revista bula
POR EM 22/03/2012 ÀS 07:51 PM

Kony 2012: o nocivo e inconsequente ativismo de sofá

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Quem não gostaria de fazer parte de uma iniciativa mundial (quase) sem sair do sofá para colocar na cadeia um dos maiores genocidas do século XXI?

Pois é isto que milhões de pessoas estão fazendo ao ajudar na viralização do vídeo da ONG Invisible Children que busca dar fama ao sanguinário líder do Exército de Resistência do Senhor (Lord's Resistance Army) de Uganda, Joseph Kony.

A campanha intitulada "Kony 2012" agregou milhares de pessoas que, sem sair do seu lugar, buscam pressionar o governo dos EUA a enviar tropas para capturar ou ao menos auxiliar na prisão de Kony.

 A ONG basicamente nasce da iniciativa de um rapaz que, abismado e revoltado com a violência em Uganda perpetrada por Joseph Kony e pelo LRA, resolve agir.

O problema do chamado "slacktivism", ou "militância de sofá" parece o mais óbvio. Cria a ideia de que não só para este caso, mas para qualquer outro, basta assinar petições e gritar nas redes sociais que é possível mudar o mundo. De fato, em alguns casos a militância on-line pode resolver problemas, mas questões de geopolítica mundial precisam de muito mais do que um esforço igual ao que muitos fazem para reclamar de uma empresa que presta um serviço ruim.

Não basta sentar, apertar um botão e esperar que o mundo mude. Mas acredito que essa discussão seja a menos importante de todas, especialmente quando nos deparamos com um problema que não é isolado e cuja solução não é simples.

 Não vou me alongar no debate sobre o vídeo em si, que de fato é muito bem feito, nem sobre a campanha muito bem feita e a mobilização alcançada, que é realmente digna de nota, mas apontar aquilo que considero como extremamente negativo, afinal, o alcance do vídeo e seu sucesso falam por si dos pontos positivos.

O problema, no caso, não é sequer o líder guerrilheiro Kony, mas o fundamentalismo religioso militante — o LRA é um grupo cristão fanático que agrega elementos da cultura Acholi de Uganda e também elementos de um misticismo completamente doente  que não será parado apenas com a prisão ou mesmo a morte de Kony. Atacar um sintoma não resolve o problema, que se espalha por toda a África.

Falando em termos de estratégia, o mais provável é que, sem a liderança de Kony, uma parte significativa de seu efetivo se divida em pequenos grupos até mais radicais, ou mesmo que um novo líder consiga emergir e unificar algumas das facções que possam surgir. O fato é que a mera derrota militar de um líder não significa a desmobilização imediata ou fácil de todo um grupo, especialmente quando se trata de mais do que um simples grupo guerrilheiro, mas de um grupo fanático religioso que acredita fazer o trabalho de "Deus".

O discurso da ONG é problemático desde o princípio, ao pregar um pacifismo armado, ou seja, prega a prisão (e não a morte, o mais provável) de um líder guerrilheiro, mas para isso defende o uso de um exército armado e bem treinado que, sem dúvida, deixarão uma marca de sangue até a captura (wishful thinking) de Kony.

A questão vai além. Trata-se de uma ingenuidade tremenda achar que o exército dos EUA seria mobilizado apenas para dar uma pequena ajuda ao exército de Uganda sem absolutamente nada em troca, apenas pelo prazer de ajudar. 

Vejam bem, quem, de forma sensata, iria querer mandar marginais uniformizados, capazes de cometer os piores atos de genocídio, para resolver um problema em Uganda? E não os chamo de marginais à toa, basta ver suas realizações no Iraque, Afeganistão e em tantos outros países pelo mundo ao longo da história. Crimes contra a humanidade, crimes de guerra, abusos inúmeros... Podemos citar a prisão de Guantánamo, Abu Ghraib, My Lai e mais recentemente o massacre de dezenas de civis em uma vila no Afeganistão apenas como tira-gosto.

Não acredito que o exército de Uganda seja capaz  ou mesmo queira  resolver o problema, mas acredito que seja muito mais interessante  além de viável e politicamente mais simples  o envio de tropas da União Africana ou mesmo tropas de paz da ONU com mandato para agir (e não para servirem de palhaços como no Genocídio de Ruanda, país vizinho, anos atrás).

Me parece algo da típica ingenuidade de muitos estadunidenses, que acreditam piamente que seu exército e seu país são verdadeiros bastiões da liberdade e que servem como pacificadores no mundo. Nada poderia ser mais mentiroso. Algo como o famoso "fardo do homem branco" que impele os EUA a agirem como polícia do mundo e, na visão inocente de muitos de seus cidadãos, como pacificadores por um mundo melhor.

Claro, ingenuidade e inocência é apenas uma visão. Há quem os acuse diretamente de serem financiados pelos EUA e por organizações de fachada para ajudar na propaganda estadunidense pelo mundo. Mas voltarei a esta questão no final do texto.

O exército dos EUA não iria de graça ou apenas porque ficou sensibilizado com a pressão pública  boa parte da pressão vindo também de fora dos EUA, logo, de pouca ou nenhuma relevância para os "policy makers" de Washington  não atrai votos e não altera a opinião pública interna. Mas sem dúvida iriam querer fincar as bases em uma região geopoliticamente de grande importância, a meio caminho entre o rico e conturbado Congo, o Chifre da África (onde fica a Somália), o recém-criado Sudão do Sul e todas as riquezas minerais e naturais que vem sendo exploradas na região.

Além disso, seria uma excelente maneira de neutralizar ou ao menos buscar diminuir o crescente poder da China na região, que vem realizando acordos financeiros vantajosos, financiando ela própria guerrilhas e governos genocidas e solapando a relevância dos EUA por lá.

Para os EUA seria um jogo de ganha-ganha, pois o envio de tropas seria realizado não por uma suposta vontade política-militar de Washington, mas pela pressão do povo e pela ânsia de paz e liberdade. Logo, a eventual morte de soldados e dificuldades não poderia ser diretamente descontada de Obama e cia.

Não nos esqueçamos, aliás, que os EUA precisam sempre de um inimigo externo. Tivemos Saddam, Bin Laden (com uma invasão de país pra cada um deles) e hoje há o Irã/Ahmadinejad... E agora Kony, como um "brinde", sem praticamente nenhum "contra".

Mas para além dos EUA, é preciso analisar rapidamente também um aspecto do vídeo da Invisible Children, que é a quase completa ausência de imagens das crianças de Uganda. Nada além de flashes rápidos logo cortados para ampliar o poder da campanha midiática realizada por eles. Uma auto louvação de seu poder de mobilização que, no fim, pouco toca no real problema. Não se aprofunda e passa um quadro raso da situação.

E o quadro é extremamente raso.

Em primeiro lugar, o exército de Uganda tem conseguido avançar contra o LRA. Os países vizinhos também afetados pelo conflito, como a República Centro-Africana também tem avançado contra Kony com algum sucesso. Ou seja, se vê um esforço imenso contra uma figura que já está sendo atacada e vem sendo enfraquecida pelos esforços locais. 

Já disse antes e repito, o acréscimo de forças da União Africana ou mesmo da ONU com permissão para agir seria muito mais proveitoso em longo prazo do que a intervenção dos EUA. Tanto politicamente, quanto em termos práticos.

Aliás, ainda falando sobre a pequena presença de ugandenses  vítimas  no vídeo, vale lembrar que ninguém perguntou à população o que eles achavam da campanha e se estavam de acordo. Parte de cima para baixo. De cima - do "ocidente" - para baixo, para a "pobre e coitada" África, como se os Africanos tivessem o dever de aceitar calados qualquer ajuda que lhes é imposta.

Outro ponto problemático é a "eleição" de Kony como inimigo número 1 do mundo à custa de outros potenciais alvos  a centralização em apenas um alvo, na África, ampliando o "fardo do homem branco"  e em detrimento do, pasmem, próprio presidente de Uganda!

Yoweri Musaveni foi ele próprio um guerrilheiro que usou e abusou de crianças. Mas disso ninguém  muito menos a Invisible Children  fala.

Mas deixando um pouco a geopolítica de lado, analisemos brevemente a própria ONG em questão. A Invisible Children pode realmente ser considerada uma organização honesta, preocupada  ainda que inocente ou, como alguns a chamam, formada por "idiotas úteis"?

A Invisible Children é financiada pelo Discovery Institute, uma organização criacionista, fundamentalista cristã e homofóbica que, em termos ideológicos, encontra paralelos exatamente no LRA! A ONG ainda anda junto de outras organizações homofóbicas como a The Call, cujo líder apoiou a lei que condena com a morte a homossexualidade em Uganda ou ainda a Caster Family Foundation que fez pesada campanha contra o casamento gay na Califórnia.

É claro que não podemos decretar a falência de um projeto  ou de uma ONG  apenas por um de seus financiadores, mas podemos ter uma ideia de quão comprometidos realmente são com uma causa quando aceitam qualquer um como aliado. Aliás, aí entra também Rush Limbagh, uma das "personalidades" escolhidas pela organização para ser um dos rostos da campanha, um conhecido fanático racista de extremíssima direita.

Acho lindo que alguns queiram colocar as diferenças ideológicas acima de uma causa, mas para tudo há limite. E Limbaugh não é o único exemplo utilizável, talvez apenas o mais fácil.

A ideia de colocar a causa acima de ideologias pode esbarrar em obviedades, como a de um fanático participando de uma campanha contra outro fanático via uma organização financiada por fanáticos.

Por fim, é preciso reconhecer a mensagem que a Invisible Children traz, mas manter os pés atrás quanto às soluções propostas e buscar enxergar além da cauda longa e da viralização de um vídeo que trata de um assunto muito mais sério do que ativistas de sofá estão acostumados a lidar. 
 

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