revista bula
POR EM 07/01/2012 ÀS 03:54 PM

Farinha do mesmo saco

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Esta história das sanguessugas tem provocado discussões homéricas e acho que é bom, é saudável que se exercite um pouco esta coisa que se chama cidadania. Não importa que os conceitos sejam muitas vezes primários, que os resultados sejam viciados por visões tortas do mundo. O que vale, mesmo, é o exercício. Sem ele, jamais passaremos de multidão a povo. 

O Adamastor, homo morbide politicus, não para mais de discutir. A tônica do que se ouve sobre o assunto é sempre a mesma: políticos são todos corruptos. 

Entrei numa dessas discussões no bar do Zégeraldo para tirar meu amigo de uma enrascada. Ele havia dito o que pensava e isso é sempre perigoso, pois ele pensa. 

Valendo-me da maiêutica (parto, em grego, método socrático), perguntei ao oponente mais exaltado do Adamastor, se político tem família (pai, mãe, irmãos) e ele disse que sim, claro. E que tal a família de um político?, voltei a perguntar. Um olhar gelado de desconfiança me cobriu. Ora, nada de especial com a família de um político. 

Os outros começaram a coçar os braços, principais órgãos do pensamento em algumas situações. Voltei à carga, querendo saber se ele conhecia algum político, algum vereador, que fosse. Disse-me com orgulho que ao lado da casa dele morava um. Então perguntei se era possível notar algum sinal particular em seu vizinho. Não, nada de especial. Pelo contrário, um homem bem comum. Olhando assim para ele, revelou o adversário do Adamastor, ninguém imagina que se trata de um vereador. Igual a nós. 

Será que a corrupção não abrange um universo bem mais amplo do que geralmente se supõe?    

Onde moro, assisti a um mesmo cidadão vender os vinte votos de sua família para três candidatos diferentes. Nenhum dos três se elegeu, mas o vendedor de votos continua incólume, sem que ninguém ouse acusá-lo de corrupto. Porque corrupção tem esta distinção de passiva e ativa, coisa difícil mesmo de se entender. 

Ora, na cartilha onde se estudam assuntos pertinentes à corrupção, aprende-se que só existe corrompido onde existir corruptor. 

E então me parece que o problema está sediado muitos furos abaixo. Todos nós, ou quase todos, já ouvimos falar de valores éticos, que desde o Aristóteles tem farta literatura a respeito deles. Mas o Aristóteles, me dirão alguns, e sua Ética a Nicômaco ou qualquer outra ética, são coisas antigas, a que não se deve dar muito crédito. Coisas antigas. 

A prática da corrupção é facilitada pela indiferença de um povo, que não vê na corrupção qualquer qualidade imoral. Nada é mais parecido com um povo do que seus políticos. Ninguém nasce político, eles não pertencem a uma espécie humana diferente dos outros seres. 

Estávamos para deixar o estabelecimento do Zégeraldo, quando alguém comentou a situação de determinado ex-prefeito, que foi parar num asilo para pessoas idosas. Foi quase unânime a manifestação negativa do grupo, considerando o cidadão citado um fracassado. Não foi esperto nem para roubar, dizia um deles. Em seu lugar, eu passava a mão, como todo mundo faz. 

Saímos em silêncio, o Adamastor e eu. Não havia argumento possível sem que houvesse uma base mínima comum de pensamento.

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