revista bula
POR EM 03/03/2011 ÀS 01:26 PM

Escritor francês afirma que Oscar Niemeyer é um imbecil

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A Companhia das Letras vai publicar “A Lebre da Patagônia”, memórias do francês Claude Lanzmann, de 85 anos, em junho. Na quinta-feira, 24, a “Folha de S. Paulo”, por intermédio da “colaboradora” Leneide Duarte-Plon, entrevistou o jornalista, escritor e diretor de filmes. A entrevista contém opiniões contundentes e heterodoxas sobre Oscar Niemeyer e discutíveis sobre Simone de Beauvoir (1908-1986). Sobretudo, é polêmica e, às vezes, divertida. 
 
Simone de Beauvoir e Lanzmann se tornaram amantes quando ela, escritora reconhecida, citada até como filósofa por alguns apressados, tinha 44 anos e ele, 27 anos. Uma diferença de 17 anos. “Fui o único homem com quem ela teve uma vida conjugal, marital, durante quase oito anos. Quando a conheci ela não tinha mais relações sexuais com Sartre, Muitas pessoas dizem que fazíamos sexo coletivo. Não é verdade”, sustenta Lanzmann. O problema é que a “Folha” e Lanzmann esquecem, não se sabe por quê, de citar o escritor americano Nelson Algren, uma das paixões mais flamantes da escritora. Para dizer pouco, com Algren ela teve seu primeiro orgasmo (porque Sartre, rápido como coelho, amava a si próprio, e saltava rápido de uma cama para a outra. Ela tinha 39 anos ao ter o primeiro orgasmo). Tudo bem que o relacionamento com Lanzmann seja um fato, mas ignorar a paixão explosiva de Simone de Beauvoir por Algren é deixar de informar o leitor. (Leia abaixo duas cartas da escritora para o americano intranquilo. Algren era casado e não gostou de ser citado, de forma crua, num dos livros da autora. Na sua literatura, de matiz memorialista, nada escondia sobre si e os outros. Algren pôs fim ao relacionamento — o que a deixou muito abatida. Noutro livro, “Cartas a Nelson Algren — Um Amor Transatlântico”, publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, escancarou o relacionamento.)
 
Um dos problemas da entrevista parece ter faltado “coragem” a Leneide Duarte-Plon em alguns momentos; noutros, mostrou-se questionadora, na medida certa. Lanzmann diz: “Ela [Simone de Beauvoir] me ensinou o mundo, ela me mostrou tudo o que ela conhecia e eu obriguei-a a pensar porque não sou um sujeito muito simples. (...) Ela me amava muito e mesmo depois da ruptura, que foi iniciativa minha. Ela ficou infeliz mas nós continuamos amigos”. Não duvido que Lanzmann seja sofisticado, embora não se conheça, ao menos no Brasil, nenhuma peça filosófica do autor para comprovar que era, ou é, um mestre do pensamento. É duvidoso que Lanzmann tenha “obrigado” Simone de Beauvoir a pensar, até porque, quando começaram a se relacionar, ela já tinha uma obra e tinha como mestre Jean-Paul Sartre, que, ao contrário do jornalista, deixou um trabalho discutível mas consistente no campo filosófico.
 
Lanzmann diz coisas curiosas sobre a escritora, que tinha uma imagem posuda, circunspecta. Ao ser perguntado sobre a qualidade mais importante de Simone Beauvoir, o escritor diz: “Primeiramente a alegria, ela era alegre, engraçada, não mentia a ela mesmo, a honestidade intelectual e a sede de conhecimento, de ver” (sobre a retidão intelectual de Simone de Beauvoir, ou falta dela, recomendo o livro “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra”, do historiador inglês Tony Judt. A escritora e, sobretudo, Sartre saem muito mal). É engraçado como homens, quando perguntados sobre a qualidade mais importante de uma mulher, raramente falam de sua inteligência — que não é o mesmo que “sede de conhecimento”.
 
Segundo Lanzmann, Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha da escritora, “tentou” eliminá-lo da vida de Simone de Beauvoir. Inversamente, Lanzmann estaria se inserindo à força na vida da autora de “O Segundo Sexo”? É provável.
 
Uma das opiniões mais curiosas de Lanzmann é sobre o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, o “imortal” comunista-stalinista. Ao visitar o Brasil, há 25 anos, o jornalista diz que hospedou-se num hotel projetado por Niemeyer (a “Folha” erra ao não identificar o hotel). “O hotel era um prédio tipo torre, de Niemeyer, que é um criminoso. Um arranha-céu circular é totalmente idiota, um absurdo”, ataca. Instigado, acrescenta: “Nesse arranha-céu onde o festival [de cinema] se desenrolava, esperávamos 45 minutos de fila para descer ou subir. Esse é o crime do arquiteto. O círculo serve para quê? As pessoas fazem os prisioneiros andarem em círculos nas prisões cortando assim qualquer projeto, qualquer futuro, é isso o círculo. Os arquitetos que constroem prédios circulares são idiotas. Não tenho nenhum respeito por Oscar Niemeyer. Ele construiu Brasília? Pior para Brasília”.
 
Carta de Simone de Beauvoir a Nelson Algren
 
(17 de maio de 1947)
 
A bordo de um avião da KLM
Sábado à tarde, Terra Nova
 
Meu gentil, maravilhoso e bem-amado "jovem nativo" [Nelson Algren], você mais uma vez me fez chorar, mas lágrimas doces, doces como tudo o que vem de você. Eu acabara de me acomodar no avião e abrir seu livro, quando tive vontade de ver a sua caligrafia. Voltei para primeira página lamentando não ter pedido a você que nela escrevesse alguma coisa, e eis que elas estavam ali, suas ternas, atraentes e belas palavras. Apoiei a testa contra a janela e chorei acima do mar azul, mas lágrimas doces, lágrimas de amor, do nosso amor. Eu o amo. Antes, o chofer de táxi me perguntara: "É seu marido?" "Não." "Ah, um amigo?", e acrescentara com uma voz cheia de simpatia: "Como ele parecia triste!" Não pude me impedir de dizer: "Nós estamos muito tristes por nos separar. Paris é muito longe!" Então ele começou a falar amavelmente de Paris. Foi melhor você não ter vindo comigo a Madison Avenue e La Guardia. Havia alguns conhecidos com as piores vozes francesas e os piores rostos franceses, e Deus sabe como eles podem ser antipáticos. Eu estava aturdida, incapaz até de chorar naquele momento. Apenas aturdida. Depois o avião decolou. Gosto de aviões. Quando se vive intensamente uma grande emoção, ele é o único meio de transporte que se adequa ao nosso estado de alma, creio. O avião, o amor, o céu, a tristeza e a esperança constituíam um todo. Eu pensava em você, lembrava-me com cuidado de cada detalhe, lia seu livro, que aliás prefiro ao outro. Ofereceram-nos uísque e um bom almoço: frango ao creme e sorvete de chocolate. Você teria ficado radiante com a paisagem, as nuvens, o mar, a costa, as florestas, as cidadezinhas. Distinguia-se muito bem a Terra, e você teria sorrido o seu sorriso caloroso e infantil. Por sobre a Terra Nova, a noite já caiu, enquanto em Nova York ainda são três da tarde. A ilha é belíssima, toda com pinheiros sombrios e lagos melancólicos, com um toque de neve aqui e ali. Você também gostaria dela. Aterrissamos e devemos aguardar duas horas. Onde está você neste exato momento? Talvez em um outro avião. Quando você voltar ao nosso pequeno lar, eu estarei lá, escondida sob a cama e em todos os lugares. Doravante estarei sempre com você, nas tristes ruas de Chicago, sob o metrô de superfície, no quarto solitário. Estarei com você como uma esposa amorosa com seu marido bem-amado. Nós não teremos de despertar porque não é um sonho; é uma história real e maravilhosa que apenas se inicia. Eu o sinto comigo e aonde eu for você irá, não apenas seu olhar, mas você inteiro. Eu o amo, e não há mais nada a acrescentar. Você me toma nos braços, eu me estreito contra você e o beijo como costumava beijá-lo.
 
Sua Simone.
 
Carta de Simone de Beauvoir a Nelson Algren
 
Sexta-feira, 26 de setembro de 1947
 
Nelson, meu amor,
Foram só vinte e três horas até Paris, aportamos às 6h, amanhecia. Eu estava muito cansada depois de duas noites sem dormir, bebi café e tomei dois pequenos comprimidos para me manter acordada durante o longo dia. Paris estava muito bonita, um pouco nevoenta, com um céu cinza, suave, e o aroma das folhas mortas. Fiquei muito contente ao descobrir que tinha muito a fazer aqui, tanto que só devo ir para o campo o mês que vem. Primeiro, o rádio dá ao Temps Modernes uma hora inteira a cada semana para falar sobre o que quisermos, da maneira que quisermos. Você sabe o que significa a possibilidade de chegar a milhares de pessoas e tentar fazer com que eles pensem e sintam do modo que acreditamos seja correto pensar e sentir. Isso tem de ser manejado com muito cuidado, e hoje de manhã tive uma espécie de conferência para falar sobre o assunto. Segundo, o Partido Socialista quer nos consultar sobre a possibilidade estabelecer uma conexão entre política e filosofia. Parece que as pessoas começam a acreditar que as idéias são algo importante. Terceiro, havia inúmeras cartas de todos os tipos e muito trabalho para tocar na própria revista. Eu estava feliz, quero trabalhar, trabalhar muito. A razão por eu não ter ficado em Chicago é essa minha eterna necessidade de trabalho, de dar sentido a minha vida pelo trabalho. Você tem a mesma necessidade, e essa é uma das razões pelas quais nos entendemos tão bem. Você quer escrever livros, bons livros, e, aos escrevê-los, ajudar o mundo a ser um pouco melhor. Eu também quero isso. Quero transmitir às pessoas minha forma de pensar, que creio ser a verdadeira. Eu devia desistir das viagens e todo tipo de diversão, devia desistir dos amigos e dos encantos de Paris a fim de poder ficar para sempre com você; mas não poderia viver somente de felicidade e amor, não poderia desistir de escrever e trabalhar no único lugar em que minha escrita e meu trabalho talvez faça sentido. O que é bastante difícil, pois, como lhe disse nosso trabalho aqui não é muito promissor, e o amor e a felicidade são coisas tão verdadeiras, tão seguras. E, no entanto, ele tem de ser feito. Entre as mentiras do comunismo e do anticomunismo, contra essa falta de liberdade que grassa quase em toda França, algo deve ser feito por pessoas capazes e que se importem com a situação. Meu amor, isso não cria nenhuma divergência entre nós; pelo contrário, eu me sinto bem próxima de você nessa tentativa de lutar por aquilo que julgo verdadeiro e bom, seguindo seu exemplo. Mas, ainda assim não pude evitar o choro convulsivo esta noite, já que passei momentos tão felizes com você, amei-o tanto e agora uma distância enorme nos separa.
 
Sábado — Estava tão cansada que dormi 14 horas, só acordei uma vez durante a noite para pensar em você e chorar mais um pouco. De tanto chorar, estava tão feia esta manhã que, ao cruzar com Camus na rua, ele me perguntou se eu não estava grávida: segundo ele, minha cara não deixava dúvidas!

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