revista bula
POR EM 18/01/2013 ÀS 08:03 PM

Internet: aproximando quem está longe, distanciando quem está perto

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Antes que alguém me incomode com as suas críticas comezinhas, adianto que a pérola que dá título a esta crônica não é da minha autoria (os fominhas da internet já a conhecem muito bem). Por sinal, eu a li num e-mail enviado por um amigo próximo que, ironicamente, se encontra deveras longe: o sujeito é pesquisador e caminha pelo trajeto de Santiago de Compostela, municiado com o peculiar espírito da pesquisa e da descrença na raça humana, imbuído em descobrir um ou mais sentidos que tornem o viver mais palatável. Ele já teve muito dinheiro, muita solidão, muito desamor e um câncer de sinuca de bico (aparentemente, sem saída). Que eu saiba, até o momento, moeu dois pares de tênis pelos caminhos tortuosos e pedregosos das suas dúvidas existenciais.

Em termos de convivência social, talvez estejamos capengando pelo período mais chato da História da Humanidade. Um ermitão do século 18 conversando com um alce velho numa montanha gelada talvez fosse um exemplo de comunicação mais promissor entre dois seres vivos, do que o que temos hoje. O monturo de informações e desinformações a invadir as telas dos computadores e dos smartphones é tão avassalador quanto frívolo. Mais espertos que os telefones são os índios comancheiros que abandonaram os sinais de fumaça e hoje se comunicam com a utilização apenas das bocas e das gotículas de cuspe.

Em tempos de tempestades de blogs, em que cada um se julga a cereja do bolo da internet, no que tange à notoriedade sobra irrelevância. Em matéria de engajamento neste efeito manada digital, sinto-me meio leproso, embora dê as minhas cutucadas no teclado. Os meus pares simplesmente não concebem como é que até hoje eu não tenha aderido ao feice ou a outra pujante rede social da internet.

Companheiros desta ignóbil caminhada terrena: mal tenho tempo de ler as duplicatas e multas de trânsito que chegam aos borbotões pelos correios, quem dirá, saber das iniciativas auto-promocionais de sujeitos que alardeiam suas filantropias pilantras. Também não me interessa saber que o perfil de fulana mudou porque está de namorado novo (certamente contrairá também um novo tipo de herpes vírus); ou se cicrano perdeu mais cinco quilos desde que foi submetido a uma cirurgia bariátrica. Podem procurar: há tanta gordura entremeada no cérebro dessa gente que haja lipoaspiração para se dar um jeito.

Outro dia fui jantar na praça de alimentação de um shopping (confesso que, depois de devorar pratadas de doce de leite com figo, este é um dos meus piores defeitos) e, enquanto aguardava que uma corneta e um display luminoso anunciassem que o meu pedido já se encontrava à disposição no balcão, eu percorri com os olhos o salão para verificar em quantas mesas havia pessoas acessando a internet pelo telefone celular. Pasmem, queridos dementes associados: em todas as mesas havia ao menos uma pessoa se entretendo com o vício do diálogo quilométrico silencioso. Em várias delas, todos os ocupantes se ocupavam em ocupar as redes sociais com aquele comportamento, a meu ver, extremamente ocioso e anti-social.

“O anti-social aqui é você”, reclamam amigos e familiares. Aliás, tenho perdido coquetéis, festas, gratificações e velórios pela falta de engajamento às tribos virtuais. Ao que parece, poucos se dispõem a gastar papel e saliva para formalizar convites. Um simples telefonema já bastava para anunciar um batizado, uma morte. Aliás, faço aqui um adendo dos mais irrelevantes e fora do contexto: às vezes, se diverte mais num cemitério do que num salão do country clube. Não riam. Eu falo sério.

Certa vez compareci a um funeral tão animado que quase se esqueceram de enterrar o velho comendador. Vocês sabem, às vezes, a morte conserta muita coisa: livra o próprio falecido das obsoletas e decrépitas relações com a parentalha, paga as dívidas dos herdeiros, resgata orgasmos aos casais à beira do divórcio. Mais do que crer no Altíssimo, é fundamental acreditar que o dinheiro não somente traz felicidade, como une as pessoas. Já perceberam o quanto os ricos estão sempre risonhos e bem entrosados nos seus banquetes regados a uísques 12 anos e adultérios de todas as idades?

Outro exemplo de exagero digital, da matança desenfreada do tempo: enquanto não atingia o orgasmo, a frígida decana postava às amigas fotos inéditas da última cirurgia plástica que fizera com o doutor maníaco da moto-serra. Neste ínterim, o esposo ejaculava treponemas na sua vagina semi-nova, recauchutada, ao passo que o pessoal curtia as fotos, escrevia mimos, tornando o teto daquela suíte menos branco que o habitual, e a sua teta operada mais empinada que a original. Estou sendo ácido demais? Vai ser cruel e amargo assim lá no Haiti? É por aí, caras pálidas. Reajam! Larguem os seus ai-fones e caiam dentro!

Tem gente que perdeu, não só a virgindade, mas a compostura e alguns gramas de massa cinzenta, por conta dos excessos e desmandos da comunicação virtual. Nunca antes na história das cadeirinhas colocadas sobre as calçadas defronte aos portões das cidadezinhas interioranas, fez-se tanta fofoca. Mais que uma esposa infiel, a difamação come solta na internet. Efeito privada de rodoviária: fala-se muita titica. Especula-se à vontade. Mente-se à beça. Caiu na rede, deve ser verdade. Aos olhos dos incautos, dos imbecis e dos profanos, a internet praticamente tornou-se, se não uma Penthouse ou uma Hustler, uma verdadeira bíblia.

Ajoelhou, tem que rezar? Não. Aqui não, cabritinhos. Aqui vocês berram. Não vou me adaptar. Falo com a autoridade de quem demorou 12 anos para fumar um cigarro, 16 para ficar bêbado, 18 para perder a virgindade, e 05 para trocar uma televisão de tubo de 29 polegadas por uma de tela plana modelo LED. Já traçaram o meu perfil? Então ponham aí no feice de vocês, já que eu não possuo nenhum.

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