revista bula
POR EM 08/10/2012 ÀS 08:07 PM

Mendigos enjaulados na China são mais obscenos do que nudez da arte

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Se depender dos ombudsmen, os jornais não publicarão mais fotografias históricas, daquelas que comovem os homens e sugerem que não se deve insistir na barbárie, embora esta seja, aparentemente, um componente permanente do desregramento do ser. Recen­temente, quando a “Folha de S. Paulo” publicou na primeira página foto do embaixador americano ferido (e morto) na Líbia, a ombudsman Suzana Singer fez uma série de reparos, o principal deles a respeito do tamanho da imagem. Por ser grande, teria se aproximado do “sensacionalismo”. Num tempo de insensibilidade, em que a violência banalizou-se, tornando-se nossa íntima de quase todos os dias, às vezes é preciso destacar mesmo as fotografias, como a do embaixador assassinado por terroristas, para chamar a atenção das pessoas, não necessariamente para comovê-las ou agredi-las, e sim para informá-las de modo mais preciso sobre o que ocorre no mundo. Para despertá-las da “narcotização” excessiva do noticiário.

Em 11 de julho deste ano, “O Globo” publicou a reportagem “Bastiões da censura em ação”. Ao mostrar a estátua de Davi-Apolo, a obra de arte de Michelangelo de cerca de 1530, a TV estadual da China cobriu sua genitália. Como os chineses pressionaram na rede social Weibo — um deles disse: “Sem tapa-sexo é arte, mas com tapa-sexo é pornô” —, a rede CCTV recuou e exibiu a arte do artista italiano em sua plenitude. O filme “Titanic”, ao ser exibido na China, teve uma cena mutilada. “A cena de nudez de Rose (Kate Winslet) quando ela é retratada por Jack (Leonardo DiCaprio) desaparece”, conta o jornal brasileiro.

Na última semama de setembro, Fabiano Mai­sonnave, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Pequim, publicou uma reportagem, “Cidade chinesa enjaula mendigos na rua”, indicando que os “adeptos” de Mao Tsé-tung, o comunista que matou cerca de 70 milhões de pessoas, perverteram os princípios humanistas. A decisão de enjaular as pessoas foi da Prefeitura de Xinjian. Um funcionário público, que se identificou como Wan, disse candidamente: “Tivemos de considerar ambos os lados: o dos peregrinos [que vão ao tempo Xanshou, que tem 1.700 anos) e o dos mendigos. Há alguns mendigos falsos que apenas querem arrancar dinheiro dos peregrinos”. Teoricamente, o governo estaria protegendo mendigos e peregrinos. No microblog Weibo, os chineses criticaram duramente a prefeitura, o que prova que, apesar da censura e da pressão política, a sociedade chinesa mantém-se ligeiramente crítica.

Quais imagens são de fato obscenas: a de Davi e seu pênis, a do embaixador americano ferido ou a dos mendigos enjaulados? A única realmente obscena é a dos mendigos dentro de jaulas. Aliás, a fotografia não é obscena, pois tão-somente mostra a degradação humana. Obsceno é o ato da prefeitura chinesa. Mas, se o assunto gerou debate na China, por que não incomodou tanto o mundo ocidental? A ombudsman Suzana Singer, que faz um trabalho relevante em defesa dos leitores e da ética jornalística, até agora não opinou sobre o assunto. Será que, como esperamos a barbárie de determinados povos, não sentimos a necessidade de condená-la? O historiador inglês Antony Beevor revelou, em livro recente, que, no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), militares japoneses começaram a comer prisioneiros. Tinham outros alimentos, mas, numa espécie de vingança planejada e sistemática, decidiram tratar os prisioneiros, entre eles americanos e australianos, como gado. É provável que a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, além de uma decisão estratégica para mostrar poder e sinalizar que uma nova potência se tornara hegemônica, também resultem de Pearl Harbor e do tratamento brutal que japoneses deram a prisioneiros Aliados, sobretudo americanos.

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