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POR EM 19/10/2012 ÀS 03:49 PM

Médico é que nem sal: branco, barato e se encontra em qualquer esquina

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“A Medicina não é melhor nem pior que as outras profissões. Só é diferente porque cuida da vida.” Li esta frase num periódico do Conselho Federal de Medicina (ou da Associação Médica Brasileira, não tenho certeza...), que finalmente resume tudo o que eu penso a respeito desta espinhosa, incompreendida e, várias vezes, usurpada atividade profissional. O autor da mesma é um velho médico nordestino, Celso Matias de Almeida, 84 anos, ex-professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Aposentado há mais de 15 anos, o octogenário doutor não abandonou o eito e passou a atender, voluntariamente, a comunidade pobre de Natal, cidade onde reside. Dentre tantas estórias inspiradoras, o Vovô do Estetoscópio (Por que não? Se a imprensa joga seus holofotes sobre a Vovó do Crack, por que não enaltecer um Vovô do Estetoscópio? A sua maneira, cada qual interfere como pode no caos cotidiano...) conta que duas aventuras, em especial, marcaram-no visceralmente.

Na primeira delas, quando ainda era solteiro, foi retirado às pressas de uma Festa de São João em Currais Novos — RN para acudir, montado no lombo de um burro, uma mulher que paria num sítio em local remoto do agreste. O parto melindroso foi conduzido à luz de velas e, como a própria chama, a campesina deu a luz a uma criança saudável. “Deus ajuda muito os médicos do interior”, ele comenta, a transpirar humildade.

De outra feita, Doutor Celso precisou ser carregado, não por um burro, mas, nas costas de um agricultor, para atravessar um rio (aprendeu a curar gente, mas não aprendeu a nadar) e atender a sua esposa que sangrava aos borbotões, arrebatada por um abortamento natural. A pobre escapuliu e a estória também.

“Tá bom... Só que este tipo de médico não existe mais, meu chapa...” — alguém haverá de retrucar, transbordando desdém, desconfiança e alguma razão. Porque o que prevalece hoje no âmago da sociedade, nas rodinhas de bate-papo, nas manchetes dos jornais e da TV, é o escuro de nós, as sombras, os meandros, o podre que é vendável, o underground colocado no topo para impressionar, escandalizar, expor as mazelas numa espécie de auto-bullying.

Vêm logo à mente da maioria o famigerado “Erro Médico” (que de “erro” tem muito pouco, considerando que nem sempre na vida as coisas vão bem. Alguns chamam “erro”; outros, “fatalidade”; outros ainda, “vontade de Deus”. A caravana segue, apesar dos latidos...), o atendimento precário nos serviços de saúde público e privado (privadas merecem convênios de merda), o descaso dos doutores, a suposta arrogância dos homens de branco, a sua “frieza” ao lidar com os doentes.

Há mesmo que se ter muita “frieza” para não piscar, para não tremer os dedos na dissecção de um tumor entranhado na gelatina cerebral, por exemplo, ou da retirada de uma bala perdida alojada caprichosamente (miseravelmente, eu diria) na coluna vertebral de um paciente. É. Esses médicos são mesmo “uma gente muito fria”...

Aliás, falando em perdição, em matéria de balas perdidas, ganhei o meu dia ao reencontrar um amigo médico que há anos não via. Ele contou que se prepara para partir com a esposa — também médica, a qual conheceu em meados dos anos 80, ao retirar da sua perna uma bala calibre 22 — para uma missão dos “Medicins Sans Frontiers” num pequeno e miserável país africano.

Referindo-se à companheira, ele brinca, diz que foi amor à primeira vista. “A bala saiu da perna e o amor entrou no coração...” — ele comenta, apesar das recomendações em contrário do rígido Código de Ética Médica. Mas, como diz o compositor João Bosco: o amor, quando acontece, a gente logo esquece que sofreu um dia.

No mês em que se comemora o Dia do Médico (18 de outubro), as várias entidades nacionais representativas da categoria preparam, ao invés de festas pomposas regadas a uísque (Por que muita gente ainda pensa que todo médico é rico? Médico tem mercado de trabalho. São coisas diferentes...), manifestações variadas para alertar a sociedade do sofrível momento por que passam os doutores que atendem aos planos de saúde.

Haverá ações em todos os Estados brasileiros, desde passeatas até a paralisação temporária do atendimento aos convênios picaretas e mequetrefes que pagam aos profissionais (e deixam também de pagar, ao seu bel prazer, e sem qualquer justificativa), por exemplo, por determinadas cirurgias, menos do que se gastaria para depilar as virilhas num salão de beleza, ou “fazer mão e pé”, como dizem as dondocas (Benditas sejam nossas dondocas, pelo amor de Deus! Fiz a analogia tão somente para ilustrar a gravidade da situação. Por favor, queridas, não parem de depilar as suas virilhas. Eu suplico!).

Tem uma piada antiga e realmente muito hilária, na qual um sujeito solicita ao médico que acompanhe o coito dele com a namorada dentro do consultório. No final da piada, o “paciente” justifica o estranho pedido dizendo que a consulta quem paga é o convênio, fica mais barato que duas horas num motel, dá pra abater a despesa no Imposto de Renda e, ainda por cima, pode-se contar com a supervisão de um profissional médico para qualquer eventualidade. Tragicômico.

Mas a junção do trágico e do comigo não é de agora. Por exemplo, o médico norte-americano Patch Adams introduziu o humor e o humanismo no âmago do exercício da medicina ainda nos anos 60, escandalizando a sociedade e os próprios colegas à época, por semear tanto amor e amizade nos cuidados aos pacientes. Até hoje o médico e sua equipe atuam em causas humanitárias no planeta, inspirando outros jovens profissionais a fazerem o mesmo.

Muitos dos leitores (heróis que toleraram a leitura até este ponto) estarão se perguntando por que, afinal de contas, eu escrevo um texto em desagravo aos médicos, uma categoria de homens e mulheres aparentemente prepotentes, assoberbados, arrogantes, elitizados e, claro, ricos pra caramba (não dá pra esquecer este “detalhe”).

Na verdade, eu pari esta crônica a fórceps (notem, pois, que não foi nada fácil para mim) a fim de render uma justa e sincera homenagem aos “médicos de hoje” que trabalham com o mesmo zelo humanista dos “médicos das antigas”, gente como este tal Doutor Celso Matias, que enfrentou o lombo de um burro e o medo da água pra fazer o bem, dar suporte, aliviar sofrimento, estorvar ofícios da morte.

Declaro, portanto, todo o meu amor, admiração e respeito àqueles que são doutores e doutoras por vocação. Somente a estes: um brinde à dignidade! Aos demais profissionais da medicina que se encarapuçam no famigerado título desta crônica —aliás, uma frase corriqueira bastante utilizada por gestores públicos incompetentes e administradores de planos de saúde mercantilistas —, o meu mais silencioso desprezo.

Ao contrário do que se depreende do Código de Defesa do Consumidor, que inclui no seu rol a relação médico-paciente, medicina não é mercadoria. A saúde das pessoas não é sal. Os médicos, muito menos.

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