revista bula
POR EM 10/10/2011 ÀS 08:14 PM

O que você faria se fosse imortal?

publicado em

Já imaginou o que faria se descobrisse que por alguma razão você tivesse se tornado imortal? Ter consciência de que o tempo continuará passando irremediavelmente para os outros, mas para você ele estará para sempre estancado?

O fato por certo traria grandes alterações de perspectivas em sua vida. Poderia levá-lo a percorrer novos e diversos caminhos, dependendo obviamente de seu temperamento e de suas escolhas.

Poderia, já que é imortal, cair num hedonismo aventureiro e doidivanas, curtindo cada momento de sua vida com toda intensidade, colhendo orgasmos pela vida, que nem borboleta que oscula flores.

Poderia, já que é imortal, dar início a projetos grandiosos, desses que não cabem no manequim de uma vida singela. Poderia edificar bibliotecas circulares, escadas infinitas, ou qualquer obra que pudesse trazer redenção para a humanidade. Escrever uma nova “Odisseia”, uma nova “Comédia Humana” ou um novo “Em Busca do Tempo Perdido”. Poderia até empreender viagens interestelares, dessas em que se gastam milhares de anos-luz para percorrer. Mas um dia, quando a vida na Terra já tivesse ido pro beleléu, você chegaria ao destino, são e salvo, com os genes humanos ainda intactos, pronto para multiplicá-los, num planeta distante e seguro. Afinal, você tem consciência de que jamais será alcançado pela ceifa da morte.

As possibilidades são infinitas. Vão depender unicamente de sua imaginação. E você terá, não o tempo, mas a eternidade inteira para imaginar o que quiser.

No Brasil temos algumas pessoas que foram brindadas com a imortalidade. Não me refiro àqueles senhorzinhos que vestem fardões geriátricos e atravessam os umbrais da vetusta Academia Brasileira de Letras, chamando-se, iludidamente, de imortais. Assim, de cabeça, me lembro de Oscar Niemeyer e José Sarney (seria coincidência os dois terem Y no nome, ou um distintivo genético da imortalidade?).

Niemeyer, ao descobrir-se imortal, entregou-se ao ofício incansável de projetar construções. Projetou a torre de Babel, a Pirâmide de Gizé, a Biblioteca de Alexandria, o complexo de Machu Pichu, a Igrejinha da Pampulha, a Catedral de Brasília com Brasília em volta, a sede das nações Unidas em Nova York, o Memorial da América Latina e um sem números de outras obras mais visíveis que habitáveis. Além, é claro, de fumar um charuto, tragar um pinguinha e casar de vez em quando. Que mesmo sendo imortal, ninguém é de ferro.

Como havia aventado, Sarney também é imortal. Não porque tenha vestido o fardão da Academia. Aquele gesto foi somente para pegar um diploma e constar na biografia de vaidoso que é. Muito antes do fardão ele já se achava imortal. E o que ele fez da imortalidade?

Pegou a mania de fazer necrológios. Aquelas declarações manjadas de pesar do tipo: “Com a morte do fulano de tal o mundo perde um benfeitor emérito. O mundo nunca mais será o mesmo depois dele. Sua morte foi uma perda irreparável.” Falou as mesmas frases pela morte de todos os figurões. Desde Matusalém, passando por Jesus Cristo e Garrastazu Médici, até Itamar Franco. Não falou de Steve Jobs porque não conhece iPhone.

Outra façanha sua é estar sempre pronto para assumir o poder, qualquer que seja ele. Há suspeitas de que ele seria o soto-capitão da Arca de Noé. O capitão teria sofrido um colapso nervoso na véspera do dilúvio e ele assumiu o comando. Raspado o bigode, ele fora José do Egito, que engrupiu o faraó como decifrador de sonhos e assumiu grande poder no Império. Tancredo, que sofreu um piripaque na hora de assumir a presidência da república, quem era o vice pronto para assumir? Desde quase sempre ele continua ali, sorrateiro, na moita da linha sucessória. Presidente do senado, do congresso e tal. Com a fleuma de um vampiro arcaico. Bobeou, ele assume. E como é imortal, não precisa ter pressa.

Numa outra vertente, Sarney vem aproveitando a imortalidade para transformar o promissor Estado do Maranhão numa propriedade privada e, para os outros, sucursal do Purgatório, possivelmente anexado ao Amapá. Dizem que tudo que tem no Maranhão é dele. O que não é dele é do Lobão. Mas o Lobão é do Sarney. Até cogitou de transformar o Estado no Inferno. Mas, por sorte, num exame de consciência, constatou que se acha ideologicamente um homem mais de centro. E o inferno exigiria uma dose muito alta de radicalidade. Por isso conformou-se com um Maranhão-purgatório. 

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio