revista bula
POR EM 06/12/2012 ÀS 07:47 PM

Jorge Aragão, o dono do anel

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Faz semanas que eu não paro de pensar nisso. Não entrarei no mérito da qualidade musical, ou da questão de chamarem "de raiz" algo que não chega nem a caule do Samba. Mas o fato é que a música em questão é daquelas que todo mundo canta junto quando toca.

Mas uma dúvida me assola. Quando o barraco desabou, e o barco se perdeu porque o Jorge achou uma anel que tinha gravado "Só você e eu", a dor veio por ela ter deixado o anel que ele deu ou, ele achou um anel dado por outro cara? Contrariando o senso comum, eu acho que o "Eu" do anel não era o Jorge.

Pensem comigo: seria bastante mais desabador de barraco achar um anel gravado, que não tenha sido ele quem deu para a garota.

Numa leitura inicial a letra indica que ele foi traído, e que que o anel era um presente dele, que foi deixado para trás. Mas, vamos pensar um pouco amiguinhos.

É um homem que está sofrendo muito. Mas que está cantando para desabafar. Não é uma conversa com a moça que está acontecendo, visto que ele diz de cara que não quer falar, que vai telefonar quando puder porque ainda está sentindo muita dor. Quem nem shows tem feito, visto que a saudade não deixa, mas que assim que conseguir vai cantar sobre a dor de amor e coisa e tal.

Aí vem um momento bacana do Jorge, de gente que eu admito ser bastante mais evoluída do que eu sou quando termino uma relação. Tudo que eu busco é esquecer que a pessoa existe. Gostaria inclusive que ela se mudasse de país. Para muito, muito longe. Terras Médias se possível.

Mas não o Jorge. Jorge é uma cara do samba, um cara que entende das dores de amor e que canta. Ele deseja o melhor para a moçoila, admitindo que já não eram felizes e que era melhor ela ir embora mesmo. Coisa triste, mas quem nunca ficou tempo demais em uma relação?

Jorge quer que ela se sinta inteira, e não pela metade. Bacana da sua parte Jorge.

Mas essa bacanice tem um preço. Jorge sente dificuldade para dormir e tal, numa crise de ansiedade passional por dentro. E o Jorge quer fugir para outro lugar onde ele não pense no que aconteceu. Ele já não consegue controlar os sentimentos e os pensamentos. Já não lhe pertencem mais.

Aí então vem a parte que me mata:

Falando em coisas que não o pertencem, ele menciona que encontrou o anel que ela esqueceu, onde está gravado "Só você e eu".

Quer dizer, momentos antes ele falava de coisas que não lhe pertenciam. Logo, o anel não era dele. Era de outra pessoa, e ela não deixou de propósito, o Jorge diz que ela esqueceu.

Minha versão: um relacionamento que se arrastou por tempo demais, e que deixou a moça super tristonha e infeliz. Ela teve um caso, mas acabou muito antes da saída dela de casa. E foi um final melancólico e triste, como tem que ser quando um grande amor acaba. Jorge ficou lá sozinho, na casa que era dos dois, procurando explicação e achou o tal do anel.

Foi aí que ele descobriu que o caso aconteceu.
Aí foi que o barraco desabou e o barco se perdeu.
Pôxa vida, gente. No anel estava gravado "Só você e eu".
Coitado do Jorge. Corno e o último a saber.

Para quem quiser pensar, e concluir outra coisa, segue a letra:

Logo, logo, assim que puder, vou telefonar
Por enquanto tá doendo
E quando a saudade, quiser me deixar cantar
Vão saber que andei sofrendo
E agora longe de mim, você possa enfim
Ter felicidade
Nem que faça um tempo ruim, não se sinta assim
Só pela metade
Ontem demorei pra dormir, tava assim, sei lá,
Meio passional por dentro
Se eu tivesse o dom de fugir pra qualquer lugar,
Ia feito um pé de vento
Sem pensar no que aconteceu, nada, nada é meu,
Nem o pensamento
Por falar em nada que é meu,
Encontrei o anel que você esqueceu
Aí foi que o barraco desabou,
Nessa que meu barco se perdeu,
Nele está gravado só você e eu.

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