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POR EM 18/07/2012 ÀS 10:22 PM

Meio-dia em Paris

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Paris está suja, feia, malcuidada, cheia de moradores de rua e, mesmo, violenta. Mas, dito isso, devo confessar, adoro a cidade

Comprei o penúltimo filme lançado de Woody Allen, assim como um tocador de blu-ray de 79 euros na Fnac, pois também o blu-ray tem essa divisão de mercado idiota dos DVDs (embora um pouco diferente) e fui assistir em meu apartamento no Orion Haussman, num dos prédios da Galeria Lafayette, em frente a Ópera Garnier. "Apertamento", na verdade. É indo a Paris que dá saudade do espaço nos EUA. E então minha antipatia pelo filme aumentou.

Meia-noite em Paris não é só uma vergonhosa concessão de Woody a quem se presta a lhe dar dinheiro pra filmar. É sobretudo uma propaganda enganosa. Os primeiros intermináveis cinco minutos mostram uma Paris que não existe. Ela está suja, feia, malcuidada, cheia de moradores de rua (a maioria do leste europeu, aparentemente) e, mesmo, violenta. Presenciamos, durante o mês de junho, cenas de violência no metrô (principalmente nos RER, que são maiores), algumas das quais, nos envolvendo diretamente. Mês de junho, por sinal, que mais parecia abril ou maio, cinza, frio, chuvoso. Ou seja, o oposto das imagens douradas pelo filtro de Woody.

Dito isso, devo confessar, adoro a cidade. Não tanto pela língua, que tem o defeito das latinas, uma gramática desnecessariamente complicada. Nem acho que mereça a fama de mais bonita, prefiro o som do alemão, acredite se quiser. Mas reconheço que o alemão é até pior, menos prático ainda do que as latinas. Bom mesmo é o inglês, que não é bonito, mas é facílimo.

(Parênteses: é absolutamente inútil aprender outra língua que não o inglês, turisticamente falando. A França e a Europa se curvaram. Todos falam em Paris (mal, mas falam). Na Holanda, então, parece que é a língua nativa deles, pois falam e muito bem).

Também não pelo povo, extremamente mal-humorado e intolerante em Paris (o contrário no interior, justiça seja feita). Mas isso não é próprio de Paris, e, sim, de toda metrópole, nova-iorquinos e paulistanos que o digam (outra justiça seja feita: uma das pessoas mais educadas que conheço é paulistana da gema, minha cunhada Eliana). Então, pelo mesmo motivo que adoro ir a (mas jamais moraria em) Nova York e São Paulo, adoro Paris. A saber: teatros, museus de arte e gastronomia. Nessa ordem.

Teatros

O Odéon, que em junho tinha em cartaz “Senhorita Júlia”, de August Strindberg, com Juliette Binoche, é um grande  e belo teatro, com um grave “defeito”. O caminho da estação mais próxima (Odéon) até ele está recheado de livrarias. Deliciosas, suculentas livrarias de toda espécie, livros antigos mais raros, sebos comuns, livrarias normais e uma de livros médicos. Então, um trecho que levaria cinco minutos para percorrer, leva horas. Isso se você não parar definitivamente no caminho, numa cave que há no cruzamento entre a Racine e a Monsieur Le Prince, pra tomar um borgonha excelente por menos de 50 euros.

A propósito, despachar livros pelo correio é dolorosamente caro. Ou compre pouco e leve com você na mala, ou deixe pra comprar aqui no Brasil pela internet, pois o frete sai mais barato. Sim, eu sei, é quase impossível bolinar, namorar, bolinar, namorar e não casar com nenhum deles, naquelas livrarias. Mal comparando, é como ver mulheres lindas na vitrine se oferecendo para uma noite de loucuras (profissionais sindicalizadas, bem entendido) e recusar. Ok, eu fiz isso na Holanda. Não se pode ter tudo.

Voltando. O Marigny é simpático, mas pequeno e apertado, fica perto da Champs Elysées (estação mais próxima Champs Elysées-Clemenceau).  Lá vimos “Après tout, si ça marche”, uma adaptação de “Whatever Works”, o Pigmaleão de Woody Allen (na verdade Woody tem vários “Pigmaleão”), melhor filme dele dos últimos quinze anos.

Cometi o imperdoável pecado de não ver nada de Molière na Commedie Française, mas, em compensação, vimos Peer Gynt (Ibsen), com os atores dessa companhia, no Grand Palais. Quatro horas e meia de um teatro simplesmente impecável, do cenário (com plateia dos dois lados, todo mundo via tudo perfeitamente) aos figurinos e, claro, as interpretações. A música de Grieg nem fez falta. A propósito, também no Grand Palais vimos a “instalação” de Daniel Buren. Morônica, não valeu, “rasgamos” dez euros.

No Opéra Bastille (metrô Bastille) vimos “O Barbeiro de Sevilha” (Rossini), uma das óperas mais leves que conheço, e “Arabella” (Richard Strauss). Essa última eu não conhecia e gostei muito. Strauss é 8 ou 80, ou suas óperas são bem leves e bobinhas (Como “Arabella” e “O cavaleiro da rosa”) ou densas e pesadas (“Elektra, A mulher sem sombra”). Mas sempre brilhante. No caso de “Arabella”, era noite de première, portanto vários homens de smoking, o que me rendeu uma bronca de minha mulher, pois eu estava despojado demais. O Bastille é um teatro grande, bom, boa visibilidade geral, mas tem o velho e crônico problema francês  os banheiros (sempre poucos e pequenos).

No Opéra Garnier vimos o balé “La fille mal gardé”. Não sou muito de balé (nada a ver com machismo, não estou nem aí pra isso), prefiro gastar meu dinheiro com óperas e concertos, mas essa foi a única oportunidade de irmos ao Garnier e retirarmos nossa má impressão de 2010, quando fomos ver La Bayadère nele e deixamos pra comprar de última hora, pagamos caro e sentamos mal. É um belíssimo teatro, mas, ao contrário do Bastille, você tem de ficar esperto (e pagar mais caro) para sentar e ver melhor.

Por falar em concerto, vimos, no Théâthre des Champs-Elysées, logo em nossa primeira noite, o mais belo concerto para piano de todos os tempos, o No.5, de Beethoven, com a Orquestra Nacional da França. De quebra, uma peça de Dvórak que eu não conhecia e da qual gostei muito, a sinfonia No.7. Este também é um teatro do qual tínhamos lembrança ruim, mas que se desfez. Em 2010 fomos a ele ver “As bodas de Fígaro” (Mozart) e passamos um calor infernal em pleno maio. Além do fato de um meu irmão ter ficado bravo comigo porque não ouviu cantarem “Fígaro, Fígaro” hora nenhuma (rs). Se ele tivesse vindo dessa vez, eu o levaria ao “Barbeiro de Sevilha” pra ele poder ouvir vários “Fígaros, Fígaros”.

Vimos “Aída” (Verdi) ao ar livre, no Chateau de Vincennes, última parada do RER sem ter de pagar complementação com o cartão NAVIGO (cartão de metrô para o mês inteiro). Fiquei decepcionado. Não porque tenha tido performances ruins, mas porque eu imaginava que, por se tratar de uma ópera grandiosa, megalomaníaca por natureza e ser ao livre, teria vários efeitos diferentes. Pois não teve, poderia ter sido encenada num teatro normal, com a vantagem de que não morreríamos de frio. Além, é claro, do crônico problema francês  banheiros.

Fomos a dois shows de jazz, um em Paris, num café típico em Montmartre, e outro em Roterdã. O de Paris foi bem fraquinho, uma cantora espanhola que se esforçava num português carregadíssimo para despejar uma bossa nova sofrível. Ficou até pior quando ela começou: “Tristeza não tem fim...” e eu e minha esposa, automaticamente, “Felicidade sim...” Ela e todos no bar olharam pra nós, surpresos. E a coitada, daí pra frente, percebendo haver connaisseurs nativos de música brasileira, perdeu ainda mais o rebolado (e o tom, a afinação...). Quando penso que tivemos de pagar dez euros cada... Só valeu porque John Cleese, integrante do Monty Phyton, estava na plateia, ao nosso lado (minha esposa não fazia a mais remota ideia de quem era o cidadão, e não adiantou eu dar as referências). Mas o que vimos em Roterdã, esse sim, valeu a pena (e de graça!). Anotem o nome: Sherry Dyane, uma negra belíssima, charmosíssima (não se preocupem, minha esposa concorda, embora os superlativos sejam por minha conta) e com uma voz sem defeito (e um inglês perfeito). Compramos o CD, claro.

Museus

Engraçado como nosso gosto vai mudando. O Orsay era, de longe, meu preferido. Uma grande coleção de impressionistas, além de meu nabisítico, pós-impressionista, pré-moderno preferido, Bonnard. Cansei. Monet, Manet, Pissaro, Renoir e colegas, que antes me encantavam, me enjoam. Cansei também de Van Gogh, embora nem por isso tenha deixado de ir ao Van Gogh de Amsterdã, que tem os quadros de onde Kurosawa retirou um dos episódios de “Sonhos”. Nunca gostei muito do Louvre, embora eu seja um “Amis du Louvre”, com carteirinha e tudo, algo que faço sempre que fico mais tempo num lugar, pois vale a pena financeiramente. Gente demais, coisas interessantes de menos. Por isso, meu cantinho preferido em Paris passou a ser a Pinacoteca (metrô Madeleine). Pouca gente (às vezes completamente vazia!), comparativamente poucas obras, mas uma coleção própria maravilhosa. E sempre tem uma exposição paralela interessante. Desta vez era Modigliani e contemporâneos. Inclusive “um tal de” Soutine, bastante sombrio e do qual (por isso mesmo) gostei muito. Essa vai até setembro, caso alguém se interesse. Mas o melhor museu a que fui desta vez não estava em Paris. Foi em Roterdã, o Boijmans. Que museu maravilhoso! Uma absolutamente incrível coleção de holandeses (evidentemente), mas tem de tudo um pouco, inclusive com um espaço enorme para arte contemporânea. E o melhor: tranquilo. Sem aquela multidão de turistas carimbando o passaporte. O Centro Pompidou (metrô Châtelet Les Halles) é meu segundo preferido em Paris, tem uma ótima coleção de arte moderna e contemporânea, além de muitas atividades paralelas bacanas. E fica próximo de clubes de jazz e pubs (Au Duc des Lombards é ótimo, desde que você não se aventure a jantar ali. Aliás, todo clube de jazz é péssimo pra comida). Na Borgonha, em Beune, há o pequenino Dalileum, com obras de Dali, que, por sinal, também é um meu ex-preferido. Tem algumas esculturas interessantes. Além de rinocerontes, claro (vide “Meia-noite em Paris”).

Gastronomia

Tenho pouco a dizer. Não porque não goste. Mas porque, como sempre disse meu pai, o dinheiro é um só. E prefiro gastar o meu com teatro do que em restaurantes estrelados. Fui a apenas um, uma estrela Michelin. O Le Pergolese. Comi uma entrada inacreditável, uma sardinha prensada, recheada, gelada, servida com um sorbet de limão em cima. Completamente diferente, original e delicioso. O prato principal foi lagosta com nhoque, sendo que o nhoque é que vinha dentro da “carapaça” da lagosta e a carne dela de fora. Divino. Da sobremesa e do vinho não me lembro. Mas foram ótimos. Não exagerei no vinho, nunca faço isso. Gosto, mas não gosto de ser feito de bobo, e pagar mais do que 100 dólares por um é ser feito de bobo.

Fui ainda a um “Bib Gourmand”, que é a classificação do Michelin para os bons e pas trop cher, o Le Pre Cadet. Completamente escondido, se não fosse o guia, jamais chegaríamos até ele. Muito bom e nada caro. Os “Bib Gourmand” do Michelin são uma boa dica. Fora isso, cozinhamos nós mesmos em nosso “apertamento” (o Lafayette Gourmet era do lado, um paraíso para comilões), ou nos viramos em cafés desconhecidos mesmo, o que era bom e barato. Às vezes até com grandes surpresas. Nossa última refeição foi num marroquino indicado por minha sogra. Conheci e gostei do cuscuz. E aproveitei para ir ao cemitério Montparnasse, que era caminho e para o qual jamais iria como programa específico. Bati algumas fotos de túmulos (ou seja, turistei). E só.

Onde NÃO ir, o que NÃO fazer

Acredite em mim, não ouça o que a maioria diz. Eu estou certo e todos os outros estão errados (como de costume). NÃO vá a Versalhes. Roubada. Roubadaça. E, claro, com o problema crônico dos banheiros. Por motivo semelhante, NÃO vá a Giverny. Pra quê ver os jardins que Monet pintou e onde morou? Vá ver os quadros dele, caramba! Vá pro Orsay e pro Orangerie mais vezes, pronto. Gente demais, banheiros de menos. Trem lotado, ausência de taxi na estação, o que te obriga a usar o sistema de ônibus (lotados) e com horários fixos.

Passe longe da Torre Eiffel. Bem longe. Porque aí ela é bonita e você está livre da multidão e dos camelôs. Ela de perto é horrível. Quer ver Paris de cima? Peça um quarto alto em seu hotel.

NÃO vá à Sacre Coeur NEM à Notre Dame. Quer ver igrejas velhas? Vás às de Salvador, pronto. Escapa à compreensão mais rasa enfrentar fila pra ver igreja velha.

Em hipótese alguma, de jeito nenhum, nem que sua vida dependa disso, entre em fila de loja “chique”. A última coisa do mundo que isso é, é “ser chique”. Não há nada mais brega nesse mundinho medíocre do que ficar em fila de Louis Vuitton, Chanel, Louboutin, Abercrombie & Fitch. Veja se tem alguma parisiense ali? Não tem. Sabe por quê? Por que todas estão ocupadas rindo de você (ou vendendo pra você e pras japonesas). Se fizer MUITA questão, encontre uma dessas fora do circuito turistão, no entorno da Madeleine. Mas cuidado. Se você tiver mesmo a coragem pra comprar, saia da loja abraçada com sua bolsa de três mil euros sem olhar pros lados, pois esbarrará em mendigos o tempo todo e sua culpa a mortificará (hopefully).

Moulin Rouge é constrangedoramente patético. Crazy Horse menos um pouco. Ambos cometem o pecado incompreensível de se valer de músicas em inglês. Por quê???? Não dá pra entender. O charme que seria ver mulheres bonitas seminuas cantando em francês cai por terra vendo mulheres bonitas seminuas dublando inglês. E NUNCA, JAMAIS faça o programa “jantar no Sena seguido de Moulin Rouge”. O jantar é ruim, o vinho é ruim, o passeio é fraco e você chegará tarde e sentará mal. Aliás, essa é a vantagem do Crazy Horse  por ser menor, senta-se melhor. E as mulheres tiram mais a roupa.

P.S.

A Aliança Francesa de Goiânia é melhor do que a de Paris. Mais bem estruturada, melhor organizada, menos alunos por sala. A de Paris só é maior e, bem... fica em Paris.

Passeios de fim de semana a Champanhe e Borgonha compensam (vá de trem). Chateau D'Etoge, em Champanhe, e Olivier Leflaive, na Borgonha, são excelentes exemplos de boa gastronomia (o primeiro) e vinhos (o segundo). Pertinho do hotel de Olivier Leflaive, em Puligny Montrachet, há um pequeno restaurante, L'Estaminet, onde pude comer a melhor entrada de toda a viagem  “escargots en cassolete”. Um creme com os escargots fora do caramujo simplesmente inacreditável. Além, é claro, do Boeuf Bourguignon.

Casa Lavínia é uma cave que não preza muito pelo serviço, há chance de você passar raiva lá. Mas tem uma coisa que vale a pena a visita — um experimentador de vinhos. Você compra um cartão com crédito para usar e provar. Da primeira vez, cometi a besteira de provar normais. Desta vez comprei o crédito necessário para provar o mais caro. Por dois motivos: 1 Só assim pra beber vinho indecentemente caro. 2  Posso malhar vinho caro fazendo cara de íntimo dele, tendo bebido apenas poucos goles. Mastercard, não tem preço. Aliás, tem sim. 35 euros pelo cuspe de um Cheval Blanc (alô, alô, cinéfilos, esse vinho lembra que ótima cena de que ótimo filme?). E agora posso dizer com propriedade: NÃO vale MESMO o que pedem.

C'est tout! À bientôt!

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