revista bula
POR EM 03/07/2011 ÀS 07:05 PM

Eu, eu mesma e minha vagina

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Cara Vagina,

Não está fácil o mundo aqui fora. Como você deve saber, somos mulher, e isso não exatamente ajuda.

Há quem discorde, e diga que mulheres têm muito mais facilidades do que homens. Porque somos fisicamente mais fracas, e porque a sociedade machista quer nos agradar e nos levar para cama, o que deveria abrir certas portas. Talvez, mas implica em te usar quando os outros querem, e não quando eu quero. Te colocaria meio que a serviço deles. Te curto vagina, e levo a sério seus sentimentos e vontades. Tento sempre que possível, atendê-los. Ouço e levo em consideração.

(Sigo te devendo o Javier Bardem. Tá difícil, mas não desisti).

Não é tarefa fácil. O mundo não exatamente curte o tipo de relação que nós temos. O mundo prefere que a gente não se entenda e que eu não te dê ouvido ou voz. Que eu não consiga te entender e te agradar. O mundo fica mais tranquilo quando mulheres e vaginas são inimigas.

O mundo mina nossa relação tratando meu temperamento quase insuportável como se fosse consequência de negligenciar suas vontades e desejos. Ah, se eles soubessem o que se passa aqui...

Mas não sabem. E não só no que diz respeito a você. O mundo não entende nada de mulher. E prefere assim. Prefere fingir que tudo se resume a TPM, muito sexo, pouco sexo, nenhum sexo, vontade de procriar e competitividade entre vaginas. Eles acham que é assim simples. Que somos assim óbvias.

Claro. Afinal vai tudo de vento em popa, e as pessoas só fazem melhorar. Por que raios alguém teria algum motivo para se aborrecer com esses humanos lindos? Puro desequilíbrio. Pura falta de sexo. Até porque são todos exímios amantes que de tão incríveis, mudariam nossa vida com uma noite de sexo.

Mulher é tudo louca, repetem por aí. Quero ver aguentarem o que aguentamos.

O mundo é machista. Não estou militando, não estou nem reclamando, mas é. São os fatos. Mulheres são machistas. Constatação que não é novidade, mas é real. Se um marido dá em cima de uma mulher X, e ela deixa: ela é uma puta. Se uma esposa, dá em cima de um homem solteiro: ela é uma puta. Gostaria de entender. Gostaria que eles entendessem.

Mas como eles entenderiam? No mundo heterossexual machista tem coisas que eles nem imaginam que passamos, simplesmente por existir. E não falo de opressão, ou violência, ou injustiça. Falo das pequenas coisas do dia a dia. Eles não imaginam o constrangimento que é ir ao ginecologista e além de responder questões íntimas sobre nós duas, ainda deitar naquela mesa medonha, te deixar exposta, e quando parece que não existe como piorar, o médico senta ali no meio e puxa uma luminária que tem um spot na ponta, para te enxergar melhor. Tudo isso enquanto pergunta o que temos feito da vida. No momento estamos passando vergonha, doutor.

O mundo maravilhoso da intimidade feminina. Da manutenção, do cuidado e da higiene.

Não imaginam como sofremos na depilação. Não imaginam que mais do que tornar tudo esteticamente mais agradável para eles, nos submetemos a rotina de arrancar os pelos todos com cera quente porque fica tudo mais gostoso. E a dor passa e a sensação fica. E é deliciosa. Pararei por aqui. Porque você sabe do que eu estou falando e aqui não é lugar para ficar de conversinha para punheteiro se inspirar. Até porque eles te imaginam depilada, mas, não imaginam o contorcionismo envolvido, e a sensação humilhante que é ter que te abrir para a fulana depiladora deixar tudo impecável.

Temos nossos bons e maus momentos. Confesso me chatear com você quando você faz barulhos fora de hora, na frente dos meninos, durante o sexo. Eu sei, foi ele quem empurrou ar para dentro e uma hora o ar teria que sair. Eu sei que acontece muito de vez em quando, mas eu gostaria que não acontecesse nunca. O que importa é a gente, mas eu gosto e quero impressionar alguns dos moços para quem te apresento. Gostamos deles.

Não imaginam também como é gostoso quando concordamos, e que sempre sabemos o que queremos, mesmo quando não é a melhor das ideias. Não imaginam como somos doces e gentis com eles, mesmo quando eles fazem tudo errado. Como insistimos e mostramos o caminho, mesmo quando o começo é pouco promissor. Não entendem que a única forma de terem alguma chance com a gente é se nos entendermos. Não sabem nos valorizar e cuidar das duas em igual medida.

Sorte que nos entendemos, e contamos uma com a outra. E fazemos nossos exercícios Kegel e nos preocupamos mais com incontinência urinária na terceira idade do que com o tamanho dos pênis que encontramos por aí.

Deixa eles, Vagina. Uma hora eles aprendem.

Tenho que ir agora, hora do banho e depois cinema. Te vejo mais tarde.

Beijos,

Carolina

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