revista bula
POR EM 09/09/2011 ÀS 11:38 AM

Falando de amor

publicado em

Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.

O que a língua andou limpando momentos antes  ou se a proprietária contraiu cinomose, nada disso importa na hora do beijo, que é a demonstração maior de carinho. Aliás, me cochichou agora meu anjo da guarda, dizendo que cinomose é doença de cachorros e não costuma acometer mocinhas que os beijem. Na boca e com algum requinte cuja razão desisti de entender. Mas antes que me acusem de anticanino, devo declarar que sempre amei os cães e foram muitos os que tive. E juro que nunca usei de crueldade com eles. Se não foram inteiramente felizes em minha companhia, é porque não entenderam que em nossas relações jamais abdiquei de meus direitos. Mesmo quando os afagava, e o fazia com frequência, mantinha alguns princípios, como o da hierarquia, em vigor.

Comecei a observar melhor as relações entre os seres humanos e os caninos e descobri que os antigos guardas, em alguns casos, ou agregados, em outros, vão-se tornando aos poucos os verdadeiros titulares das residências, com todos os privilégios que a titularidade impõe. Aos humanos, seus servidores, resta cada vez menos espaço, como convém aos súditos, mesmo quando humanos.

Outro dia uma sobrinha, na defesa de seu cão, disse que a humanidade que se frega. Bem assim: que se frega. Porque o homem e sua maldade.

Nada contra o amor pelos animais, mas para isso é necessário odiar o ser humano? Mas ela ainda não anda de quatro, como seria justo supor. Apesar de que, ultimamente, ela vem treinando um som gutural muito estranho. Acho que em breve ela estará rosnando.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio