revista bula
POR EM 04/11/2011 ÀS 01:39 PM

O país dos aleijões

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A sociedade brasileira parece decididamente inclinada ao aleijão, à monstruosidade. E não é de uma simples deformidade que, pelo viés do politicamente correto, se possa chamar de “diversamente capacitado”. Não. O poder dominante está permeado pelo “aleijão incapacitante”, sem rodeios. Aleijão, no apelido terminológico, é teratologia. O Brasil é um país teratológico que, com uma frequência muito elevada, se deixa contaminar por ideias monstruosas.

Isso ocorre, sobretudo, em circunstâncias altamente burocráticas, em que a sensibilidade e o senso de sintonia com a condição humana deixaram de compor as determinantes da realidade. E acabam por orientar as ações de governo.

Fatos aberrantes são recorrentes em nossa história. No entanto, vamos a alguns exemplos que ainda estão frescos em nossas lembranças. Norteado por aleijões da linguística aplicada à nossa confusa e inoperante pedagogia, o Ministério da Educação chegou às raias do absurdo de praticamente proibir o ensino do vernáculo em nossas escolas. O fundamento foi a alegação de que a escola, ao proceder à correção dos “fora-da-gramática”, ou seja, ensinando a língua gramatical ao sujeito que conhece apenas a língua coloquial, estaria exercendo discriminação linguística contra ele. A alegação parece até ser lógica. Mas absolutamente não é. Trata-se apenas um aleijão da lógica. Lembre-se: o indivíduo vai à escola para “construir o saber”.

Se esse pensamento fosse disseminado a todos os setores do governo, pouco ou quase nada se poderia fazer pela sociedade. Em pouco tempo não poderíamos, por exemplo, punir os fora-da-lei, porque isso também seria um exercício de discriminação. E você pensa que já não existe uma corrente dentro do Direito que não pensa assim?

Recebe o rótulo genérico de “Garantistas”. Pelo processo teratológico do raciocínio dedutivo sem sensibilidade, cristalizaram a “teoria do crime conglobante”. Por esse pensamento, quando o sujeito comete a delinquência, é porque ele foi induzido pelo conjunto de estímulos emanados da sociedade. Logo a sociedade é igualmente cúmplice e não tem legitimidade para puni-lo.

Caso prático: o delinquente mata seu filho para roubar o iPhone. Ele praticou o delito porque a sociedade, através do marketing irresistível, lhe botou na cabeça que, se não tiver um iPhone, ele não existe. E não-existir, entre ele e o outro, simplesmente optou pelo outro. Raso assim.

Mais recente ainda, a Secretaria de Políticas para as Mulheres criou uma celeuma federal para censurar uma campanha de lingerie estrelada pela modelo Gisele Bündchen. No filmete, a modelo aparece usando roupas normais para contar ao marido, por exemplo, que estourou o limite do cartão de crédito. A estratégia é classificada como “errada”.

Em seguida é mostrada a forma “correta”. A modelo repete a informação trajando lingerie, reforçada pela frase: “ Você é brasileira, use seu charme”. Para a tal Secretaria “a propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas”.

Eis aí mais um raciocínio teratológico, de quem perdeu o senso de humor e de leveza. Quem é que, em posse de seu bom senso, possa imaginar que uma brincadeira como essa da publicidade possa impedir os avanços da condição da mulher? Sem contar que o humor, a sedução e até o jogo da libido externado em trejeitos estão na base do relacionamento saudável entre as pessoas. Sobretudo entre marido e mulher. Isso é coisa de quem nunca alcançou a leveza da sedução sem malícia, ou a tenha perdido num processo de ressentimento e mágoa. É talvez a mesma falta de senso de leveza que levou ao estropiamento do idioma, ao se denominar a presidente da república de “presidenta”. Quase um xingamento ante a sutileza do “comum de dois gêneros” da última flor do Lácio, que além de inculta está menos bela.

Não é de se estranhar, portanto, se mais dias menos dias, esses ministérios de pensamentos monstruosos vierem a público exigir cotas em participação de publicidades de lingeries para as mulheres “feinhas”, em nome “das práticas e pensamentos não-sexistas”.

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