revista bula
POR EM 22/09/2011 ÀS 10:58 PM

Escrever sobre Deus? Mas Deus não existe

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Dezoito dias para escrever este texto. Quem me conhece e trabalha comigo, sabe que isso é quase uma eternidade no mundo de Carolina. Normalmente, no minuto em que uma pauta é proposta, o gancho surge e o texto sai. Mas não desta vez.

Primeiro porque eu, como total e absoluta descrente, acho que explicar porque não acredito em Deus é inútil e em si uma contradição. Seria como explicar não acreditar que vacas voam. Vacas não voam, ponto. Os que acreditam que voam que expliquem o por quê. Cabe a mim dizer: cadê vaca no céu? E nem percam tempo argumentando que o amor também não existe materialmente mas muda as pessoas e a vida delas. O amor é outro departamento, passa longe de autoridade onipresente-ciente. O amor nasce no nosso umbigo, cresce e vai viver no umbigo dos outros. A noção de Deus não me faz falta.

O Seinfeld diz em um stand up que as pessoas lembram de Deus quando estão jantando na casa de alguém, usam o banheiro e a descarga não funciona. Faz piada com o desespero que toma conta do pobre que se pega em uma encruzilhada, sem poder fazer muito a respeito, e sem ter coragem de encarar os outros partícipes. O pai da merda se volta ao sobrenatural e espera um milagre. Isso já me aconteceu, e Deus não cruzou meus pensamentos. A única coisa que passou pela minha cabeça durante os infindáveis 12 minutos em que fiquei ali dentro: usar ou não usar o cesto de lixo como balde, encher de água na pia e simular uma descarga? Usei. Duvido que quem acredita que exista Deus solucionasse a coisa sobrenaturalmente. Deus não vai ligar a água do prédio.

Outra coisa: vocês aí que acreditam, acham mesmo que Deus estaria olhando por todos os seres em dilema com descargas?

Deus, para mim, surgiu quando o primeiro espertão inventou a primeira história para explicar algo que até então não tinha explicação. Aí, tempos depois, um cara ainda mais esperto percebeu que era uma forma de manter o pessoal na linha.

Aliás, eu sempre acreditei que a religião existe para manter as pessoas na linha. E com o enfraquecimento da igreja, e a decadência da instituição familiar, o que sobrou é um vazio. Os ritos impostos pela religião eram a principal apostila de comportamento humano que existia. Claro que discordo com grande parte, mas eram uma forma eficiente de impor o caminho que, se seguido, resultaria em uma sociedade administrável.

Quando a religião se enfraqueceu com o avanço da ciência e da libertinagem da sociedade de consumo, a família até tentou, mas não conseguiu ocupar esse espaço e o mundo começou a mudar. Graças a Deus, a religiosidade foi substituída pelo humanismo.

Minha mãe tem um grande amigo padre, com quem eu convivo desde sempre. Ele sempre ressaltou que embora eu não seja católica, meu comportamento é mais admirável que o da maioria das carolas que rezam todo domingo na missa das 18h. Minha fé nos outros e em mim me mantém na linha.

Já quase morri em acidente de carro, já perdi avós, pai, já quebrei perna caindo de palco, já fiz cirurgia, já vi minha mãe sendo ressuscitada num pronto socorro de hospital público. Nunca rezei ou acreditei que qualquer força sobrenatural pudesse ajudar. Nunca pedi a ninguém, que não outras pessoas, ajuda.

Como o copo de água com açúcar, rezar é muleta psicológica.

Eu ainda prefiro as soluções práticas que dependem da minha iniciativa, esforço e conhecimento. Não curto em nada esse conformismo e resignação. E a coisa da culpa, e do perdão. Não resolve muito carregar culpa ou apontar dedos, ou o ter o perdão garantido.

Essas regras em geral acabam sendo injustas ao colocar que somos todos iguais. Somos e não somos. Eu tenho um irmão 8 anos mais novo que eu. Uma vez, diante de uma proibição da minha mãe, meu irmão argumentou irritado, dizendo que eu na idade dele podia fazer aquilo que minha mãe tinha acabado de vetar. Minha mãe, só respondeu: "Sua irmã podia ir mais longe porque aguentava levar tombos mais altos que você na mesma idade". Faz total sentido para mim. Tem gente que aguenta mais e gente que aguenta menos.

Porque, cá entre nós, a vida é a maior bully de todas. Rezar não vai mudar isso. Olhar para os dois lados antes de atravessar é mais eficiente que rezar duas ave-marias. E para noites de insônia, eu ainda prefiro o Rivotril.

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