revista bula
POR EM 22/12/2012 ÀS 01:32 PM

E se Deus jogasse a toalha?

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E se o oceano incendiar? E se o Pantanal virar pirão? E se o Pão de Açúcar desmanchar? E se tiver sopa pro peão? E se à meia-noite o sol raiar? E se meu país for um jardim? E se meu amor, então, gostar de mim?

(Francis Hime / Chico Buarque)


E se o louco for você, e não o resto do mundo? E se as pessoas não tivessem mais medo dos malucos? E se ninguém jamais teve coragem de lhe contar toda a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade? E se os seus medos forem adotivos? E se a verdade o libertasse, como previsto nos textos sagrados, o que você faria com ela: escreveria um livro, plantaria bananeiras no meio da rua, teria um filho com uma prostituta?

E se Papai Noel ficasse gagá e esquecesse os presentes? E se os presentes à festa se rebelassem contra o bom velhinho, internando-o num hospício? E se o passado ficasse solenemente enterrado no passado e parasse de interferir tanto no presente? E se a memória não judiasse mais da gente? E se você tivesse chegado lá segundos antes? E se tivesse chegado segundos depois? E se a morte fosse comemorada como um gol de placa?

E se os lactentes exigissem leite desnatado tipo A, enriquecido com ômega 3, diretamente das tetas maternas? E se os filhos da mãe parassem de roubar o erário, sobraria mais recurso para o leitinho das crianças? E se houvesse vagas suficientes nos presídios para tantos delinquentes? E se alguém criasse uma CPI numa pizzaria, as investigações acabariam em quê: num prato de salada ou numa pilha de processos?

E se soubéssemos cantar o Hino Nacional Brasileiro, de cor e salteado, como se fosse “Parabéns Pra Você”? E se dependêssemos menos do mercado internacional do que da pinga? E se o mercadinho da esquina vendesse ilusões, qual seria o percentual de inadimplência da clientela? E se os pregadores religiosos fossem pregados numa cruz? E se fossemos criados à base de gemada, Biotônico Fontoura, vermífugos e toda a verdade nua e crua? E se os vermes desistissem de roer cadáveres, haveria espaço na história para tantas covas?

E se nascesse um camelo com três corcovas, de quem seria a culpa: do efeito estufa, dos legumes transgênicos, do acidente radiológico em Fukushima, da profecia maia ou, simplesmente, dos gametas aloprados da mamãe-camelo e de um adolescente? E se os tarados usassem viagra, morreriam de overdose? E se nós os liquidássemos, prescrevendo-lhes cápsulas de cicuta para se curarem da disfunção erétil? E se o Homem evoluísse um pouquinho e se transformasse num réptil? E se ninguém mais rastejasse a suplicar pelo amor de outrem? E se eu andar muito na linha e o trem me atropelar?

E se não houvesse mais tinta nas gráficas para imprimir esta avalanche de livros descartáveis? E se os acadêmicos imortais fossem condenados a pagarem Imposto de Renda para sempre, abdicariam da imortalidade? E se, ao invés de escrever um livro, todo homem ou mulher de bem se livrasse de um livro ruim, arrancando-o da própria biblioteca e doando para uma pizzaria com forno à lenha?

E se fosse permitido por lei hipotecar a própria sogra? E se houvesse vacinas para evitar a contração de matrimônios? E se toda a mágoa de um relacionamento falido saísse pela urina, como se fosse água? E se os filhos fossem poupados do melodrama de seus pais separados? E se estarmos juntos não for nada disso? E se os adultos deixassem de amedrontar as crianças com tantas bobagens? E se viver em família for pior que ser criado por uma loba, tal e qual sucedeu a Rômulo e Remo? E se torcedores de Remo e Paissandu se abraçassem ao final de uma partida de futebol no Pará?

E se Deus se arrependesse de ter feito o Homem a sua imagem e semelhança, como é que a gente saberia? E se ele alegasse sob os holofotes da irrisória justiça terrena que toda semelhança é mera coincidência? E se os porquês parassem de alimentar as dúvidas? E se a hóstia consagrada contiver glúten?

E se houver vida noutro planeta e este planeta for pior que o nosso, para onde correr? E se algum profeta marcar uma data muito longinqua para um novo apocalipse, quem suportaria tamanha expectativa? E se Jesus voltar? E se a inflação galopante voltar? E se a Gretchen voltar a rebolar nas tardes domingueiras?

E se o guarda de trânsito tivesse déficit de atenção? E se eu parasse de tomar ritalina? E se a meretriz Vitalina exigisse copular somente sob carteira assinada, como sói ocorre nos países desenvolvidos? E se, apesar de tanto desenvolvimento, os homens se envolvessem menos com as meretrizes? E se todas as manhãs, além das ereções reflexas, eu tivesse uma puta ideia?

E se os velhos se rebelassem contra o título de “melhor idade” e saíssem em passeata sem o uso de andadores? E se as demais pessoas — além dos enfermeiros, médicos e papa-defuntos — realmente se interessassem pelos mais velhos? E se as piadas velhas não morrerem? E se eu enterrasse você na areia? E se eu escrevesse nela um verso do Drummond, e você o lesse antes que a onda viesse nos lamber? E se, traído por uma foto na estante, eu me apaixonasse por alguém que já morreu?

E se os recursos financeiros para propinas não forem suficientes para concluir falcatruas e estádios de futebol até a Copa do Mundo de 2014? E se os elefantes brancos — não bastasse o fato de já serem albinos — voassem? E se a tromba da Roberta Close ressuscitasse? E se as gerações futuras concluírem que o futebol era o nosso ópio? E se o Joãozinho Sem Braço fizesse justiça com as próprias mãos? E se eu quebrasse uma vidraça do Congresso: seria preso ou condecorado? E se faltasse pão nas padarias e palhaços nos circos, seria o fim da política?

E se uma amante sifilítica aparecesse com um chester (ou uma winchester 73) na sua casa durante a ceia de Natal? E se o Zorro desmascarasse você na revelação do amigo oculto? E se você alegasse que foi motivado pelas forças ocultas? E se você dissesse a verdade, mesmo que tivesse boas chances para mentir? E se todos acreditarem que, ao invés de estar falando a verdade, você surtou durante os festejos natalinos?

E se eu parasse de especular tanto, de encher páginas e mais páginas com dilemas insolúveis? E se você me desse um tiro? E se as balas voltassem rapidinho para os canos fumegantes que mataram JFK, Luther King, John Lennon, Hitler e um passarinho pousado sobre a cerca? E se o mundo, na verdade, não existisse e tudo não passasse de um pesadelo terrível do Criador?

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