revista bula
POR EM 25/08/2010 ÀS 09:37 AM

Humorismo brasileiro é uma piada

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Rir. Rir pra não chorar. Numa era em que a violência, o estresse e a corrida tresloucada contra o tempo transformam a vida urbana num inferno, por que não sucumbir à tentação e escancarar um sorriso?

Sorrir. Dar trégua ao coração e à bile. É possível que o riso seja bem melhor que sessões de psicoterapia. Afinal, conhecer a si mesmo, enxergar os defeitos não têm graça nenhuma. Vou me ater somente ao humorismo televisivo. Quanto ao teatro, num país com dimensões continentais como o Brasil, certamente há bons atores encenando textos de humor refinado, ao ponto de extasiar a plateia provocando cólicas no baço e urgência urinária.

Porém, o que me parece evidente é que existe uma onda, uma epidemia de “stand up comedy” (tradução plausível: comédia caça-níquel?!) pipocando em território nacional. Apostando no improviso, jovens atores lotam auditórios com platéias também muito jovens, o que não deixa de ser um mérito, desde que o conteúdo tenha suporte. Bem, na pior das hipóteses, ensina-se à juventude o endereço do teatro. Quanto ao humor na internet, assumidamente, sou ignorante. Não acho tempo nem pra manter atualizado o meu correio eletrônico... É surpreendente como milhares de internautas dedicam-se a vasculhar “orkuts e twiters”. Seguir e ser seguido nas trilhas virtuais... Quem sabe, ao abdicar dos livros impressos, do contato com as pessoas e do sexo (uma das mais interessantes diversões que a vida animal pode proporcionar), sobra tempo suficiente para se embrenhar na rede. Já pensaram se toda esta gente comprasse e lesse livros?! Seria a salvação da lavoura para os escritores brasileiros... Utopia. Há que se baratear bastante os preços para permitir o consumo.

Humorismo de rádio, eu nem sei se existe mais. De soslaio, aqui na minha região, verifico que há várias equipes de radialistas (ou seriam oportunistas?) conversando livremente aos microfones, falando tudo o que vem à cachola. Ao menos para as trupes que fazem tais programas, as conversas improvisadas parecem mesmo muito hilárias, pois a algazarra das próprias gargalhadas torna a compreensão do áudio um desafio. Rir de si próprio — como diria o poeta — é puro desespero?!

Portanto, voltando ao assunto inicial, escreverei a respeito do humor que se vê hoje em dia na TV. Apesar de, a cada dia, usar menos este maldito eletrodoméstico (há controvérsias...), fica fácil constatar que o mau gosto e a mesmice vigoram na maioria dos canais.

Na TV aberta, a situação parece um pouco mais grave, visto que reprises recorrentes de humorísticos nacionais e enlatados preenchem a programação como se fossem tampões improvisados, um “band-aid” para mentes cretinas, uma operação tapa-buracos nas tardes ociosas. São programas antigos, repetidos à exaustão, que ninguém suporta mais. É intrigante: por que não preenchem a grade com bons filmes? Projetos escusos de “idiotização” dos telespectadores?

Não tenho TV por assinatura. Então, só me deparo com os canais fechados quando estou hospedado em hotéis bacanas ou visitando amigos abonados (também os tenho, ora bolas!). São dezenas de canais pelos quais se vai “pulando” em busca da satisfação completa. Pra que tantos canais assim, se a gente custa a encontrar algum que presta? 

Campeando com o controle remoto, o telespectador se depara com programas “humorísticos” que fazem um humor relativo, duvidoso. É usual o artifício de incluir no cenário mulheres jovens com corpos suculentos, cultivados em infindáveis horas de malhação nas academias de ginástica e recauchutagem nas clínicas de estética. O “rebolation” não tem graça nenhuma, mas deve aumentar a audiência, a punheta e o faturamento em publicidade.

Atualmente, a moda são os programas de “humor” nos quais entrevistadores “engraçados” invadem os mais variados eventos sociais para atormentar políticos, artistas e outras criaturas “VIP” (Very Insignificant People), despejando perguntas de gosto duvidoso, quase sempre difamadoras e de cunho sexual.

Seria inteligente, se não fosse tão grosseiro. Imunizados pelas câmeras, os entrevistadores desconcertam suas vítimas com questionamentos agressivos, toscos, de significado dúbio. Então, preconceitos de toda ordem vêm à tona. Hoje em dia, nas escolas, os educadores denominam esta prática como “bulling”. Na TV, ainda não sei que nome deram. Talvez seja “piada”.

Na telinha, a escrotidão do vale-tudo é ilimitada. Certo dia, instigado pelo meu filho adolescente (ai, moleque!), sintonizamos um programa em que “comediantes” comeram saliva de cachorro e foram aprisionados num recipiente repleto de baratas, em supostos desafios que fariam o público sorrir à beça.

Será que as agruras da vida fizeram de mim um adulto tão amargo que não acha engraçado uma mulher com o corpanzil seminu a carregar pererecas mortas com a boca, ou um “repórter” humilhar o entrevistado só porque ele é anão? Será que o humorismo brasileiro se transformou mesmo numa piada de mau gosto?!

Posso até estar equivocado, o que até me deixaria mais aliviado. Porque, na minha infância, antes de começar a pagar impostos e cair na roda viva, eu me divertia com Mazzaropi, Costinha, Os Três Patetas, Jerry Lewis, O Gordo e o Magro, e outros heróis do humor legítimo, primário, essencial. Um tempo em que a ingenuidade imperava e se ria sem maldade nenhuma. Fiquei velho?!

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