revista bula
POR EM 23/04/2008 ÀS 08:35 AM

O grito de Nietsche

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Carreira vai, carreira vem... Quantos se dão bem nas carreiras, embora sejam uns quartas-feiras... Outros vivem às carreiras, a driblar a lei e a polícia, por terem feito bandalheiras. De repente, não mais que de repente, tendo se formado em Direito, por absoluta falta de opção a que, por mérito se habilitasse (já que não tem padrinhos importantes) Simplício entrou, por concurso, para a Policia Civil. Mesmo sabendo que neste ofício de viver a arapongar malfeitos alheios, viveria jodido pero contente, a refocilar no excremento da miséria humana.
 
Quanto ao curso, que o chateou na sua parte prática - a do carrascal das leis e prolegômenos propiciadores da Justiça sem Direito, ou de Direito sem Justiça, propiciou, no início ( dito básico) poder de-morar na filosofia, a parte não árida e até mesmo inspiradora a dar boas vindas (e falsas boas notícias) aos futuros operadores da ciência de querelar em torno de perlengas, destemperos e desinteligências do animal humano, sempre em guerra com os outros, assim como de si mesmo é o maior inimigo: o mais perigoso animal a ser temido.
     
Pacifista e incapaz de machucar uma mosca, cedo deu adeus às ilusões de que é possível ser filósofo e poeta exercendo o difícil ofício de pedir deferimento a juiz togado peticionando para dirimir e solucionar demandas em torno do ego/ismo humano, sempre às voltas com lides ligadas a posse , uso e usufruto de pessoas, corpos humanos, alentados ou miseráveis patrimônios.
     
De todos os colegas de turma fora, sem dúvida, o mais "avoado", ou "lunático", no sentido de estar sempre a ler e comentar obras da filosofia clássica ocidental - partindo de Pitágoras, Demócrito, Heráclito, passando por Platão, Sócrates (com suas idéias sobre a construção da sociedade perfeita a partir do cidadão perfeito), e chegando até os aforismos de Nietsche, os que mais falaram alto à sua sensibilidade. Não saia de sua boca a sabedoria pré-socrática de Demócrito: Por convenção é o quente, por convenção é o frio. Mas, na realidade, só existem os átomos e o vazio... na verdade, nada compreendemos, pois a realidade jaz no que é profundo". Riam dele e de Demócrito os levianos e os superficiais da Faculdade, que eram quase todos.
        
Todos, ao vê-lo comentar as frases cortantes de "Ecce Homo", ou de "Assim falava Zaratustra", ou da filosofia socrática, comentavam, á boca pequena: "Só sei que este caboclo, se ainda não pirou, cedo ou tarde vai surtar, e feio". Ele mesmo chegou a escutar rumores neste sentido, mas não ligava, atribuindo o fato ao preconceito que os ignaros dedicam a quem, mais minimamente, dedique-se a cultivar um pensamento menos ligado ás rasuras do individualismo estreito, tão somente afeito a assuntos prosaicos, de satisfação dos desejos de consumo, à orla do que de verdade importa na existência humana: o contato com a essência, o Eu Verdadeiro, que não se realiza no que é vazio ou efêmero.
        
Uma tal criatura não teria o menor futuro como operador do direito - eis o que diziam os seus colegas pragmáticos - pensamento compartilhado também pelos professores, muitos dos quais haviam atingido os mais altos postos nas várias carreiras jurídicas, sendo juizes, ou até desembargadores, todos de "caráter impoluto e sem jaça", como dizem uns dos outros (sem ter a menor fé na verdade do que falam): vivendo, não obstante a pompa e a circunstância da pose flatulenta de eminências, vidinhas sofridas e estressadas, pois que obrigados a trabalhar como mouros, para dar conta da mordomia em que viviam parentes e aderentes agregados ao seus muitos salários.
          
Futuro ele não teve mesmo, uma vez que, desacorçoado de tanto levar pau em concursos para delegado, promotor, juiz de Direito, e o escambau, acabou por não se dar mal em um concurso para agente de polícia. Coisa muito menor do que suas ambições haviam aspirado, mas fazer o que? As contas chegando, encavaladas, a família cobrando com ferocidade, a acusá-lo de ser um eterno desempregado crônico, concurseiro contumaz (e mal sucedido em todos, andava com a auto-estima mais por baixo do que girabrequim de sapo).
        
Quem não tem cão, caça com gato, Já que o destino lhe foi infausto, e não lhe permitiu dar o grito de Nietsche nas altas esferas da magistratura, seria apenas mais um barnabé juramentado, a gemer e lamuriar-se, ganhando mal pra cachorro, e comendo o pão que o diabo enjeitou, no vil ofício de investigar sem punir pequenos ou horríveis crimes perpetrados por cidadãos acima e abaixo de qualquer suspeita. Ser araponga do governo pareceu-lhe um destino bem inferior àquele que almejara, em seus esforços por aprender, de modo maximizado, os altos e relevantes preceitos filosóficos da ciência do Direito.
        
Que animal mais insensato e voraz é o Homem: sempre a pensar que ser feliz é conseguir coisas. Sempre a desejar chegar em outro lugar. Nunca contente em ser o que é, e em estar onde está. Sempre a fazer uma coisa para alcançar outra. Que, quando é atingida, revela não ser a coisa ambicionada. Sempre a querer encontrar o futuro naquela parte do passado (ou da ilusão da memória) em que pensa ter sido feliz. Sem ao menos poder deter o tempo do relógio, ainda quer rebobinar o filme do infinito - que só pode ser visto no presente ativo, de quando estamos verdadeiramente vivos!
        
Quantos não vivem a sonhar delícias, e têm visões do paraíso em que viverão, quando se formarem, quando passarem naquele concurso, ou quando ficarem podres de ricos? No mais das vezes, as pessoas colocam pedras, verdadeiras pedreiras, entre o momento de viver (o eterno presente) e a vida que idealizam em sonhos! Quando estão prestes a atingir aquilo a que aspiram, tomam outro desvio. E o fazem por terem medo de serem felizes, ou porque lhes falta a paixão de viver o sonho que vivem a idealizar. Tudo isto Simplício pensava, enquanto devorava como traça o pensamento profético de Zaratustra, que lhe ardia nas veias como um fogo vivo. 
 
O comportamento de Simplício no trabalho, ou no convívio com os colegas, era visto como estranho, próprio de pessoa que se sente inadequada, ou deslocada do ambiente e do círculo em que vive. Isto não obstante o esforço que fazia no sentido de fazer tudo igual ao que os colegas faziam, sendo uma peça anônima e invisível de uma engrenagem gigantesca, da qual não tinha compreensão nem domínio - e que, por sua vez, não estava nem aí para ele, e suas idéias contaminadas por abstratas lucubrações filosóficas, resquícios de embolorados humanismos de fundo ao mesmo tempo marxista e existencialista. 
 
Seus discursos sobre a prática social do humanismo integral, em todos os âmbitos da sociedade caíram por terra (ou mostraram ser apenas discursos de lunático) quando certo dia, em uma operação de rotina, ele discutiu com um cidadão, mero passante, passando a agredi-lo ferozmente, a poder de cassetete e cabo de revólver - um em cada mão, a desferir golpes violentos contra a vítima indefesa e inocente de qualquer culpa. Detido, foi difícil segurá-lo, já que espumava pela boca, em espasmos de loucura, talvez como Nietsche, seu ídolo, deu adeus à lucidez, entrando em loucura total, ao ver um homem espancar violentamente o cavalo atrelado a uma carroça.
        
"O guarda civil não quer/a roupa no quarador/". Sempre há um dia em que o guarda dá o grito de Nietsche. Em um dia ensolarado, bem na "hora espandongada do almoço", Simplício deu o seu grito primal, quem sabe se em situação-limite! Berro insano, seguido de um acesso de violência tamanha, de inesperada selvageria, que até hoje ressoa, entre seus colegas de trabalho, ou talvez dentro dele mesmo, que desde então de uma vez por todas endoidou - afastado do "poder de polícia", expropriado de sua arma e distintivo, hoje vive meio que no vazio de não saber para que veio ao mundo - teria vindo para tornar-se um burocrata do aparelho estatal, como veio a se tornar, ou, sendo corda no abismo, não conseguiu ultrapassar o abismo que separa o homem do Super-Homem? Ninguém poderia afirmar com autoridade... nem mesmo os psiquiatras que o tratam, precisando talvez eles próprios de um "sossega leão" ou de uma reforçada camisa de força...

 
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