revista bula
POR EM 07/10/2011 ÀS 12:28 PM

Estudar muito até ficar burro

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“Vivendo e aprendendo a jogar. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas, aprendendo a jogar.” (Guilherme Arantes)

Não sei quem começou tudo isto, que maldita escola desta cidade decidiu ministrar aulas aos sábados, domingos e feriados. Impaciente, Júlia me provoca, na autoridade inquisitiva de seus 13 anos, qual a importância real futura de se saber que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.

Por outro lado, Felipe, o irmão mais velho, deixou de praticar piano e abandonou a galera do futebol porque os professores incutiram que é preciso estudar mais, muito mais, se quiser vencer a concorrência do vestibular no final do ano.

Exigência do mercado, cobrança dos pais ou márquetim das escolas? Mais que adestrar adolescentes é essencial educá-los. E existe forma mais transformadora senão através das vivências? Então, que ensino é este?

Semírames, por exemplo, embora pertença a uma velha geração desprovida da informática (sim, meus jovens, houve um tempo em que sobrevivemos — razoavelmente bem — sem o mister de orcutes, tuíteres e sexo virtual), também se entregou de corpo e alma aos afazeres acadêmicos e à carreira profissional.

Semírames estudou fora da cidade natal praticamente uma vida inteira. Aos quinze anos, foi morar de favor na capital, na casa de uma tia, onde concluiu o colegial (hoje denominado Ensino Médio). Não fazia outra coisa senão ir para o colégio e para a igreja (raciocínio da tia-tutora: tomar conta dos filhos dos outros sempre exige cuidados adicionais, uma vigilância diuturna contra os estrogênios e o capeta). Lazer? Mais ou menos. Torcia para que as segundas-feiras chegassem logo.

Passou no vestibular de Medicina, com sobras, na primeira tentativa. Mesmo que não suportasse ver sangue, sentir o olor sofrido de seus pacientes pobres, e dissecar cadáveres formalizados, “venceu a fraqueza” e se formou doutora após seis anos hibernada em livros, plantões e um bocado de solidão.

Depois, foi pra São Paulo fazer residência médica em Psiquiatria. Cada louco com sua mania, diz o ditado. Passou em primeiro lugar no concurso. Três anos de labuta na terra da garoa.

Cismou em fazer mestrado na Espanha, onde permaneceu por dois anos. Já que estava na Europa mesmo, calculou que não custava nada um esforço adicional e se embrenhou num doutorado no Reino Unido, onde viveu mais uma temporada.

Na semana passada, encontrei Semírames numa cafeteria. Lia um livro cujo título em francês na capa eu não fui capaz de decifrar. Eu não a via desde os tempos de colégio, época em que até tentei um resvalo, um afér (do francês, só conheço afér e jetami), uma exposição consentida dos gametas sob o eflúvio da testosterona. A tentativa de ejaculação-namoro, claro, foi malfadada. Prossigamos.

Semírames contou-me que, beirando os cinquenta anos, continuava solteira graças a Deus (achei engraçado ela falar daquele jeito porque, no início da conversa, vangloriou-se pelo ateísmo, apesar dos esforços da tia). “Antes só que mal acompanhada”, ela reiterou sem transmitir uma nesga de veracidade. Perguntei então pelos familiares.

Há cinco anos, ela não conversava com os dois irmãos que restavam (um terceiro morreu suicidado com uma azeitona disparada na cabeça). Também estava brigada com o pai, só que por mais tempo, “uns vinte e cinco anos, eu acho” (ela falou, como se a vida durasse para sempre, fazendo as contas com os dedos das mãos, feito criança estudando a tabuada. Será que hoje em dia ainda se decoram tabuadas?! Meu Deus do céu...).

Com a mãe travava discussões homéricas, contudo, mantinha ainda algum contato, por pura compaixão: “mulher honesta e trabalhadeira abandonada pelo marido e os filhos homens”, ela disse, sem disfarçar revolta, eximindo-se da sua cota-negligência.

Conferi o corpo de Semírames do alto até embaixo. Percebi que ele já não estava tão atraente quanto parecia nos tempos de colégio. Sorte minha ter poupado sementinhas? Saquei que a recíproca era verdadeira, pois, impiedosa, comentou a minha vasta calvície e a magreza andropáusica um tanto cadavérica.

Tentando quebrar o gelo, contei a ela que eu pretendia fazer a minha primeira viagem a América, conhecer Nova Iorque, o Central Parque, o monumento ao bítou assassinado John Lennon, os museus, teatros e tudo o mais que houvesse de culturalmente bom pra se ver por lá. Ela me repreendeu dizendo que “os norte-americanos são uns tapados”.

Então comentou que conhecia todos os continentes do planeta, cerca de cinquenta países (para o meu tédio, citou uns vinte), muitos nos quais realizou palestras memoráveis durante conclaves médicos internacionais.

Com indisfarçável orgulho de uma mulher plenamente dedicada à mente humana e à carreira acadêmica, ela me contou que falava com fluência cinco idiomas e preferia o mandarim, porque era mais difícil e muita gente desistia no meio do caminho. Ela não. Ela nunca desistia. Ela estudou, foi até o fim. Portanto, mais uma vitória, certo? Humm...

Quando perguntei pela vida afetiva, se estava casada, se tivera filhos, ela corou a face, encharcou a lâmina dos olhos, e garantiu que nunca encontrara um homem à altura dos seus anseios, alguém com quem pudesse conversar de igual para igual, um reprodutor com cultura geral acima da média, o pai perfeito para os filhos que jamais teve.

Como ninguém é perfeito, perguntei se a saúde ia bem e tudo o mais. Então ela requisitou reservas na informação e contou como havia extraído uma das mamas por causa de um tumor, e que preferia não falar mais sobre o assunto, se eu não me importasse. Eu não me importava.

Então Semírames se levantou. Conferi novamente a palidez repelente do seu corpo. Eu insisti em pagar o caputino, os pães de queijo, mas, ela se recusou com veemência.

Hora da despedida e outro dilema. Pensei em beijá-la no rosto, mas tive medo de parecer atirado. Contive o desejo fraternal de abraçá-la e apertei a sua mão do jeito mais formal que consegui.

Anotei meu telefone num pedaço de guardanapo e ela retribuiu entregando um cartão de visitas onde constava apenas o telefone do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina.

Enfim, caros Júlia e Felipe, o teorema de Pitágoras tem lá a sua importância. Nada, porém, que se compare a tocar piano e jogar bola: “afinal, aquela bola entrou ou não entrou?!”. A vida é assim mesmo, um mar de dúvidas. E, na maioria das vezes, as bolas não entram.
 

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