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POR EM 23/01/2010 ÀS 11:03 AM

Pensar é muito perigoso

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Revista BulaUm amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.

Só pra não viajar muito, veja o que vem acontecendo com as artes brasileiras, principalmente as ditas artes populares. A não ser que você seja fã do Tigrão e congêneres, então dou um tapa nesta máquina e vou dormir. Você já prestou atenção aos sambas-enredo? O Stanislaw, meu caro, o Stanislaw Ponte Preta foi um dos maiores profetas, não, poeta, não, eu disse profeta, deste país varonil. Seu “Samba do Crioulo Doido” deveria entrar como um dos livros do segundo testamento.

Dias atrás apareci em um evento, coisa que muito pouco tenho feito, e ouvi um ex-político, com a facilidade verbal que a maioria deles tem quando há público, afirmou que o povo brasileiro vai-se acanalhando. É um povo, são palavras dele, de chapéu na mão e sorriso calhorda, à espera das migalhas debaixo da mesa.

E é claro que a mídia, sobretudo a eletrônica, que depende de índices de audiência para sobreviver, é claro que essa mídia não é inocente no caso. Os ratinhos da vida andam por aí, ditando gosto, lotando auditórios, olhando pra baixo.

Tem-se falado que o brasileiro vem lendo mais. E acredito. Alguém descobriu que passamos dos miseráveis 1,9 livro/ano por pessoa para um número um pouco mais civilizado, que são os 4,7. Até acredito. Pode mesmo ser. Mas outro dia, encontrei um professor com mochila às costas, e ele me mostrou os dois livros que estava levando para as férias. Caramba, um professor! O primeiro era um best seller, destes que se vendem por quilo e se escrevem por fôrma; e o outro era um livro de autoajuda. Meu caro professor, só pessoas muito carentes, digo intelectualmente carentes, leem um livro com fórmulas do bem viver, empulhando pessoas até bem intencionadas que pagam para descobrir quão fácil é ser feliz.

É isso aí, mais uma vez juntei grossura a sarcasmo tentando ser fiel à realidade.

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