revista bula
POR EM 10/11/2008 ÀS 11:32 AM

O mundo já era

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Sob uma enorme tenda branca armada para a missa campal, os pais, familiares e convidados espremiam-se, suavam em bicas e reclamavam do calor. Quem seria o responsável pelas altas temperaturas daqueles dias? Reclamar: eis um dos nossos talentos natos. Não bastasse o mormaço, o padre que conduzia a cerimônia, apesar de jovem e novato no ofício, também reclamava e repreendia os presentes, cobrando assiduidade e compromisso com a santa igreja. Nós funcionamos muito à base da pressão, da ameaça e do medo.

Estratégias de céu e inferno. Até para não delongar mais o evento, todos concordaram com o padre mocinho opressor e prometeram dedicação, envolvimento e presença nas missas dominicais a partir daquele dia. Sim, senhor. Com toda certeza.

Dentre tantas crianças angelicamente trajadas com mantos brancos e coroas de flores, lá estava Júlia, na grandeza de seus dez anos de idade. No seu rosto alvo desenharam-se rubras roséolas, resultado do calor e da dilatação das veias. “E então, que sabor tem a hóstia, filha?” eu perguntei. “É meio sem graça. Tem gosto de papel”, ela brincou e sorriu como de praxe. Sorte nossa o padre não ter ouvido...
 
O ambiente quente e abafado incomodava ao extremo, distraía. Impaciente, um tanto desatento aos rituais da Primeira Comunhão daquele grupo de crianças, minha mente foi invadida pela imagem da menina de nove anos assassinada em Curitiba. Compará-la com Júlia foi sofrido e inevitável. Fiquei sabendo do crime através dos noticiários. Seu corpo fora encontrado dentro de uma mala (de novo, uma mala assombrando nossas vidas...), embaixo da escadaria de uma rodoviária, e apresentava sinais de esganadura e violência sexual, segundo relatos da polícia. Ofício de besta fera. Não se pode imaginar que o criminoso seja um demente qualquer tratável com remédios, lobotomia ou eletro-choque. Mais respeito com os mentecaptos, por favor! Os doidos não escondem os seus atos. Ao contrário, quando se tornam violentos nos labirintos da paranóia e da alucinação, deixam provas cabais, não se ocupam com a mentira e com as artimanhas para esconder a gravidade dos seus erros. Loucos não pertencem mais a este mundo, o que não deixa de seu uma enorme vantagem para eles.

A ignorância me aborrece. O que leva um adulto a ludibriar uma criança pelas ruas da cidade, capturá-la e cometer covarde violência física, obtendo, além disso, prazer sexual com o sofrimento e com a morte? Há muito tempo tenho declarado o meu apreço e admiração aos bichos, animais de comportamento previsível, compreensível e aceitável. Dos bípedes pensantes, ando por demais descrente.

Exemplos de vocação para a violência e a maldade, como o cometido contra esta menina de nove anos, tendem a cair logo no esquecimento. Em breve, um crime ainda mais hediondo e cruel será noticiado pela imprensa, fazendo com que a audiência suba a níveis ainda mais altos, e nos esqueçamos dos horrores pregressos, das crianças atiradas pelas janelas dos prédios ou arrastadas sobre o asfalto da cidade.

Talvez, o fenômeno de banalização da violência se deva à velocidade da informação em nossos dias. Hoje, ficamos sabendo de tudo que ocorre em todos os cantos do planeta, as coisas boas e as coisas ruins, graças ao alcance da televisão e da internet. A maldade sempre permeou a mente das pessoas. Basta ler a história da humanidade. A diferença fundamental é que hoje dispomos da informação ágil, imediata, sem censuras. Basta clicarmos no mouse do computador ou ligarmos a TV. A barbárie está bem ali, vívida na nossa frente. Matanças, abusos, estupros e torturas existem desde que deixamos de ser macacos e passamos a pensar. Quando teria acontecido esta trágica transformação?!

O que me parece relevante e vergonhoso é que, apesar de dotados da tecnologia, das facilidades da vida moderna e do conhecimento adquirido ao longo de tantos séculos, persistimos imersos na estupidez e na mais completa ignorância. A despeito do legado de erros e acertos dos nossos ancestrais, continuamos criaturas ávidas, cruéis, individualistas ao extremo, animais meticulosamente absortos na mentira para o benefício próprio ou do seu clã. Para mim, já deu o que tinha que dar: este mundo já era.

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