étnico). São por vezes absolutamente “mercuriais”, como, por exemplo, preferir o mesmo pintor. E embora tais elos sejam frágeis, ainda assim as pessoas tendem a acreditar que “os seus” são mais inteligentes, mais morais, mais justos do que os outros. Seria como se os “torcedores” de Dostoiévski considerassem os de Woody Allen mais estúpidos e amorais do que eles só por isso — serem de Woody, e não de Dostoiévski. Soa absurdo? Mais até do que hooligans de futebol, pois desses não se espera razão, raciocínio, apenas “paixão”. Mas o que dizer de apreciadores de arte, literatura, filosofia?

Nosso viés descarado em direção ao “nós” e contra o “eles” é claramente fruto de uma caprichosa evolução. Podemos com facilidade rastrear comportamentos similares em nossos primos primatas. Em estudo de Laurie Santos, de Yale, macacos rhesus olham mais longamente para imagens de macacos “extra-grupo”, principalmente se colocadas ao lado de imagens de comida. Já se a imagem for de perigo (aranhas e cobras), eles se demoram mais nas imagens de seus “intra-grupo”.

Christopher Boehm, em outro artigo de revisão (“Ancestral hierarchy and conflict”, “Science”, p.844-847) refere-se ao que ele chama de nosso ancestral mais próximo "Pan", com ramificações para o “Pan troglodytes” (chimpanzés) e “Pan paniscus” (bonobos). Temos, os três, vários pontos surpreendentemente em comum, apesar de também haver diferenças importantes de comportamento. Os bonobos, pra começo de conversa, são menos violentos do que os chimpanzés e os homens em suas interações, digamos, sociais. Outra sua característica importante é o papel das fêmeas. A hierarquia social dos bonobos só se sustenta se tiver a participação efetiva das fêmeas. Até o macho-alfa só se mantém no poder se com o beneplácito da mãe-alfa. E nunca, jamais, em nenhuma hipótese deixe um grupo de fêmeas bonobos bravo, pois elas se juntam e te espancam até a morte, se a ocasião pedir.

Chimpanzés colocam em cheque aquela estória de “Símio não mata símio” (“Planeta dos Macacos”, lembram-se?). Mata sim, se necessário ao equilíbrio socioeconômico do grupo. E isso pode acontecer tanto extra-grupo, quanto intra-grupo.

Mas os “Pan” mais interessantes mesmo somos nós, os animais homens. “Nos últimos 5 a 7 milhões anos, humanos têm divergido de seus dois congêneres ‘Pan’ em vários aspectos importantes que dizem respeito a conflitos e sua administração. No nível do fenótipo, perdemos temporariamente o macho-alfa e nos tornamos politicamente igualitários. Isso significou ao mesmo tempo a perda de um opressor egoísta mas também de um potencial pacificador altruísta. No nível do genótipo, adquirimos uma consciência (com um senso de vergonha) que nos fez seres morais. Isso mudou a natureza mesma de nossa vida em grupo, pois agora, além das reações primitivas, temerosas e submissas ao poder de outros, caçadores-coletores morais seguem normas simplesmente porque os valores de seu grupo as apoiam. Parece que evoluímos ao ponto de internalizá-las.” ( “Science”, p.846)

Possuímos a capacidade de, rapidamente, identificar em quem podemos confiar e de quem devemos desconfiar, pondera Mark Schaller, da Universidade de British Columbia. Mas isso não é sempre (ou completamente) consciente. Uma forma de se ter acesso a esse curioso mecanismo mental são os “testes de associação implícita”. Estes mostram como as pessoas associam mais rapidamente palavras negativas (como ódio, por exemplo) a faces com características que lhe são mais próximas (“ingroup”) do que mais distantes (“outgroup”). Isso tem implicações bastante práticas, no caso de policiais, por exemplo, que precisam decidir rapidamente se aquilo na mão de seu interlocutor é um telefone ou uma arma.

Tais testes psicofísicos nem sempre são confiáveis, estando sujeitos a auto-apresentações estratégicas (como o sujeito quer ser visto). Para diminuir esse risco entra em campo a neuro-imagem funcional. Naomi Ellemers (“The group self”, “Science”, p.848-852) apresenta resultados de estudos que se valem dessa ferramenta, mostrando que áreas cerebrais ativadas em indivíduos observando situações que envolviam a eles próprios eram as mesmas quando observando indivíduos de seu grupo. Tais áreas não ativavam quando observando indivíduos extra-grupo passando pela mesma situação.

Estas constatações científicas, convenhamos, não nos são estranhas, são até bem intuitivas. Mesmo nossa capacidade de mudar de grupo. Por exemplo, não importa se sou branco, ficarei ao lado de negros, amarelos, verdes, roxos, se torcerem pro mesmo time que eu. Numa briga de bar, lutarei lado a lado com meu amigo vermelho com bolinhas amarelas contra seja lá quem for que estiver do lado de lá. Nossa identidade pode ser fluida (ou “mercurial”).

O que é mais interessante e nada intuitivo é outra face dessa identidade de grupo. Os estereótipos negativos. Num trabalho agora clássico, Steele & Aronson (“Stereotype Threat and the Intellectual Test Performance of African Americans”. “Journal of Personality and Social Psychology”, 1995, p. 797-811) mostraram como tais estereótipos podem influenciar negativamente, no caso de jovens negros norte-americanos que respondem à questão de cor da pele antes de iniciar uma prova. Os que são “lembrados” de sua cor saem-se pior. O estereótipo negativo “negros são menos inteligentes do que brancos” seria tão arraigado que lhes entranharia e os faria sair pior. Impressionante.

(Aqui vale uma observação, alguns estudos psicológicos do fenômeno de “priming” têm sido questionados, inclusive sob acusação de fraude estatística, na própria “Science”. Veja aqui.

Enfim, tais experimentos até ajudam a compreender nosso comportamento. O que não elimina a surpresa (sempre!) de ler comentários apaixonados, por vezes desavergonhadamente ridículos, a respeito de assuntos supostamente racionais. Sempre que me acontece isso, tento me colocar do lado de lá. Imagino alguém detonando um escritor de que gosto... Digamos, o melhor de todos — Kafka. Imagino um crítico aqui da Bula que respeito, digamos, o Carlos Augusto Silva (ou o próprio Ademir, por que não?) descendo a lenha no Kafka, dizendo que Proust é muito melhor, citando mil artigos acadêmicos que lhe dão sustentação. O pior que pode me acontecer é morrer de dó do Carlos Augusto por ter o gosto errado (“gosto certo = meu gosto” evidentemente).

Nota 1: A bem da verdade e para que não digam que fiz o mesmo que Jonah Lehrer (autor de “Proust was a Neuscientist”), plagiar a si mesmo, trechos deste artigo são transcrições de minha última coluna na revista “Filosofia Ciência & Vida”, da Editora Escala.

Nota 2: A propósito do “escândalo” Lehrer, Leonardo Boff sempre fez isso por aqui e nunca lhe incomodaram.


Flávio Paranhos
é médico (UFG) especialista (IHR) doutor (UFMG) research fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFG) e visiting scholar (Tufts) em Filosofia. Doutorando em Bioética na UnB, Cátedra Unesco. Professor do departamento de Medicina da PUC Goiás.

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