revista bula
POR EM 17/05/2008 ÀS 12:42 PM

Garrafadas, arruda e alecrim

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Muito antes daquele filme“Forrest Gunp” com o brilhante ator Tom Hanks já se sabia que o mundo é, de fato, dos imbecis. Ocupam a terra de cabo a rabo.
 
São sempre meio bonzinhos, dissimulados, cordatos, humildes, familiares, agradam às maiorias pela sua imensa capacidade de aceitação, concordância e sorriso idiota congelado no rosto. Mas também podem ser arrogantes e cruéis quando querem ou quando se sentem fortes, amparados por seus conhecimentos de leis, de matérias outras que regem comunidades ou quando têm dinheiro ou palanque. Imbecis são os seres mais ecléticos do planeta e podem ser encontrados desde as maiores cidades do mundo como Nova York ou México ou as menores passando por praias paradisíacas, escritórios bem sucedidos, segundos cadernos de todos os jornais que tratam de cultura e amenidades, literatura, música, teatro, cinema e coisas afins ou nas mesas dos bares tomando uma inocente cerveja. 
 
Afinal, é bom repetir, imbecis são sempre as maiorias e têm perfeita convicção de que o mundo é deles já que estão em todos os paises e em todas as eras do planeta. 
 
Sempre provocaram muitos estragos na humanidade e livros e livros foram escritos para contar feitos históricos causados por essas formigas infiltradas no globo terrestre. 
 
Seus raios de ação vão desde o cotidiano, passando pelas guerras, os debates do que chamam grandes temas até as maiores inutilidades que, tratadas por eles, parecem coisas relevantes para a vida, mas não passam do que seu nome sugere: inutilidades. 
 
Sim, imbecis adoram inutilidades como debates intermináveis sobre quem é melhor que quem na literatura ou nos esportes ou conferências com nomes pomposos do tipo as “Influências da arquitetura colonial holandesa sobre os mocambos do Recife” ou “Como se tornar um grande homem em dez lições edificantes enquanto saboreia pão com maionese” ou ainda “Don Quixote, o sexo e as utopias modernas”, etc...
 
Essas conferências que estão muito na moda atualmente estão repletas de imbecis que pagam alto preço pra se sentirem inseridos no mundo e discípulos do espertinho conferencista da hora. Leia nos jornais os temas oferecidos, são infinitos e, via de regra, atrai imbecis em massa, têm sobre eles um poder incontestável. 
 
Imbecis pensam ser ilustrados ou correm atrás de ilustrações para exibir nas rodas. Olhe pro lado e vai identificar quase todos eles. Podem estar incorporados àquela secretariazinha que fala gerúndico, a linguagem da moda até o chefe dela que é figura notável nas homenagens das colunas sociais eletrônicas. Estão muito bem representados nos programas de amenidades da TV cultural de Goiás; pode ser aquele marido que cumpre suas funções conjugais todas as quartas e sábados para manter vivo seu casamento e seguir os preceitos do “até que a morte nos separe” que prometeram numa igreja ou num cartório. Ouço dizer que transam muito mal, mas isso não se pode provar.
 
Um imbecil também costuma aparecer disfarçado de grande literato assinando livros e colunas jornalísticas que servem de modelos a outros imbecis e são alvo de elogios nas seções de cartas dos leitores. As academias de letras estão cheias deles, arrotando cultura e erudição, meio que cheirando a naftalina.
 
Intelectuais provincianos são sempre imbecis.  Quer saber? Imbecis podem até ser governadores, presidentes de fundações culturais, já que no Brasil se vê de tudo e ninguém se espanta mais com nada.
 
As grandes empresas de pesquisa revelam índices altíssimos pra alguns imbecis e, naturalmente, só são pesquisados imbecis que com seus votos elegeram o outro. Assim fica tudo em casa mesmo, como dizem. 
 
Há que se tomar muito cuidado com imbecis em cargos de poder, ficam perigosos por se acharem escolhidos dos deuses e são capazes de cometer arrogâncias impensáveis sempre aplaudidos pelo séqüito que costuma segui-los. Grande séqüito é bom dizer, porque adoram puxa-sacos atrás deles todo o tempo incensando-os de forma convicta.
 
As Assembléias Legislativas e as Câmaras de Vereadores estão abarrotadas deles como de resto quase todo o Congresso Nacional.  Fazem muito bem o papel de capachos, limpa-trilhos e vaselina.
 
Nas artes em geral podemos observá-los com mais nitidez: por exemplo, imbecis detestam teatro de qualidade e são eles que fazem a festa de outros imbecis que lotam teatros em todas as cidades com esses espetáculozinhos caçadores de níqueis - sentem uma atração irresistível por comediazinhas tolas. Têm um riso fácil, naturalmente.
 
Mas costumam mesmo entrar em Teatros quando neles tem alguma cerimônia ou alguma homenagem a outro imbecil e, justiça seja feita, adoram freqüentar solenidades do tipo formaturas ou entrega de prêmios-aí estão no seu habitat.
 
Fogem, felizmente fogem de espetáculos com algum conteúdo e são capazes de alavancar a carreira e a conta bancária de qualquer pseudoartista imbecil que não exige deles mais que o riso fácil e superficial a que estão habituados.
 
No cinema a grande maioria dos filmes é feita pensando neles - não gostam de se sentir fora de moda, afinal. Poemas escritos por imbecis são reconhecidos com uma mera passada de olhos, faça o teste. Se forem poemas eróticos, então, são capazes de brochar o mais potente dos cidadãos. Também gostam de escrever sobre vultos de suas cidades de origem e são mestres em prestar homenagens a outros imbecis mortos.
 
Praticamente todo mundo convive com eles diariamente nas TVs, nas revistas, nos jornais, nos caixas de supermercados, nas universidades, nos consultórios, comemorando aniversários nas mesas das churrascarias – estão espalhados por aí e parecem sempre felizes, parecem sempre ter dado certo. 
 
Posso apostar que você conhece muitos, é ou não é? Michel Foucault dizia que só eles conseguem ser felizes num mundo tão caótico e turbulento porque sua convicta imbecilidade os protege dos problemas e das dores universais. Imbecis nunca se suicidam, pode prestar atenção.
 
Desconfio que o reino dos céus se houver mesmo céu, também é deles porque fazem por onde ganhá-lo, são sempre muito religiosos.
 
Não adianta esquivar-se de imbecis, multiplicam-se e se materializam como espíritos de escravos africanos nos terreiros de umbanda. Cada um deve neutralizá-los à sua maneira se não quiser morrer de irritação, tédio e mediocridade. Se você é um livre pensador e minoria no mundo tente alguma coisa que salve sua pele da influência pegajosa e daninha deles, o mal que causam normalmente é insidioso e dissimulado, fique atento.
 
Dizem os antigos que uma certa dose de agressividade saudável ou garrafadas de curandeiros e até ramos de alecrim e arruda ajudam a mantê-los afastados, mas acho mesmo que o que funciona é deixar de lê-los, ouvi-los, conviver e conversar com eles e, principalmente, deixar de freqüentar lugares que eles freqüentam. 
 
Conheço muita gente que tem conseguido mantê-los nos seus escaninhos assim. Experimente. Por via das dúvidas comece por mim não lendo esse artigo. 
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